a mesa de luz

Thursday, July 31, 2014

outro branco

no bar um homem de origem indeterminada canta e acompanha à guitarra canções românticas do tipo julio iglesias e tom jones. está todo vestido de branco e sobre ele caem focos azúis e verdes de luz , uma cena do Yesilçam, - recuar no tempo mas faltam bigodes nesta portaria. A caminho do spa é-se informado sobre a possibilidade de massagem. tudo o resto é gratuito mas a massagem são 80 dólares. na verdade a informação chega quatro vezes e por diferentes mensageiros, de tal modo que até os cegos começariam a imaginar cenários.

daqui a dias há eleições. entre o aeroporto e o centro da cidade sou capaz de contar umas quarenta e tal caras de Erdoğan , mas não vejo o opositor nas fachadas de nenhuns prédios. vieste para votar, S.? não penso muito nisso enquanto escolho entre trinta qualidades de lokum. o doce gelatinoso agarra-se aos meus dentes. --penso que não deve ser assim tão impossível fazer isto.

podia ter corrido para cá mais rapidamente depois do último minuto da última tarefa? dificilmente. o desejo só de me afogar aqui nestas águas, nestas multidões.



do sonho


Wednesday, July 30, 2014

a

cerca de 60 minutos de entrar de férias, nem quero acreditar. ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~

Monday, July 28, 2014

entrelaçamento quântico

os frustrados só falam dos frustrados, tal como os relojoeiros só vêem relógios e as senhoras das retrosarias são todas olhos para os botões. são as leis inexplicáveis das partículas humanas. só os escritores vêem toda a gente, dos contabilistas aos miniaturistas aos elfos. talvez porque os seus olhos são maiores. ou quem sabe por estarem diluidamente entrelaçados.

passei a minúsculas para poupar tempo. nessa altura escrevia muito e tirava poucas fotografias

o Paulo nunca punha cinto de segurança. era do tempo em que se entrava e saía dos carros sem a prisão do cinto, as crianças seguiam no banco de atrás aos saltos e nas brincadeiras, os carros cheios dos objectos mais inesperados nas mudanças de casa ou nas férias. o paulo não era um homem de família e gostava de conduzir o seu descapotável a grande velocidade. costumava dizer às amigas: "minha querida, olhe esse tanso na faixa do meio, nunca sai dali desde que entra na autoestrada até sair, sempre no meio a xaropar". também mo disse a mim enquanto volteava entre faixas, ultrapassando os tansos da faixa do meio, o cabelo a sentir a velocidade. eu calei-me e assenti pois também eu seguia sempre na faixa do meio, sem ultrapassagens, a uma velocidade constante e segura. um dia o Paulo estampou o carro. não soube como aconteceu, perdeu o controlo e o descapotável andou às cambalhotas por todas as faixas da autoestrada e o Paulo foi cuspido muitos metros pelo ar e pelo alcatrão. não morreu mas esteve à beira disso, internado durante semanas nos cuidados intensivos de hospitais. sucederam-se operações, substituições de pele, de osso, remendos e fisioterapias infindáveis. o paulo não deixou de dançar mas passou a fazê-lo com uma inclinação de proa e arrasto dos pés. as amigas já não eram tão frescas. não sei se passou a usar o cinto de segurança depois do acidente mas era capaz de jurar que não. há quem viva no focinho da vida e não peça desculpa por isso, venha o que vier.

- -
o meu defeito é o melodrama nas histórias. quase sempre sem arrependimento porque a realidade justifica os excessos conclusivos e de percurso.

cascais

no face:
Carta de Vila
Junho 7, 1364 no Paço da Alcáçova de Santarém
"Dom Pedro, pela graça de Deus, rei de Portugal e do Algarve, a quantos esta carta virem faço saber que os homens-bons de Cascais me enviaram dizer que fosse minha mercê de os fazer isentos da sujeição de Sintra, cuja aldeia era, e lhes outorgasse que o dito logo de Cascais fosse vila por si e houvesse por si jurisdição e juízes para fazer direito e justiça, e os outros oficiais que fossem compridoiros para bom regimento desse lugar; e que eles dariam a mim em cada ano 200 libras mais, além daquilo que me
rendiam os meus direitos que eu havia do dito logo."
Foi nestes termos que D. Pedro I, O Justo, elevou a pequena aldeia de pescadores a Vila para "serviço de Deus e meu e guarda da minha terra" apartando Cascais do concelho de Sintra.


amuse-boom

Jon Stewart on Israel-Hamas conflict: Jon Stewart on Israel-Hamas conflict

why i love jon stewart-

Sunday, July 27, 2014

"Memory and desire, stirring"...

"O guarda-livros Faldini tem cara de quem toda a vida escreveu cartas para países distantes a olhar para uma paisagem de gruas e contentores pela janela." Tabucchi em O fio do horizonte.

afastar





scenes from the harem


“A Scene from the Turkish Harem”, 1654. Franz Hermann
no Pera Museum. uma visão do alemão sobre o harém turco, talvez o local de maior fascínio e controvérsia na cultura europeia, até hoje mesmo. os guias esforçam-se para explicar que harém significa local privado e não orgia desbragada (mais típica do ocidente, na opinião deles, pelo menos). o harém está sujeito aos mesmos salamaleques rígidos da restante cultura, uma estrutura de contabilistas, como o homem triste de Tabbuchi a olhar para uma janela longínqua.

de , uma história diferente.

Shujayea: Massacre at Dawn


  Shujayea: Massacre at Dawn - Special series - Al Jazeera English

Saturday, July 26, 2014

fio do horizonte

"O fio do horizonte, de facto, é um lugar geométrico, porque se desloca à medida que nós nos deslocamos."
Tabucchi em O Fio do Horizonte.

(nice book)

os tipos do independent disseram que o livro está mal escrito. os tipos da amazon fizeram copy paste do artigo da independent e puseram como editorial review ou coisa que o valha. é o "mercado livreiro". é assim lá e cá  a mesma coisa. desde que seja mercado e desde que seja livreiro, a coisa é a mesma.

o fio do horizonte é uma espécie de canterbury tale, a sucessão de personagens passa pelo leitor como uma sequência de peregrinos (da vida). o final é a dissolução tal como o nosso final é a dissolução do esquecimento. no entretanto lida-se com as sensações e com noções difusas de personalidade, noções de memória. um pequeno mas grande livro que li de uma vez durante a tarde.

e muitos momentos memoráveis.

..."como aquele odor acre e ligeiramente desagradável com que ficam alguns quartos depois de lá ter dormido alguém."


contemporaneidade

ronaldo tem 28 milhões de seguidores no twitter, o papa tem 4 milhões.
(a shakira 26 milhões e a  J. K. Rowling 3 milhões e meio, a cnn 13 milhões)
eu tenho 66, daí a minha total insignificância no panorama geral das coisas.

praline

com os dedos dormentes com a vontade de clicar e de andar por aí. quando andar não é possível vou murchando como os vasos de plantas que encharquei com medo que morressem e acabo por afogar tudo (as barreiras de nova orleães na horta da cozinha e o furação fui eu). vou fazer praline de amêndoa. branquear as amêndoas, torrá-las. dourar açúcar, 1 chávena, com 1/3 água e um pouco de creme tártaro e quando estiver da cor certa deitar-lhe as amêndoas, deixar arrefecer e partir, o caramelo de amêndoa para oferecer, a quem, a quem.
é preciso ir ao cinema, antes que não seja possível ir ao cinema e enquanto o Ideal não abre (vou lá parar todos os meses, já sei. e então no inverno, porque é perto da rosa pomar e nessa altura ando dada às agulhas). Ozu está no Nimas todos os dias, mas não se diz até quando. no monumental (que já não é, agora é só outro shopping), Omar e a Beauvoir. quis ir com os miúdos mas é impossível: ou matanças cretinas, ou comédias românticas cretinas ou nada, não há mais nada. é difícil convencê-los para a animação, já estão crescidos, querem "acção". "acção" quer dizer matança naquela lógica norte-americana da idiotice armada e na pior lógica europeia do consumo do refugo norte-americano. (diz que os árbitros começam a ser uma geração de celibatários).
mais um livro largado no meio, um livro genial que exige mais de mim do que um meio café à pressa. Imre Kertész, o escritor de Auschwitz. fala como Beckett, mas suponho que o campo de Beckett estava dentro da sua própria cabeça. na loja tirei um Tabucchi - a baixo preço, a ironia - e estou em campo aberto, é como voltar a casa e estar confortável no sofá. que prazer, ler Tabucchi.
vou estar entre o gato e os vasos que tentarei salvar do seu dilúvio. na net, que me cansa, as fotos de algumas mulheres de meia idade com caras 'marotas' que tratam os que pretendem conquistar com a sua coquetterie por 'amigos', ou 'meu querido amigo'. e é um pouco triste.
a coisa terrível que isto é: uma cidade rodeada por muros, isolada, de onde não se pode quase sair e onde quase não se pode entrar. controlada por todos os meios de vigilância electrónica e sem o ser. agora há robots a voar. em portugal usamos-los para sobrevoar ondas e praias, por vezes rios e canoístas, por vezes cidades. 'lá', usam-nos para dizer: dispara para ali e alguém de uma sala dispara para ali.  há uma coisa: desde que uma criança seja morta, seja quem for está errado. por uma criança morta, há vários criminosos adultos.  nem acredito na verdade, absoluta ou não, mas isto sei que é verdade. está calor e os miúdos enchem-se de preguiça, gostam de jogar os jogos aos tiros, eu preferia uma sesta e ler Tabucchi. talvez faça praline.



idle

dessert experimenting
(new combo jane-rasputine)

day off

home with children, blessings.

stuff

um pouco à beira da exaustão. três mortes esta semana, a de um amigo, a de um conhecido e a de um cão conhecido. e um nascimento. a vida em concentrado.


 
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