light gazing, ışığa bakmak

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Tuesday, March 10, 2009

caderno de coleccionador

Como não sei qual o sentido da minha vida decidi começar uma colecção de pacotes de açúcar. Isto não veio do nada. Ontem à noite vi obliquamente um programa de televisão em que várias pessoas oriundas de muitos países do mundo eram confrontadas com essa pergunta, qual o sentido da vida. É verdade que a maior parte delas, independemente do continente, sexo ou religião, não sabiam responder à resposta. As restantes, um grupo diminuto, invocavam o amor e a família. Por isto, e tendo em conta a minha atracção por miniaturas, decidi-me pelos pacotes de açúcar.

Só depois tentei dar alguma justificação plausível à escolha e pus-me a listar pequenas coisas, conforme me viessem à cabeça. A personagem de Auster que constrói barcos minúsculos dentro de garrafas, as miniaturas de Nadir Afonso, a colecção de insónias de Bernfried Järvi, as polaroids de Hockney e uma colecção de pequenos frascos vazios que carrego na mochila, isto só para falar da última semana. O pensamento começa a rodopiar pelo excesso de sons e de impulsos que recebe de todo o lado, convenço-me que é demasiado barulho, uma gritaria infernal, mas quando concluo que sem conteúdo não haveria nada a dizer, então descanso.


Haverá quem me possa acusar de recorrer a uma actividade sem nexo e sem objectivos moralmente elevados para preencher uma missão que em tudo deveria ser mais honrosa, a nossa missão no mundo, a razão de estarmos aqui. Cada vida deve contar, cada vida deve ser portadora de significado, deveremos retribuir à sociedade o que ela nos dá. As vozes acusadoras sobem de tom em meu redor mas apresso-me a impor o silêncio. O mundo está repleto de actividades vácuas muito mais graves - e até danosas - do que coleccionar pacotes de açúcar e eu podia adiantar já algumas. A colecção de versões do famoso verso Lasciate ogne speranza, voi ch'intrateé é uma delas, felizmente inofensiva. De repente predisponho-me a olhar para as coisas com outros olhos.

Por razões que prefiro omitir, entre o momento da decisão e o dia em que comecei de facto a recolher os meus objectos decorreram algumas semanas.

 
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