light gazing, ışığa bakmak

Sunday, August 5, 2012

trânsito

no dia quatro. não há como sair de Portugal. posso ser eu em particular, mas julgo que não. estamos física e mentalmente num canto da europa a olhar para o mar. o discurso público de políticos e jornalistas é asfixiante, a realidade da miséria é asfixiante, a realidade da corrupção e das famílias que look after each other, tudo é asfixiante e ainda mais- tudo distorce a realidade, para melhor ou pior conforme a circunstância, tudo limita a realidade e tira o poder. estamos sem poder de decisão pois acreditamos que tudo é igual em todo o lado, que não há alternativas, que este poder é o único possível. nada disto é verdade. também sabemos disto mas não sabemos onde estão as alternativas. andamos cegos no sentido de não ver para além de hoje, ou do fim do mês. medo de acabar, medo de ser despedido, medo de não ter que chegue para amanhã. daqui a um ano seremos uma nação com stress pós-traumático, outra condição a atulhar o pensamento.

no coração da europa, aqui onde acaba a França e começa o reino da Alemanha, aqui onde se situam inúmeras instituições europeias e a comissão dos direitos do homem, onde pouco se fala inglês, onde há museus, bibliotecas, universidades e galerias funcionais, onde a cidade serve os habitantes e os distrai no verão, onde o turismo não vem com mochila de Inglaterra para emborcar umas mines e talvez acima de tudo que vê a crise a sul com preocupação mas sem pânico. no museu alsaciano existem as três secções: catolicismo, protestantismo, judaísmo. as três deixaram marca na história de Estrasburgo, os guerreiros passaram de cá para lá muitas vezes nesta cidade. as janelas minúsculas nas águas-furtadas preparavam para a guerra porque alguma havia ou haveria de começar. nas margens do rio, ao lado dos turistas enfileirados, debaixo das pontes, vivem os sem-abrigo e marginais, junto aos ratos.

aqui as livrarias não fecham ou, se fecham, existem ainda muitas por fechar. não é possível sair daqui sem falar da Kleber: um posto no luminoso museu de arte contemporânea, outro posto na praça Kleber. isto não é a fnac portuguesa, aqui não falta nada do presente nem do passado, em várias línguas. as culturas mediterrâneas vivem aqui, o Sararago inteiro e José Rodrigues Miguéis. e a Gallimard também na praça Kleber para literaturas do mundo. na França agrupam-se e refugiam-se povos de todo o mundo que não se derretem no un-melting pot francês mas que se conservam. como é possível alguma vez na história deste país ter existido um tal Sarkozy, idiotazito empinado. ontem ouvimos, cortesia da mairie de Estrasburgo, o le Grand Ensemble de la Mediteranée com sons desse mar onde ainda hoje, agora mesmo, mergulham novos cadáveres, uma água testemunha de tais carnificinas como está sucedendo hoje, ali ao lado.

numa das catedrais mais imponentes decorria a missa. o padre mal se via lá ao fundo, o manto dourado, perdido na dimensão ridícula do espaço da catedral, as velas, a altura, a luz, os vitrais. Umas duzentas pessoas ouviam o discurso bem formulado sobre o materialismo, que o pão físico dura pouco tempo mas o pão espiritual dura para a eternidade. a condição humana é ridícula.

hoje é domingo:
 "Musées de la Ville de Strasbourg (officiel): C'est le premier dimanche du mois, donc c'est gratuit, n'hésitez pas à venir nous rendre visite ;-) !"

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