a mesa de luz

Wednesday, February 10, 2010

tinha de ser: Uíge


(foto de César Dias, daqui)

14 de Março de 1967
"Portaria n.º 22569
Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro da Marinha, declarar que o navio Uíge, da Companhia Colonial de Navegação, é afretado pelo Ministério do Exército, a partir de 6 de Abril de 1967, para transporte de tropas e material de guerra."

Enquanto o navio tiver capitão-de-bandeira só poderá ser utilizado em serviço do Estado, e não comercial. Nestas condições, tem direito ao uso de bandeira e flâmula e goza das imunidades inerentes aos navios públicos."


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"Lisboa>Rocha Conde d'Óbidos
30-07-1966 -
Depois de uma noite de viagem do Porto para Lisboa, enfim, chegou-se ao Cais da
Rocha Conde d' Óbidos, onde se cumpriram as formalidades de formatura e respectivo desfile das Forças, perante as "Altas Patentes Militares" em representação do respectivo Ministério.
Entretanto apareceram as Meninas do MNF-Movimento Nacional Feminino, que distribuíram um maço de tabaco a cada militar, no âmbito da sua acção psico-social e para consolo dos infortunados que estavam prestes a partir. Antes do embarque, todos militares lá cumpriram o ritual doloroso de despedida dos familiares, ali presentes, com os habituais abraços, beijos e respectivo choro à mistura com gritos e acenos.

Após este ritual, a rapaziada lá foi embarcando no Navio "Hotel" Uíge, para mais um cruzeiro até à Guiné, transportando todos os "soldados" à molhada, sem qualquer escala nos habituais portos turísticos, do Funchal, Agadir em Marrocos, Tenerife, nas Canárias ou Dakar no Senegal.
O preço da viagem apenas incluía a ida até Bissau, para aí ancorar no estuário do rio Geba, em frente ao Ilhéu do Rei e depois seguirem os seus destinos para as estâncias balneares no mato, na medida em que, os velhinhos queriam regressar no gósse-gósse para a Metrópole.

GUINÉ
04-08-1966 -
Chegada à Guiné, viagem de Bissau para Farim.

05-08-1966 - O Navio Uíge, ficou ancorado no meio do estuário do Rio Geba após a sua chegada a Bissau e às 7H00 efectuaram o desembarque directamente do “Uige” a CCaç 1585, conjuntamente com o Pel Rec Daimler 1134 para bordo da LDG 104 "Montante", que os iria conduzir até à Vila de Farim.

De madrugada o Uíge estava ancorado frente a Bissau, preparámo-nos para a transferência, para
uma barcaça de desembarque. À saída do Uíge, com os cumprimentos do Imediato, recebi embrulhada num guardanapo de papel, uma sandwiche e uma peça de fruta, era a merenda para o caminho.

Simpático. Convenci-me que seria rápida a viagem ali para os lados do Ilhéu de Rei. A geringonça andava ronceira, devagar e as horas iam passando também devagar.

Já no rio Cacheu a hora de almoço passava e nada. Fui ter com o Oficial que comandava o barco a LDG 104 "Montante". Almoçava no convés dentro dos conformes, toalha e guardanapo de pano bem passados a ferro. Talheres ou de alpaca ou mesmo de prata. Serviço de porcelana simples, com o nome da embarcação a azul, bonito.

Um grumete com casaco branco, guardanapo pendurado no pulso servia à mesa. O senhor, na marinha tratavam-se todos por senhor, nem se levantou, olhou para mim e disse-me que não tinha nada a ver com isso, o exército deveria ter providenciado. Estranhei o comportamento, ele
era Comandante do barco e eu era Comandante do Pelotão de Cavalaria e em Cavalaria havia educação e gentileza no trato, apesar da dureza. Tentámos com o meu pessoal ver o que ia no barco, falámos com os marinheiros, pouco adiantou.

Disse para o pessoal: desenrasquem-se, não temos outra solução e assim foi, safámo-nos,
passando alguma fome, comendo um ovo cozido e 1 laranja."

da Guerra da Guiné, por Carlos Silva.


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01/02/1967 -
Navio Uíge - Oceano Atlântico
São dezasseis horas e cinquenta minutos, do dia 1 de Fevereiro do ano de mil novecentos e sessenta e sete. Já só se avistam águas, além deste navio - o Uíge.

Estas são as primeiras letras que me saiem dos dedos após o embarque, no cais da Rocha Conde de Óbidos. Depois de um almoço que me deixou estupendamente satisfeito, foi um banho juntamente com um pequeno descanso que bem precisava; visto que quando embarquei trazia fortes dores de cabeça e mau estar, em virtude da falta de descanso antes da partida.

02/02/1967
Navio Uíge

Encontro-me já bastante melhor. A comida desde o princípio está a ser óptima, com vinho e fruta em abundância e sobretudo com o máximo de asseio e muita cordialidade por parte dos tripulantes. Houve a primeira formatura, para instruções acerca de qualquer acidente no navio. Tomámos os dois primeiros comprimidos - que vão ser semanais - contra o paludismo.

03/02/1967
Navio Uíge

Nos dias anteriores, só se tem navegado em águas bastante agitadas, o que fazia o navio dar enormes balanços, apesar de eu vir instalado em camarotes, enquanto os soldados vêm nos porões, em camas de madeira, que mais parecem caixotes.

Sendo portanto neste dia a ocasião em que o navio dá menos balanços, pois atravessamos mar calmo, como, ainda não se tinha visto. Já se está também a sentir calor.

04 e 05/02/1967
Navio Uíge

A vida aqui dentro torna-se bastante monótona!

Há imensas saudades de terra, pois além de água, só se tem avistado alguns navios, assim como a enorme quantidade de peixes-voadores, que passam a arrasar por cima das nossas cabeças dum lado ao outro do navio. O meu pensamento é chegar à Guiné, pois isto já me está a enfadar.

Escrevi hoje uma carta dirigida a familiares e amigos, a dar as despedidas, e saudá-los pela primeira vez.

Porém só a poderei enviar de Bissau.

Quando parti de casa, com a mochila às costas e uma mala vermelha com as minhas coisas, deslocando-me a pé para o comboio que me levaria a Lisboa, e ao passar o pinhal, donde ainda avistava o meu lugar onde cresci, olhei para trás e despedi-me do meu povoado, dizendo para comigo: até breve!

Estas foram as despedidas possíveis, pois não tive coragem de dizer absolutamente nada a ninguém antes de partir. Quis sofrer sozinho: por não saber explicar o que vinha fazer, para onde, e porquê?
Espero apagar a solidão, descrevendo o meu dia a dia, enquanto Deus me der forças e saúde para tal.

06/02/1967
Navio Uíge / Bissau

Poucas habitações, muitas árvores, dois cais marítimos; foi o que avistei pelas dez horas. Era a capital da Guiné! Seriam talvez três da madrugada quando navegámos águas Guineenses...

Depois, um pequeno ilhéu, tendo ao centro um obelisco, e finalmente, atracámos. Ficando ao meio do rio Geba, tendo dum lado: a ilha do Rei; e do outro: Bissau.

Por volta, das quatro da tarde, abalou o navio "Alfredo da Silva", que já estava atracado quando chegámos.

Durante o dia fez muito calor. Agora perto da noite, sente-se o tempo mais fresco, e com mostras, de nevoeiro. São seis horas da tarde e parece que vamos cá ficar esta noite. Tivemos o primeiro contacto com nativos em terras Africanas, por ora, simples empregados de barcos que transportam a carga do rio para fora; a meu ver, pobres diabos "mal vestidos" que só nos pedem coisas, entre elas - dinheiro de Lisboa.

Entre o Paraíso e o Inferno, de Abel de Jesus Rei

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"Chegados ao Cais da Rocha de Conde de óbidos, procedeu-se à instalação do pessoal e da bagagem no Navio/Motor UíGE da C.N.N., que, fretaso, recebia mais um contingente destinado ao Ultramar. Surgiu então a hora de destroçar. O último abraço de despedida aos familiares e amigos que os haviam acompanhado naqueles últimos passos. O último adeus à Terra que lhes dera o ser, na hora da partida para as terras inóspitas do Além . Voltariam? Talvez? E antevia-se já o dia em que os movimentos seriam diametralmente opostos.

Pelas 10.00H deu-se início à formatura geral das tropas a embarcar. Uma palavra de conforto acompanhada de pequenas lembranças de elementos do Movimento Nacional Feminino, uma rápida revista, uma breve alocução proferida por um representante do Ministério do Exército e finalmente um desfile pleno de garbosidade que terminou com o embarque.

Eram exactamente 12.00H do dia 20 de Janeiro de 1966, quando no Cais, a Banda Militar começou os primeiros acordes do Hino Nacional. E 12.05H quando o Navio/Motor começou a deslizar, afastando-se do Cais. Lenços que se agitavam freneticamente por sobre uma imensidão de gente, gritos de adeus e emoções que sibilavam pelos ares chegando aos ouvidos dos embarcados e ainda cartazes afirmando a presença de diversas localidades no futuro dos que partiam.

E o UíGE afastou-se até os perder de vista. Rumo? Bissau, Guiné Portuguesa!

Seguiam nesta viagem além da tripulação e entidades habituais, o B.CAç. 1876, Cª. Caçadores nº 1501 do B.CAÇ. 1877 e C.ARTª. 1525 e 1526, independentes, um PEL.MORT., um PEL. A.A.A. e ainda alguns elementos isolados perfazendo um total de 50 Oficiais, 154 Sargentos e 1243 Praças.

Dos dias passados no alto mar pouco há a salientar.

Nos primeiros dias fez-se sentir a falta de prática nestas andanças marítimas pois logo após o primeiro baloiçar houve a revolta quase geral dos estômagos em sinal de protesto. E depara-se então com o espectáculo dantesco dos militares deitados em qualquer recanto e o barco a revelar o resultado das indisposições. A compreensão dos tripulantes e sobretudo daqueles que mais sofreram as consequências pelo trabalho que isso lhes acarretou, foi o melhor lenitivo para o abatimento que pairava sobre o ambiente.

Finalmente os dias foram correndo e tudo normalizou permitindo uma distracção mais pura e mais viva. Uma curiosidade um tanto pitoresca, veio alertar os espíritos. Com prévio aviso das atitudes a tomar, repentinamente o tilintar contínuo das campainhas espalhadas por todos os corredores, salas, quartos e demais divisões, provocaram uma aceleração em todo o navio. Gente correndo de um lado para o outro com coletes ou cintos de salvação em amarelo-torrado e passados alguns instantes a concentração geral junto das baleeiras. Tratava-se de um exercício de salvamento, repetido algumas vezes, até ser efectuado dentro das condições desejadas e tempo determinado.

No Domingo, dia 23, o Rev. Capelão Padre Pinheiro, organizou uma sessão de variedades conforme as possibilidades de que dispunha e que decorreu com bastante animação alcançando as finalidades que notaram a sua preparação.

Ainda dentro do plano de distracções é grato recordar a projecção de alguns filmes.

E no dia 24, o jantar de despedida, oferecido pela tripulação e abrangendo todo o pessoal embarcado que atingiu as raias da alegria e fez esquecer por momentos o choque de emoção que se sentiria horas depois quando se tivesse de enfrentar novas terras e novas gentes.

A viagem estava prestes a terminar. Não tendo feito escala em parte alguma, pelo contrário, seguindo uma rota sempre afastada de qualquer costa, na manhã do dia 25 começou a aproximar-se de terras guineenses. Algumas patrulhas aproximavam-se e logo se afastavam. A visão de novas paisagens e de novas gentes veio de algum modo consolidar ou rectificar a imagem que se havia formado.

Cerca das 15.00H o UíGE fundeou frente a Bissau . Entidades militares que entravam e saíam vieram dar as boas vindas e preparar o desembarque. Mas este só começaria no dia 26, pelas 10.30H, através da barcaça BOR , para a ponte cais e daqui, em viaturas, para Santa Luzia, onde a Companhia se instalou.

do Historial da Companhia de Artilharia nº 1525

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"Também embarquei no Uíge em 23 Set 1970.
Éramos para aí 500 ou 600 homens. Os soldados (maioria) iam instalados de forma desumana, em péssimas condições nos beliches em porões de carga.
O embarque no cais Rocha de Conde de Óbidos, foi DANTESCO!!!
Milhares de pessoas (familiares e amigos) gritavam e choravam!
Nunca esquecerei esse dia! É a pior recordação que tenho gravada (para sempre) na minha memória!"
Fernando Leal

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DIVERTIMENTOS NO UÍGE
Os responsáveis pelo transporte dos militares tinha algumas preocupações em entreter aqueles milhares de jovens, para que não houvesse grandes problemas a bordo.

À tarde havia, no convés, alguns passatempos. Recordo-me das corridas de cavalos onde se apostava num de seis cavalos assinalados com números e que iam avançando casas num grande tabuleiro conforme saiam os dados.
Outras vezes faziam-se simulações de salvamento no caso de um eventual acidente.

Mas os operadores de cripto, divididos por dois camarotes, tinham outras hipótese e reuniam-se num deles a jogar às cartas e havia um pormenor engraçado. Jogava-se a dinheiro, mas só se perdia. Ninguém ganhava.
A história é simples de contar.

Os valores em jogo eram pequenos e quem perdia pagava e o acumulado era utilizado para comprar cerveja para acompanhar os petiscos que fazíamos com o que cada um levava na bagagem. Uns presuntos, umas conservas ou uns queijos, serviam de lanche entre as refeições servidas nos refeitórios do navio.
Quem ganhava nada pagava.

texto de Jorge Santos, daqui.

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"navio misto que pertencia à Companhia Colonial de Navegação, muitos o conheceram por diversas razões, no meu caso por fazer parte da tripulação, nele embarquei no dia 31 de Julho de 1974, com a função de Electricista e aqui vos mostro mais um cartão de identificação.

Transportava-mos militares de Lisboa a Guiné ou para Angola e vice- versa, nesta data creio termos transportado ainda, militares mais uma ou duas vezes pese embora se tenha dado 0 25 de Abril, a independência só aconteceu em Novembro no ano de 1975.

Era um navio misto, ou seja podia transportar carga e passageiros, com mais ou menos 145 metros, tendo sido construído na Bélgica em 1954, dispunha de um motor Diesel de 8 cilindros com uma potência de 6850 cavalos.

Tinha acomodações para 571 passageiros e a tripulação era composta de 139 pessoas.
Mas!....no transporte de militares, eu nem sei dizer-vos a quantidade, pois iam por todo lado como se costuma dizer (sardinha em lata) e hoje a relembrar essa vivência, posso dizer que as condições eram péssimas que nem quero descrever.

E lá voltei eu a Angola mais concretamente ao Porto de Luanda desta feita transportando militares, no regresso vinha o navio cheio novamente e após alguns dias chegava-mos a Lisboa aonde éramos aguardados por um mar de gente, familiares e amigos daqueles militares.
Era uma cena que me passava muita emoção ao ver toda aquela gente aos abraços no meio de risos e choros.

Fiz algumas viagens mais até se trazerem os últimos militares assim como civis, de regresso a Lisboa, também neste espaço de tempo fomos a Moçambique para trazer militares tendo o navio ancorado em Lourenço Marques indo mais tarde ao Porto de Nacala aqui sim embarcando os últimos militares pois que a independência seria no dia 25 de Junho de1975."

do blogue de José Castro

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Na tarde do dia 10 de Novembro de 1975, a bandeira portuguesa foi pela última vez arreada no Palácio do Governo e na fortaleza, dobrada e redobrada. O alto-comissário, almirante Leonel Cardoso, ao qual coube a ingrata tarefa, proclamara horas antes a independência de Angola. Quatrocentos e noventa e dois anos depois das naus portuguesas ali terem largado ferros, o último representante da soberania portuguesa abandonava a jóia do ex-Império, e partia, "sem cerimonial, mas de cara levantada", rumo à base naval da ilha de Luanda.

Ao largo, na baía já abandonada por barcos carregados até à borda de multidões e contentores, a fragata "Roberto Ivens" escoltava o "Uíge" e o "Niassa", com as máquinas prontas para, pela última vez, zarparem para Lisboa. Uma semana antes, a cidade branca acabara de esvaziar-se. A ponte aérea, organizada com o apoio de países estrangeiros, retirara de Angola, no meio de indescritíveis cenas de pânico e confusão, quase meio milhão de portugueses."
daqui

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O Uíge foi desmantelado em 1980.


Sala de Jantar 1ª Classe
Imagem de Manuel Albergaria de Santaclara

Tuesday, February 9, 2010

the hurt locker





por uma pura questão de quadrilhice oscarizada, tinha de ver The Hurt Locker só para decidir para quem ia o meu hipotético, insignificante e inexistente voto na contenda que os media querem tornar em quase doméstica. podia dizer que Avatar é o sonho e este é a realidade, os Basterds a ficção. ou que um é o futuro, este o presente, o outro o passado. ou que um é sci-fi, outro action movie e outro meio cult meio period piece.


entretive-me a contar as personagens femininas: uma é a doce mulher-mãe blue-eyed cabelo longo com o bebé ao colo que tem direito a 30 segundos de película (é película, vi-a a rodar através do vidro). outra a mulher de um doutor iraniano que fala 3 línguas, ele, e que corre com o "nosso" herói de casa na base da gritaria. vinte segundos. as outras são figuras negras (xailes negros) que choram os mortos. portanto, a mulher presente era a que estava atrás da câmara. e isto não tem qualquer tipo de relevância para nada. foi um femi-sudoku.

a Isilda tinha vindo ainda criança da Madeira. no quarto, o seu espaço, tinha uma arca. tudo o que ganhava servia para construir o enxoval. cada mês um novo orgulho. lençóis. um serviço de chá. os atoalhados. o serviço de talheres que demorou uma estação a chegar. ao fim de poucos anos casou-se e teve um filho. não estou certa mas quase podia jurar que perdeu a pronúncia insular.

não fossem os últimos minutos de Hurt Locker e tinha vindo de lá convencida. desde Black Hawk Down que não via a guerra tão bem feita. mas o final desconvenceu-me, tal como a citação inicial. a guerra é uma droga. sim, e depois? e assim o excelente Jeremy Renner voltou para o campo de batalha incapaz de ser civil, como o marinheiro que não desembarca ou o piloto Clooney que não desce da sua asa. o feito deste filme concorrer com os bonecos azuis-Masai de Cameron é um complexo de culpa. e quem sabe faltem outros filmes festivaleiros para premiar.

a Bianca, contradição onomástica, morreu antes do tempo com aperto no peito. goesa refugiada num pequeno apartamento no sexto andar a ver o Tejo, as paredes com sabor a caril, uma arca incrustada de marfim na sala e água de coco para beber.

plano: ver se a sala da marinha mercante no Museu de Marinha já está aberta. (a chávena do café dizia waitwaitwaitwaitwaitwait)

mind you mind the gap

"The mind
is its own place,
and in itself
can make
a heaven of hell,
a hell of heaven."

John Milton em Paradise Lost

citado no início de A Bad Lieutenant de Abel Ferrara. sobre Milton tenho a minha opinião. sobre Abel Ferrara nem tanto. e mais, sobre o corte de citações, algumas palavras removidas do contexto - não lido por ser extenso, difícil, fora do tentáculo da web. enfim. e usadas como verdade. disse e ficou para pensar. silêncio, pausa de alguns segundos no clic-clic- e continuar em busca da verdade seguinte. como a luz intermitente, rosa púrpura negra, enquanto o corpo da mulher bamboleia nua dentro de uma jaula no clube nocturno. AC/DC. ["Forever my darling our love will be true. Always and forever I'll love just you."]

"Who is the third who walks always beside you?", se tivesse de escolher um era este. não sou adepta do otherness, o um tem aquilo ali em cima, tanto para se perder e dizer. mas o tema é fascinante, rico, e abordado por muitos que gosto de olhar. a mais das vezes num registo onírico ou de experiência sensorial de todo o tipo natural ou não ou política ou futurista. o terror, a morte ou a religiosidade, almas e espíritos, morte. em breve, quando começarem as aulas, vou ter de aprender a pôr esta brincadeira em fórmula matemática, não saltar passos do raciocínio, e ter um resultado de tal igual a tal.

por enquanto, ainda posso dizer que a minha mãe pôs o muro de Berlim dentro do Coliseu de Roma para não ir parar ao lixo quando se limpa o pó e, se me der para isso, posso desatar a retirar daí conclusões simbólicas e literárias com recurso a img src's suficientes para desorbitar a ideia inicial.

Monday, February 8, 2010

Chris Marker: "Cet homme fut choisi entre mille, pour sa fixation sur une image du passé"



La Jetée
Chris Marker

1. 2. 3.

(ou a voz em inglês, aqui)

Ceci est l'histoire d'un homme marqué par une image d'enfance.
La scène qui le troubla par sa violence, et dont il ne devait comprendre que beaucoup plus tard la signification, eut lieu sur la grande jetée d'Orly, quelques années avant le debut de la troisième guerre mondiale.
A Orly, le dimanche, les parents mènent leurs enfants voir les avions en partance. De ce dimanche, l'enfant dont nous racontons l'histoire devait revoir longtemps le soleil fixe, le dècor planté au bout de la jetée, et un visage de femme.

Rien ne distingue les souvenirs des autres moments: ce n'est que plus tard qu'ils se font reconnaître, à leurs cicatrices. Ce visage qui devait Être la seule image du temps de paix à traverser le temps de guerre, il se demanda longtemps s'il l'avait vraiment vu, ou s'il avait créé ce moment de douceur pour étayer le moment de folie qui allait venir, avec ce bruit soudain, la geste de la femme, ce corps qui bascule, les clameurs des gens sur la jetée, brouillés par la peur. Plus tard, il comprit qu'il avait vu la mort d'un homme.

Et quelque temps après, vint la destruction de Paris.

Beaucoup moururent. Certains se crurent vainqueurs. D'autres durent prisonniers. Les survivants s'établirent dans le réseau des souterrains de Chaillot.

La surface de Paris, et sans doute de la plus grande partie du monde, était inhabitable, pourrie par la radioactivité. Les vainqueurs montaient la garde sur un empire de rats. Les prisonniers étaient soumis è des expériences qui semblaient fort préoccuper ceus qui s'y livraient. Au terme de l'expérience, les uns étaient déçus, les autres étaient morts, ou fous.

C'est pour le conduire à la salle d'expériences qu'on vint chercher un jour, parmi les prisonniers, l'homme dont nous rancontons l'histoire.

Il avait peur. Il avait entendu parler du chefs des travaux. Il pensait se trouver en face de Savant fou, du docteur Frankenstein. Il vit un homme sans passion, qui lui expliqua posément que la race humaine était maintenant condamnée, que l'Espace lui était fermé, que la seule liaison possible avec les moyens de survie passait par le Temps. Un trou dans le Temps, et peut-être y ferait-on passer des vivres, des médicaments, des sources d'énergie.

Tel était le but des expériences : projeter dans le Temps des émissaires, appeler le passé et l'avenit au secours du présent.

Mais l'esprit humain achoppait. Se réveiller dans un autre temps, c'était naître une seconde fois, adulte. Le choc était trop fort. Après avoir ainsi projeté dans differéntes zones du Temps des corps sans vie ou sans conscience, les inventeurs se concentraient maintenant sur des sujets doués d'images mentales très fortes. Capables d'imaginer ou de rêver un autre temps, ils seraient peut-être capables de s'y réintégrer.

La police du camp épiait jusqu'aux rêves. Cet homme fut choisi enter mille, pour sa fixation sur une image du passé.

Au début, rien d'autre que l'arrachement au temps présent, et ses chevalets. On recommence. Le sujet ne meurt pas, ne délire pas. Il souffre. On continue. Au dixième jour d'expérience, des image commencent à sourdre, comme des aveux. Un matin du temps de paix. Une chambre du temps de paix, une vraie chambre. De vrais enfants. De vrais oiseaux. De vrais chats. De vrais tombes. Le seizième jour, il est sur la jetée.

Vide. Quelquefois, il retrouve un jour de bonheur, mais différent, un visage de bonheur, mais différent. Des ruines. Une fille qui pourrait être celle qu'il cherche. Il la croise sur la jetée. D'une voiture, il la voit sourire. D'autres images se présentent, se mêlent, dans un musée qui est peut-être celui de sa mémoire.

Le trentième jour, la rencontre a lieu.

Cette fois, il est sûr de la reconnaître. C'est d'ailleurs la seule chose dont il est sûr, dans ce monde sans date qui le bouleverse d'abord par sa richesse. Autour de lui, des matériaux fabuleux : le verre, le plastique, le tissu-éponge. Lorsqu'il sort de sa fascination, la femme a disparu.

Ceux qui mènent l'expérience reasserrent leur contrôle, le relancent sur la piste. Le temps s'enroule à nouveau, l'instant repasse. Cette fois, il est pràs d'elle, il lui parle. Elle l'accueille sans étonnement. Ils sont sans souvenirs, sans projets. Leur temps se construit simplement autour d'eux, avec pour seuls repères le goût du moment qu'ils vivent, et les signes sur les murs.

Plus tard, ils sont dans un jardin. Il se souvient qu'il existait des jardins. Elle l'interroge sur son collier, le collier du combattant qu'il portait au début de cette guerre qui éclatera un jour. Il invents une explication.

Ils marchent. Ils s'arrêtent devant uns coupe de sequoia couverte de dates historiques. Elle prononce un nom étranger qu'il ne comprend pas *. Comme en rêve, il lui montre un point hors de l'arbre. Il s'entend dire : « Je viens de là... »

... et y retombe, à bout de forces. Puis une autre vague du Temps le soulève. Sans doute lui fait-on une nouvelle piqûre.

Maintenant, elle dort au soleil. Il pense que, dans le monde où il vient de reprendre pied, le temps d'être relancé vers elle, elle est morte.

Réveillée, il lui parle encore. D'une véritétrop fantastique pour être reçue, il garde l'essentiel : un pays lointain, une longue distance à parcourir. Elle l'écoute sans se moquer.

Est-ce le même jour? Il ne sait plus. Ils vont faire comme cela une infinité de promenades semblables, où se creusera entre eux une confiance muette, une confiance à l'état pur. Sans souvenirs, sans projets. Jusqu'au moment où il sent, devant eux, une barrière.

Ainsi se termina la première série d'expériences. C'était le début d'une période d'essais où il la retrouverait à des moments différents. Elle l'accueille simplement. Elle l'appelle son Spectre. Un jour, elle semble avoire peur. Un jour, elle se penche sur lui. Lui ne sait jamais s'il se dirige vers elle, s'il est dirigé, s'il invente ou s'il rêve.

Vers le cinquantième jour, ils se rencontrent dnaans un musée plein de bêtes éternelles.

Maintenant, le tir est parfaitement ajusté. Projeté sur l'instant choisi, il peut y demeurer et s'y mouvoir sans peine. Elle aussi semble apprivoisée. Elle accepte comme un phénomène naturel les passages de ce visiteur qui apparait et diparait, qui existe, parle, rit avec elle, se tait, l'écoute et s'en va.

Lorsqu'il se retrouva dans la salle d'expériences, il sentit que quelque chose avait changé. Le chef du camp était là Aux propos échangés autour de lui, il comprit que, devant le succès des expériences sur le passé, c'était dans l'avenir qu'on entedait maintenant le projeter.n L'excitation d'une telle aventure lui cacha quelque temps l'idée que cette rencontre au Muséum avait la dernière.

L'avenir était mieux défendu que le passé. Au terme d'autres essais encore plus éprouvants pour lui, il finit par entrer en résonance avec le monde futur. Il traversa une planète transformée, Paris reconstruit, dix mille avenues incompréhensibles. D'autres hommes l'attendaient. La rencontre fut brève. Visiblement, ils rejetaient ces scories d'une autre époque. Il recita sa leçon. Puisque l'humanité avait survécu, elle ne pouvait pas refuser à son propre passé les moyens de sa survie. Ce sophisme fut accepté comme un déguisement du Destin. On lui donna une centrale d'énergie suffisante pour remmettre en marche toute l'industrie humaine, et les portes de l'avenir furent refermées.

Peu de temps après son retour, il fut transféré dans une autre partie du camp.

Il savair que ses geôliers ne l'épargneraient pas. Il avait été un instrument entre leurs mains, son image d'enfance avait servi d'appàât pour le mettre en condition, il avait répondu à leur attente et rempli son rôle. l n'attendait plus que d'êtreliquidé, avec quelque part en lui le souvenit d'un temps deux fois vécu. C'est au fond de ces limbes qu'il reçut le message des hommes de l'avenit. Eux aussi voyageaient dans le Temps, et plus facilement. Maintenant ils étaient là et lui proposaient de l'accepter parmi eux. Mais sa requête fut differente : plutôt que cet avenir pacifié, il demandait qu'on lui rende le monde de son enfance et cetter femme qui l'attendait peut-être.

Une fois sur la grande jetée d'Orly, dans ce chaud dimanche d'avane guerre où il allait pouvoir demeurer, il pensa avec un peu de vertige que l'enfant qu'il avait été devait se trouver là aussi, à regarder les avions. Mais il chercha d'abord le visage d'une femme, au bout de la jetée. Il courut vers elle. Et lorsqu'il reconnut l'homme qui 'avaitl'l suivi depuis le camp souterrain, il comprit qu'on ne s'évadait pas du Temps et que cet instant qu'il lui avait été donneé de voir enfant, et qui n'avait pas cessé de l'obséder, c'était celui de sa propre mort.

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This is the story of a man, marked by an image from his childhood. The violent scene that upsets him, and whose meaning he was to grasp only years later, happened on the main jetty at Orly, the Paris airport, sometime before the outbreak of World War III.

Orly, Sunday. Parents used to take their children there to watch the departing planes.

On this particular Sunday, the child whose story we are telling was bound to remember the frozen sun, the setting at the end of the jetty, and a woman's face.

Nothing sorts out memories from ordinary moments. Later on they do claim remembrance when they show their scars. That face he had seen was to be the only peacetime image to survive the war. Had he really seen it? Or had he invented that tender moment to prop up the madness to come?

The sudden roar, the woman's gesture, the crumpling body, and the cries of the crowd on the jetty blurred by fear.

Later, he knew he had seen a man die.

And sometime after came the destruction of Paris. Many died. Some believed themselves to be victors. Others were taken prisoner. The survivors settled beneath Chaillot, in an underground network of galleries.

Above ground, Paris, as most of the world, was uninhabitable, riddled with radioactivity.

The victors stood guard over an empire of rats. The prisoners were subjected to experiments, apparently of great concern to those who conducted them. The outcome was a disappointment for some - death for others - and for others yet, madness. One day they came to select a new guinea pig from among the prisoners.

He was the man whose story we are telling.

He was frightened. He had heard about the Head Experimenter. He was prepared to meet Dr. Frankenstein, or the Mad Scientist. Instead, he met a reasonable man who explained calmly that the human race was doomed. Space was off-limits. The only hope for survival lay in Time. A loophole in Time, and then maybe it would be possible to reach food, medicine, sources of
energy.

This was the aim of the experiments: to send emissaries into Time, to summon the Past and Future to the aid of the Present.

But the human mind balked at the idea. To wake up in another age meant to be born again as an adult. The shock would be too great.

Having only sent lifeless or insentient bodies through different zones of Time, the inventors where now concentrating on men given to very strong mental images. If they were able to conceive or dream another time, perhaps they would be able to live in it.

The camp police spied even on dreams. This man was selected from among a thousand for his obsession with an image from the past. Nothing else, at first, put stripping out the present, and its racks. They begin again.

The man doesn't die, nor does he go mad. He suffers.

They continue. On the tenth day, images begin to ooze, like confessions. A peacetime morning. A peacetime bedroom, a real bedroom. Real children. Real birds. Real cats. Real graves. On the sixteenth day he is on the jetty at Orly. Empty. Sometimes he recaptures a day of happiness, though different. A face of happiness, though different. Ruins.

A girl who could be the one he seeks. He passes her on the jetty. She smiles at him from an automobile. Other images appear, merge, in that museum, which is perhaps that of his memory.
On the thirtieth day, the meeting takes place. Now he is sure he recognizes her. In fact, it is the only thing he is sure of, in the middle of this dateless world that at first stuns him with its affluence. Around him, only fabulous materials: glass, plastic, terry cloth. When he recovers from his trance, the woman has gone.

The experimenters tighten their control. They send him back out on the trail. Time rolls back again, the moment returns.

This time he is close to her, he speaks to her. She welcomes him without surprise. They are without memories, without plans. Time builds itself painlessly around them. Their only landmarks are the flavor of the moment they are living and the markings on the walls.

Later on, they are in a garden. He remembers there were gardens.
She asks him about his necklace, the combat necklace he wore at the start of the war that is yet to come. He invents an explanation.

They walk. They look at the trunk of a redwood tree covered with historical dates. She pronounces an English name he doesn't understand. As in a dream, he shows her a point beyond the tree, hears himself say, "This is where I come from ..." - and falls back, exhausted. Then another wave of Time washes over him. The result of another injection perhaps.

Now she is asleep in the sun. He knows that in this world to which he has just returned for a while, only to be sent back to her, she is dead. She wakes up. He speaks again. Of a truth too fantastic to be believed he retains the essential: an unreachable country, a long way to go. She listens. She doesn't laugh.

Is it the same day? He doesn't know. They shall go on like this, on countless walks in which an unspoken trust, an unadulterated trust will grow between them, without memories or plans. Up to the moment where he feels - ahead of them - a barrier.
And this was the end of the first experiment.

It was the starting point for a whole series of tests, in which he would meet her at different times. Sometimes he finds her in front of their markings. She welcomes him in a simple way. She calls him her Ghost.

One day she seems frightened. One day she leans toward him. As for him, he never knows whether he moves toward her, whether he is driven, whether he has made it up, or whether he is only dreaming.

Around the fiftieth day, they meet in a museum filled with timeless animals. Now the aim is perfectly adjusted. Thrown at the right moment, he may stay there and move without effort.

She too seems tamed. She accepts as a natural phenomenon the ways of this visitor who comes and goes, who exists, talks, laughs with her, stops talking, listens to her, then disappears.

Once back in the experiment room, he knew something was different. The camp leader was there. From the conversation around him, he gathered that after the brilliant results of the tests in the Past, they now meant to ship him into the Future. His excitement made him forget for a moment that the meeting at the museum had been the last.

The Future was better protected than the Past. After more, painful tries, he eventually caught some waves of the world to come. He went through a brand new planet, Paris rebuilt, ten thousand incomprehensible avenues. Others were waiting for him. It was a brief encounter. Obviously, they rejected these scoriae of another time.

He recited his lesson: because humanity had survived, it could not refuse to its own past the means of its survival. This sophism was taken for Fate in disguise.
They gave him a power unit strong enough to put all human industry back into motion, and again the gates of the Future were closed.

Sometime after his return, he was transferred to another part of the camp. He knew that his jailers would not spare him. He had been a tool in their hands, his childhood image had been used as bait to condition him, he had lived up to their expectations, he had played his part. Now he only waited to be liquidated with, somewhere inside him, the memory of a twice-lived fragment of time.

And deep in this limbo, he received a message from the people of the world to come. They too traveled through Time, and more easily. Now they were there, ready to accept him as one of their own. But he had a different request: rather than this pacified future, he wanted to be returned to the world of his childhood, and to this woman who was perhaps waiting for him.

Once again the main jetty at Orly, in the middle of this warm pre-war Sunday afternoon where he could not stay, he though in a confused way that the child he had been was due to be there too, watching the planes.

But first of all he looked for the woman's face, at the end of the jetty. He ran toward her. And when he recognized the man who had trailed him since the underground camp, he understood there was no way to escape Time, and that this moment he had been granted to watch as a child, which had never ceased to obsess him, was the moment of his own death.

- -

"Une fille qui pourrait être celle qu'il cherche." ainda no Mali, e André Cepeda, anda tudo a dizer a mesma coisa. quase tudo, certos católicos belicistas passam ao lado. e Avatar. sou nova nisto, mas diria que estes vinte e oito minutos de voz, fotos e sons ultrapassam à velocidade da luz muitas terceiras dimensões.


Comecemos por uma frase de La Jetée, filme mítico de Chris Marker, que cita numa das suas séries: "Esta é a história de um homem marcado por uma imagem da sua infância." Que imagem lhe ocorre imediatamente, se lhe devolvo a questão?

"Todas as imagens são muito marcadas por imagens da nossa infância. As imagens têm a ver connosco, nós temos a ver connosco, com alguma continuidade. A questão da continuidade do tempo é curiosa. Não podemos encontrar uma unidade em relação à passagem do tempo, mas encontramos isto: o tempo não existe, existem muitos tempos. E a nossa memória relativamente a esses tempos é descontínua. Quando somos novos, temos a ideia de que o tempo vai criar uma espessura e que um dia olharemos o passado através dessa espessura. A experiência da passagem do tempo é exactamente esta: essa espessura é descontínua. Há coisas que se passaram há muitos anos e que poderiam ter sido ontem; e há coisas que se passaram há pouco tempo e que ficaram perdidas. Isto tem a ver com aquilo que me perguntava sobre o La Jetée: será que toda a nossa experiência é configurada a partir de um princípio e de uma sequência? Creio que sim e creio que não. Encontramos marcas de coisas primordiais, que vão fazendo a sua reaparição. E há as coisas que nos acontecem na vida, e as pessoas com quem nos vamos encontrando."
Jorge Molder em entrevista no Público




embora Chris Marker seja a propósito da exposição seguinte, na Gulbenkian de Paris.

André Cepeda: foi ontem

No âmbito do BES Photo, com pouquíssimas imagens no CCB, mesmo assim as suficientes para desejar ver e saber mais. As quatro imagens faziam parte de Ontem, o último projecto de André Cepeda. Para uma visita mais completa, a galeria virtual do próprio, aqui. Um dos três finalistas, o que mais gostei de longe. O vencedor sairá a 23 de Fevereiro.

Ontem

"Ontem é o título deste projecto que começou quando conheci o H., que estacionava carros à porta de minha casa. Como todos os dias passeava o meu cão, acabávamos por conversar com frequência. Mostrei-lhe o meu interesse em conhecer as ruas que ele percorria e os bairros por onde ele andava. Interessava-me conhecer aqueles territórios, as traseiras, as paisagens escondidas do Porto, os caminhos alternativos pelos bairros da cidade, locais a que, não conhecendo muito bem, me tenho vindo a dedicar há algum tempo. Trabalhávamos todas as semanas e por vezes vários dias seguidos. A ausência de tempo que sentia nos locais e nas pessoas que ia encontrando, o perigo e a dureza da realidade começou a interessar-me.

Pela primeira vez começo a fazer retratos. Perguntava-me, recorrentemente, porque andava a fotografar. E só mais tarde é que percebi que este projecto fazia todo o sentido para mim. A minha vida sempre se cruzou com histórias ligadas à droga. O facto de viver no centro do Porto faz-me confrontar com essa realidade todos os dias.

Ontem foi a melhor palavra que encontrei para descrever este estado de espírito, pois neste contexto a grande questão parece ser como se lida com o tempo. Como passar o tempo. Como passar o tempo com um corpo e uma mente, e o que fazer com eles. Esconder, refugiar, anular, esquecer. Tentar estar fora do tempo."

André Cepeda
Porto, 2008














""O que é importante na vida?"
No seu projeto - cujo suporte é um filme e uma série de fotografias - André Cepeda partiu de uma questão fundamental: "O que é importante na vida? O que nos faz lutar e estar onde estamos?".
"Cheguei à conclusão que é o amor, acreditar em algo muito forte que nos encoraja e que nos leva a continuar", explicou à Lusa sobre este trabalho, parte de um projeto maior, intitulado "Ontem" (2009), com 54 imagens que serão publicadas em livro em Março deste ano.
As fotografias, aparentemente, não têm uma ligação com o vídeo, "mas podem ter", segundo André Cepeda, que preferiu, propositadamente, não incluir qualquer texto explicativo a acompanhar o projeto, com o objetivo de "fazer as pessoas pensar".
As imagens de uma planta bonsai - com duas raízes que crescem separadamente, e depois se entrelaçam numa só - duas colunas de som juntas, e duas tomadas elétricas na parede, apontam para a ideia de união, do apoio mútuo e do amor.
"É um projeto mais ligado a um sentimento do que a uma ideia fechada, e deixa espaço para as pessoas interpretarem", comentou à Lusa."
no Expresso de 2 Fev.

[afinal a curta holandesa do Mali chegava à mesma ideia]


ele tinha que falar nisto

foi agora.

Sunday, February 7, 2010

intervalo dos momentos em que tendo mais de trinta e cinco não estou a jogar farmville


se calhar mais valia

breve concerto com quatro sonatas de Scarlatti por Arturo Benedetti Michelangeli

"He often played Balakirev's Islamey, Stravinsky's Petrushka, Suburbis by Moupou, Ravel's Valses nobles et sentimentales. La valse, too, which was phenomenal but never recorded, unfortunately. He liked jazz, playing it wonderfully, and Gershwin's Rhapsody in Blue. He played the Beethoven sonatas, although again in public he played only those he liked best. I remember his Moonlight well. He did it very simply: at the beginning the moon came out. He didn't like the nicknames of these pieces and often said pianists played the Moonlight like a cartoon about the sky and the stars. When he wanted to express all of himself, he played the Op. 111 sonata, which he recorded for Decca." daqui.



e um novo blogue a ler: desNorte. praticamente a dias de me tornar abstencionista por uns anos.

Saturday, February 6, 2010

blank



Ana do outro lado

her view, my view. and I am not Puritan at all.

"More than any other film director, Rohmer is mine: I love his films and I love his women. I don’t know the Six Moral Tales as well as later films, so I was surprised to read in the Times obituary that his characteristic subject is “a man who is married or committed to a woman finds himself tempted to stray but is ultimately able to resist.” In that telling, he sounds like such a male director, but to me, his films have always seemed really friendly to women.

But then, the truth is, I identify with his heroines: nervous women, liable to talk to much, women who wear no make-up, and whose beauty varies tremendously from shot to shot—just as one’s own beauty does. Rohmer always lets you see that his actresses are beautiful. He lets them know it, too. But he also shows them doubting it in moments of stress or shows their beauty and confidence failing them just when they want it."


Anne Fernham

Friday, February 5, 2010

outra noite de cinema



Mean Streets
Martin Scorsese

1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14.

"But down these mean streets a man must go who is not himself mean, who is neither tarnished nor afraid.", Raymond Chandler em "The Simple Art of Murder"

entre este e o Jarmusch de Dead Man, não são as meninas apenas props? (a ver-rever, todo o cinema Scorsese. à procura das mulheres Scorsese. tenho a impressão que o catolicismo nunca fez bem a ninguém nessa área)

"At one point, late in the film, he goes into the bar, orders scotch and holds his fingers over the glass as the bartender pours, copying the position of the priest's fingers over the chalice. That kind of sacramental detail would also be a motif in ``Taxi Driver,'' where overhead shots mirror the priest's-eye-view of the altar, and the hero also places his hand in a flame. Everything leads, as it must, to the violent conclusion, in which Michael, the loan shark who feels insulted, drives while a gunman (Scorsese) fires in revenge. Who can be surprised that Charlie, after the shooting, is on his knees?" daqui.

korova

para lembrar: korova cookies


Thursday, February 4, 2010

movie night



Shadows
John Cassavetes

1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8.

[Choice DVD Rentals is now following your tweets on Twitter.] a relembrar o tal prof de escrita criativa disse que não se devia escrever sobre sítios onde não se estivesse estado assim matando de uma penada toda a ficção científica já para não mencionar os romances históricos. e a achar que se pode falar de tudo, incluindo o correio electrónico, o e-lixo, o spam, todos os items do reader, as mensagens do igoogle, as novidades coloridas ou simplesmente estranhas do facebook, bem como as auto-notas especadas em jeito de post-it no ambiente de trabalho. se isto não fosse verdade, julgo mesmo, que este Shadows não tinha existido e o cinema seria um perpétuo abanar de pernas anos cinquenta em piscinas de natação sincronizada. um exagero, sim, mas tenho pena que a dita "experimentação", dita porque a acho mais nada senão o espelhar do tempo, não aconteça tanto como devia acontecer. se os jornalistas se dizem amordaçados pelo peso dos grupos contratantes, dois ou três, o mesmo para as literaturas. e não foi sempre assim?

voltando ao Indie..


"-You guys are really somethin'
-But what have you been sitting here all night for?"

"John Cassavetes’ directorial debut revolves around an interracial romance between Lelia (Lelia Goldoni), a light-skinned black woman living in New York City with her two brothers, and Tony (Anthony Ray), a white man. The relationship crumbles when Tony meets Lelia’s brother Hugh (Hugh Hurd), a talented dark-skinned jazz singer struggling to find work, and discovers the truth about Lelia’s racial heritage. Shot on location in Manhattan with a cast and crew made up primarily of amateurs, Cassavetes’ Shadows is a visionary work that is widely considered the forerunner of the American independent film movement." daqui.


"Bearing scars from its painful birth, Shadows' imperfections only add to its rebel appeal. Its ragged intensity all but burns a hole through Hollywood's lacquered movie-palace screen. But as drastic a departure as it was from studio fare, it was hardly a lone pioneer. Released during the watershed year of 1959, Shadows was a harbinger of the decade to come in movies. Called by some film buffs the greatest movie year of all time, 1959 also saw the release of those twin trailblazers of the French New Wave, The 400 Blows and Breathless. Less polished and cerebral, Shadows' claim to greatness lies in its emphasis on performance and process. (A decade and a half later, Shadows' naturalism and the New Wave's formal expressiveness would meet and marry in Scorsese's Mean Streets.)" daqui.

"... but instead, we're just two strangers."


"Darling, I'm not masculine.."

estética







de letras

"Avec le temps, le poids des mots n’a pas disparu mais le choc des photos, si." (daqui)

 
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