light gazing, ışığa bakmak

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Thursday, July 2, 2009

água de Portugal

Lucien senhor de Rubempré é vaidoso, como se descreviam os caracteres há muito tempo, a vaidade a destruir a personalidade que deveria estar "tingida" pela modéstia e pela simplicidade. o século dezanove foi castrador quanto baste e mesmo assim não deixou de deixar material de pensamento, padrões e rastos que hoje se desqualificam pela força da psicologia, banalizadora por vezes, mitificadora por outras. no caso da vaidade, narciso, olhar para o umbigo, o diabo que espreita no espelho, o homem encremado e perfumado, o eco, o auto-elogio, monólogo, o rei isolado (espelho meu, mulher masculina) ela aparece justificada por mil e uma faltas da infância, os filhos sós, a educação, o ensino. e, por outro lado, tantas vezes glorificada afinal como também no passado: a omnipotente auto-estima, tesourinho a resguardar a qualquer custo.

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Florine encarregou-se das aquisições; acrescentou três bonitas camisas. Nathan oferece-te uma bengala. Blondet, que ganhou trezentos francos, envia-te uma corrente de ouro. E a bailarina de Des Lupeaux juntou-lhe um relógio de ouro, do tamanho de uma moeda de quarenta francos que um imbecil lhe deu e que não usa: "Não vale nada, é como o que ele obteve!" disse-nos ela. Bixiou, que se juntou a nós no Rocher de Cancale, quis acrescentar um frasco de água de Portugal à encomenda que te enviamos de Paris." (...)

"Para aquele memorável serão, o poeta envergara uma toilette que lhe devia conferir, sem sombra de dúvida, uma superioridade sobre todos os homens. (...) Seguindo a moda da época, à qual se deve a transição dos antigos calções de baile para as ignóbeis calças actuais, ele vestira umas calças pretas, justas. As formas dos homens desenhavam-se, para grande desespero das pessoas magras ou deselegantes; e as de Lucien eram apolínicas. As meias rendadas de seda cinzenta, os sapatos leves, o colete de cetim preto, a gravata, foi tudo escrupulosamente moldado, por assim dizer colado aoa seu corpo. A loura e farta cabeleira frisada realçava-lhe a fronte muito clara, em volta da qual se dispunham graciosamente os anéis do cabelo. Os olhos, ébrios de orgulho, cintilavam. As pequenas mãos efeminadas, enluvadas e bonitas, não deviam transparecer por baixo das luvas."

Ilusões Perdidas, H. Balzac

Sunday, June 28, 2009

"Só Deus é triangular!"

pensamento, paixão, esforço, o meu triângulo fraternal.

"Meu caro, em literatura, cada ideia tem um direito e um reverso; ninguém pode assumir a responsabilidade de afirmar qual é o reverso. Tudo é bilateral no domínio do pensamento. As ideias são binárias. Jano é o mito da crítica e o símbolo do génio. Só Deus é tringular! O que faz de Molière e Corneille duas excepções, não é a faculdade de pôr Alcestes a dizer sim e Octávio e Cina a dizer não. Rousseau, em La Nouvelle Héloïse, escreveu uma carta a favor e outra contra o duelo, serias capaz de determinar a sua verdadeira opinião? Qual de nós estaria disposto a pronunciar-se entre Clarisse e Lovelace, entre Heitor e Aquiles? Quem é o herói de Homero? Qual foi a intenção de Richardson? A crítica deve contemplar as obras em todos os seus aspectos. Enfim, somos grandes relatores."
H. Balzac, Ilusões Perdidas

só com Steinbeck, há algum tempo, viajei tanto.

Tuesday, June 23, 2009

o público sou eu

espero que esta tenha melhor sorte do que a colecção anterior. para já, soube desta e da outra não. falo da "Biblioteca António Lobo Antunes", um nome grande para reedição de livros no domínio público. serve o propósito, ainda bem que existe.


"Agora vamos começar com uma biblioteca na Dom Quixote, em que eu faço pequeninos prefácios, usando o meu nome de maneira a tentar com que esses livros sejam lidos, de grandes escritores. Livros que estejam no domínio público e vão começar a sair este ano. Tinha feito um ensaio com o Tolstoi e com o Daudet, mas aquilo não saiu como eu gostava. Agora vamos começar com o Svevo, A Consciência de Zeno, O Coração das Trevas do Conrad, e A Letra Escarlate de Hawthorne. Portanto, este ano vamos publicar seis ou nove livros e depois, se o público aderir, usando um pequeno prefácio que não pretende ser crítico, pretende ser apenas uma coisa que dê vontade aos leitores de ler esses grandes livros. Se acontecer assim, vamos continuar. Publicar desde os latinos até - porque não? - ao Capitão Blood, que é um excelente livro do Sabatini, ou Salgari, isto misturado com o Vergílio, Ovídeo, Balzac, Melville, e por aí fora." (a entrevista toda, aqui)

Aqui o "pequeno prefácio" das Ilusões Perdidas.

"Ora aqui está ele, um dos monstros sagrados da literatura de todos os tempos. Morreu com 49 anos, media um metro e meio, escrevia da meia-noite às oito da manhã, rodeado de candelabros e alimentado a café, e deixou uma obra única. É impossível escolher um dos seus títulos, e este foi-o um pouco ao acaso. No trabalho de Balzac há de tudo - era aquilo a que Victor Hugo chamava um Homem-oceano. Há de tudo e é sempre genial. Podia ter-me decidido por Seraphita, livro muito da minha predilecção, mas as Ilusões Perdidas põem menos dificuldades ao leitor pouco habituado ao seu estilo e, ao mesmo tempo, dão uma razoável ideia do seu génio torrencial, excessivo e, no entanto (parece um paradoxo e não é), estritamente policiado. Fica-se cheio de admiração pela capacidade que este homenzinho tem de cosnstruir um mundo, ele que considerava o romance a "história privada das nações" e achava indispensável ter remexido em toda a vida social, para ser um verdadeiro escritor. Depois de Balzac a literatura evoluiu imenso mas o seu lugar é eterno, seja o que for que a palavra signifique." (A. Lobo Antunes)

até ver, prefiro o personagem Sixte de Chatelêt. só esta figura dá um tratado sobre o género humano, as miudezas, rendilhados, sedução ardilosa, aproveitamento, fineza e bom vestir. admirável. "Habillez l'Apollon du Belvédère ou l'Antinoüs en porteur d'eau, reconnaîtrez-vous alors la divine création du ciseau grec ou romain?")

Lucien terá partes dele próprio, Balzac: "The most revealing letters are the earliest, especially those that he wrote to his sister Laure when he was living in a little room in the east of Paris, trying to turn himself into a writer. They show the twenty-year-old Balzac in the boiler room of his literary career, wrestling with an unwieldy five-act tragedy on the subject of Cromwell, in desperate need of an instruction manual: “A verse tragedy ordinarily contains two thousand lines, which calls for between 8 and 10,000 thoughts, not counting those required by ideas, plot, character”, etc. A few days later, he decided to write the whole play in one go, and then to “colour it in” later on. All he needed now was some genius: “If there’s any for sale in Villeparisis, buy me as much as you can”.

The solution, of course, was staring him in the face: if he could channel into a literary work the wit and exuberance that he showed in letters to his family, he might realize his dual ambition of writing for posterity and earning a lot of money. Having discovered that popular fiction offered better returns than tragedy, he adopted the exotic pseudonym “Lord R’Hoone”, and set about writing historical romances: “Five hundred francs a month equal six thousand a year, and to earn them, all I have to do is write a chapter every morning”. “Before long, Lord R’Hoone will be the man of the moment, the most prolific and likeable of authors . . . and then men, women, children and embryos will be leaping up and down like hills, and I’ll have love affairs galore.” Meanwhile, in case of failure, his sister should try to find him a rich widow. He promised her “five percent commission on the dowry, and some pins”: “Send all you can find to Lord R’Hoone, Paris . . . . Must be sent prepaid, without crack or repair; rich and amiable preferred; prettiness not essential”.

When they read the first edition of Balzac’s correspondence in 1876, many of his literary admirers were shocked by what they saw as cynicism, greed, or vulgarity. The author of Illusions perdues seemed never to have had any illusions to lose: “The urgency of his consuming money-hunger . . . is rudely exposed . . . and the unsightly underside of his discomfort stares us full in the face” (Henry James); “It shows him to have been a splendid man: one would have loved him. But what a concern for money, and so little love of Art!” (Gustave Flaubert). These were harsh judgements. Honoré had to prove to his parents that he could support himself. A family friend was trying to find him a job, and he was in imminent danger of becoming a normal citizen: “I’ll become a clerk, a machine, a circus horse . . . . I’ll be like everyone else”. (daqui, o meu velhinho TLS)

o pobre poeta da província em Paris. é curioso como a ideia do escritor inspirado, o poeta maldito, o artista volátil, persiste ainda tanto como naquela altura.

Saturday, June 20, 2009

em português

na mesa de cabeceira. em francês aqui, e em inglês aqui.

"mais les philosophes ont remarqué que les habitudes du jeune âge reviennent avec force dans la vieillesse de l'homme. Séchard confirmait cette observation : plus il vieillissait, plus il aimait à boire. Sa passion laissait sur sa physionomie oursine des marques qui la rendaient originale. Son nez avait pris le développement et la forme d'un A majuscule corps de triple canon. Ses deux joues veinées ressemblaient à ces feuilles de vigne pleines de gibbosités violettes, purpurines et souvent panachées. Vous eussiez dit d'une truffe monstrueuse enveloppée par les pampres de l'automne. Cachés sous deux gros sourcils pareils à deux buissons chargés de neige, ses petits yeux gris, où pétillait la ruse d'une avarice qui tuait tout en lui, même la paternité, conservaient leur esprit jusque dans l'ivresse. Sa tête chauve et découronnée, mais ceinte de cheveux grisonnants qui frisotaient encore, rappelait à l'imagination les Cordeliers des Contes de La
Fontaine. Il était court et ventru comme beaucoup de ces vieux lampions qui consomment plus d'huile que de mèche ; car les excès en toute chose poussent le corps dans la voie qui lui est propre. L'ivrognerie, comme l'étude, engraisse encore l'homme gras et maigrit l'homme maigre."


as Ilusões Perdidas de Balzac.

Tuesday, June 9, 2009

leitura de verão

este verão a coisa está muito simplificado para o incauto leitor, não há que ler jornais nem suplementos e menos fazer listas, basta pegar na biblioteca Lobo Antunes da Dom Quixote. e nem há que escolher, é ler todos, re-ler alguns. sou capaz de começar logo nas Ilusões Perdidas.

 
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