em ler os seus romances, mas não tenho dúvida que hoje ninguém escreve melhor do que ele.
(carta)
light gazing, ışığa bakmak
Sunday, April 3, 2016
posso ter dificuldade
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Tuesday, February 4, 2014
e
encontrar alexandra alpha em guerra e paz-
"The princess rested her bare round arm on a little table and considered a reply unnecessary. She smilingly waited. All the time the story was being told she sat upright, glancing now at her beautiful round arm, altered in shape by its pressure on the table, now at her still more beautiful bosom, on which she readjusted a diamond necklace. From time to time she smoothed the folds of her dress, and whenever the story produced an effect she glanced at Anna Pavlovna, at once adopted just the expression she saw on the maid of honor's face, and again relapsed into her radiant smile."
há uma nova tradução de Anna Karénina de Filipe Guerra de quem eu gostava de ler uma tradução, qualquer uma, talvez mais Gogol. a ironia com Tolstoi é que todos estes filmes, séries, retratos, actuações, mini-séries, adaptações, etc etc - ignoram totalmente o livro e o seu autor e dedicam energias consumíveis e inconsumíveis a detalhes populistas e um pouco obscenos de a prataria, os vestidos, a beleza da actriz, o baile de gala - travestindo (sem desprimor dos travestis) a obra em pequenos arroubos de novela mexicana (a bela, o vilão, o drama, a miss mundo, a condessa e uma série de personagens que me lembro de ver nas fotonovelas que a minha tia guardava debaixo da cama).
porque li os sentimentos complexos do escritor perante essa beldade rechonchuda e branca, envolta em véus e rendas, que não serve para nada a não ser o seu papel de porcelana. esta beldade foi a mesma que Tolstoi empurrou mais tarde para debaixo das carruagens de um comboio.
ironias: "Tolstoy died in 1910, at the age of 82. He died of pneumonia at Astapovo train station (..."
"... Suddenly [Tolstoy] had an illumination. He remembered an occurrence that had deeply affected him the previous year. [1872] A neighbor and friend of his, Bibikov, the snipe hunter, lived with a woman named Anna Stepanovna Pirogova, a tall, full-blown woman with a broad face and an easy-going nature, who had become his mistress. But he had been neglecting her of late for his children's German governess. He had even made up his mind to marry the blond Fraulein. Learning of his treachery, Anna Stepanovna's jealousy burst all bounds; she ran away, carrying a bundle of clothes, and wandered about the countryside for three days, crazed with grief. Then she threw herself under a freight train at the Yasenki station. Before she died, she sent a note to Bibikov: "You are my murderer. Be happy, if an assassin can be happy. If you like, you can see my corpse on the rails at Yasenki." That was January 4, 1872. The following day Tolstoy had gone to the station, as a spectator, while the autopsy was being performed in the presence of a police inspector. Standing in a corner of the shed, he had observed every detail of the woman's body lying on the table, bloody and mutilated, with its skull crushed. How shameless, he thought, and yet how chaste. A dreadful lesson was brought home to him by that white, naked flesh, those dead breasts, those inert thighs that had felt and given pleasure. He tried to imagine the existence of this poor woman who had given all for love, only to meet with such a trite, ugly death." daqui
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Thursday, July 4, 2013
'Words, Pictures, Objects'
I can't event start to express the pleasure I got out of reading the chapter 'Words, Pictures, Objects'. e não sei se o podia ter lido em qualquer outro ponto da vida, o que torna a leitura um pouco incómoda: quem sou eu, aqui, (ou, quem somos nós, aqui, pois eu é sempre nós, um eu sem significado) neste momento, depois de ver e ouvir e saber tudo isto, depois de Morsi ter caído com novo golpe de estado, depois de um arrufo de quatro milhões, depois de ter vivido sob t.s. eliot muito tempo, depois de sebald, depois da obra quase completa deste autor, depois de muitas outras conclusões que não são para aqui chamadas, depois de ashbery e do escudo de aquiles, depois do incrivelmente poético black elk speaks, depois da p.i. ter ido embora, depois de brit bass, depois do prado, depois dos sons da praia de eastbourne, depois de morrer saramago, depois de alexandra, depois de afonso cruz, etc.
para o mal dos direitos da cópia, terei de o trazer para aqui. este final que sei que não o é, mas o iniciar de outra coisa, ou um desvio grande.
esta é a cara de Anna Karenina que foi pintada dez anos depois da publicação do livro.
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Friday, June 7, 2013
'don't save a prayer for me now'
é preciso ter a noção da dificuldade de ler qualquer outra coisa quando se lê uma das obras de Pamuk: a quantidade de planos diversos que se entrecruzam nas linhas aparentes é uma vertigem. encontro esta sofisticação de manipulação em Nabokov e perversidade é a palavra certa para descrever o processo. por outro lado, o que distingue Pamuk de Nabokov é a sua abertura total, colocar tudo no texto, todos as vírgulas da sua vida estão lá, mesmo aquelas de que não fala (a relação com as mulheres da sua vida, por exemplo), estão lá também e são visíveis. é provavelmente esta característica, bem como a mestria em manipular a realidade, na verdade em evocá-la (conjure) que torna difícil ler outros autores como injustamente tentei ler Rui Cardoso Martins. sempre pensei que é preciso escrever com o próprio sangue e é precisamente isso que não vi em 'Espelho da Água', agora que dormi sobre o assunto. o que me dá alguma curiosidade em relação ao conto de Dulce Cardoso pois parece-me, embora não a tenha lido, que o seu sucesso é precisamente esse. mas isto são congeminações, mais nada.
tal como imaginei, o capítulo 8 entra em velocidade cruzeiro: o capítulo seguinte não baixa o ritmo e apresenta outra magnífica personagem, mas em técnica hearsay, através da descrição de alguém (espelhos pois todas as palavras são ponto de vista de alguém): Saadettin é descrito por Ipek que é ouvida por Ka que é escrito pelo narrador, ou seja, nesta descrição há quatro personalidades simultâneas e todas são ouvidas claramente. por outro lado, este artifício cria enormes expectativas em relação à "realidade", ou seja, o Sheik ele mesmo visto por Ka descrito pelo narrador.
- -
a carta, ou introdução:
“Ka, my dear son:
“If you’d prefer me not to call you my son, I offer my sincere apologies. Last night I saw you in my dreams. It was snowing in my dream, and every snowflake that fell to the earth shone with divine radiance [meu itálico, para o que me parece ser o tema de Snow]. I asked myself if it was a sign, and then this afternoon I saw outside the same snow I’d seen in my dream falling right in front of my window. You walked past our humble home, number 18 Baytarhane Street. Our esteemed friend Muhtar, whom God Almighty has just subjected to a severe test, has explained to me the meaning you take from this snow. We are travelers on the same road. I am waiting for you, sir.
“Signed: Saadettin Cevher”
continuação:
“Listen. Go to our esteemed sheikh at once. He counts as a very important person here, much more important than you think; many people in this city go to see him, even people who regard themselves as seculars, lots of army officers. It’s even said the governor’s wife goes there, and lots of rich people, lots of soldiers. He’s on the side of the state. When he said that the covered girls in the university should take off their head scarves, the Prosperity Party didn’t make a peep. In a place like Kars, when a man this powerful invites you over, you don’t turn him down.”
“Was it you who sent poor Muhtar to see him?”
“Are you worried that the sheikh will discover a God-fearing part of you and send you scurrying back into the fold?”
“I’m very happy right now, I have no need for religion,” said Ka.
“And anyway, that’s not what brought me back to Turkey. Only one thing could have brought me back: your love. . . . Are we going to get married?”
I˙pek sat down on the edge of the bed. “Come on, go,” she said. She gave Ka a warm and bewitching smile. “But be careful, too. There’s no one better at finding the weak point in your soul, and like a genie he’ll work his way inside you.”
“What will he do to me?”
“He’ll speak to you, and then all of a sudden he’ll throw himself on the floor. He’ll take some ordinary thing you said and say how wise it is; he’ll insist you’re a real man. Some people even think he’s making fun of them at this point! But that’s His Excellency’s special gift. He does it so convincingly you end up believing that he really thinks what you’ve said is wise and that he believes as you do with all his heart. He acts as if there is something great inside you. After a while, you begin to see this inner beauty too, and because you have never before sensed the beauty within you, you think it must be the presence of God, and this makes you happy. In other words, the world becomes a beautiful place when you’re near this man. And you’ll love our esteemed sheikh because he’s brought you to this happiness. All the while, another voice is whispering inside you that this is all a game the sheikh is playing and you are a miserable idiot. But as far as I could figure out from what Muhtar told me, it seems you no longer have the strength to be that miserable idiot. You’re so
wretchedly unhappy that all you want is for God to save you. Now, your mind—which knows nothing of your soul’s desires—objects a little but not enough; you embark on the road the sheikh has shown you because it is the only road in the world that will let you stand on your own two feet. Sheikh Efendi’s greatest gift is to make the wretch sitting before him feel special, even more as one with the universe than His Excellency himself. To most men in Kars this feels like a miracle, for they know only too well that no one else in Turkey could be as wretched, poor, and unsuccessful as they. So you come to believe, first in the sheikh and then in the longforgotten teachings of your Islamic faith. Contrary to what they think in Germany and to the pronouncements of secularist intellectuals, this is not a bad thing. You can become like everyone else, you can become one with the people, and, even if it’s only for a little while, you can escape from unhappiness.”
“I’m not unhappy,” said Ka.
“In fact, someone that unhappy is not unhappy at all. Even the most miserable people have hidden consolations and hopes they secretly embrace. It’s not like Istanbul; there are no mocking nonbelievers. Things are simpler here.”
Pamuk em Snow.
- -
(escrever com o próprio sangue é uma imagem que induz em erro. Cardoso Pires não escreve eu muitas vezes, como na Valsa Lenta, mas toda a sua existência está presente em cada palavra. não há outro modo, há autores que lhe chamam honestidade na escrita e penso que esse qualificador é correcto. Rui Manuel Amaral não escreve eu jamais e a sua realidade não é a realidade - o meu mundo não é deste mundo - mas também ele faz isso: cada palavra é ele próprio e não julgo que pudesse ser mais ninguém.)
também há que dizer que enquanto Ipek fala de sua excelência o sheik, Ka está a tentar levá-la para a cama, a ler-lhe o seu poema e a perguntar dez vezes se o seu poema é bonito. em resumo, um fantástico auto-retrato.
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Ana V.
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Thursday, August 27, 2009
essas mulheres, de novo
as de Cardoso Pires. passado o necessário luto volto a encontrar Alexandra no Anjo Ancorado. desta vez é Guida. e começo a perceber porque ficou a meio a primeira. pela minha dificuldade com a futilidade dela, e pela minha dificuldade com o olhar dele. o dele estava certo, pois estava, mas a sombra da "mulher verdadeira", a que li em Yourcenar e não gostei, está lá também.
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Tuesday, October 14, 2008
Histórias de Amor de José Cardoso Pires (1)
antes da minha leitura, não resisto a um copy/paste do site city. esta entrevista, na verdade, devia ser impressa (imprimida), recortada ao tamanho e posta dentro do livro em carne e osso. cinquenta anos depois é fácil esquecer o que foi.
Histórias de Amor
1.ª edição - editorial Gleba, Lda. Lisboa, 1952, capa de Victor Palla (incluído posteriormente em Jogos de Azar, com excepção do conto Romance com Data)
"- O seu segundo livro, Histórias de Amor, foi apreendido...
- Um dos contos descrevia a prisão de uma estudante antifascista mas a Censura fingiu ignorar o pormenor. A PIDE é que não: prendeu-me sem mais aquelas...
- Como foi tratado pela PIDE?
- Não me interrogaram, não me deixaram dormir durante três dias e depois puseram-me na rua sem interrogatório, sem nada. Apenas, a privação do sono e algumas provocações. Era um aviso da polícia a um jovem que começava a escrever, nada mais.
- Foi longo o seu conflito com a Censura...
- Em todo o caso, muito menor do que o de alguns escritores. Torga esteve preso não sei quanto tempo por ter escrito Os Bichos. Redol foi proibido de publicar fosse o que fosse durante dois anos... A polícia política e a polícia da escrita trabalhavam de mãos dadas, como aconteceu no meu caso, mas nunca se comprometiam com qualquer declaração documentada. Veja, a PIDE teve-me detido e dessa reclusão não ficou um auto de captura, um interrogatório. Uma semana depois foi a vez de a Censura me chamar por uma contrafé. O director, um major sinuoso que dava pelo nome de David dos Santos, propôs-me que eu fizesse emendas ao texto das Histórias de Amor para lhe levantar a interdição.
- Que emendas?
- Substituir as passagens censuradas, pura e simplesmente. Num livro de Jacinto Baptista * há uma referência a esse episódio com bastante exactidão. Para os censores o que na altura estava em causa já não era o livro, era o jovem escritor que eu era. Era esse principiante que aquele major de merda estava a humilhar convictamente, procurando comprometê-lo ali mesmo, logo à nascença. O próprio facto de eu ter de recusar uma negociação tão suja foi, lembro-me bem, uma segunda humilhação para mim porque uma proposta de colaboracionismo, mesmo que em termos de rotina burocrática, pressupõe que o carrasco tem uma imagem desdenhosa da vítima. Claro que da tentativa de aliciamento não ficou o menor registo, como era costume. Ou, antes, ficou; neste caso ficou, porque o major aliciador insistiu em que eu reconsiderasse e entregou-me o exemplar censurado para que eu o corrigisse. O exemplar censurado, imagine! As anotações, as passagens, as páginas cortadas pelo célebre lápis azul da censura, tudo ali na minha mão!
- Por exemplo ...?
- Por exemplo, a palavra nu cortada logo ao abrir do livro. «O homem estava nu em cima da cama ...» e, zás, o lápis azul atacou logo. Por exemplo, certas expressões do género filho da mãe, dor de corno, catano e outras assim, tudo abaixo, tudo excomungado. A simples referência a Maiakovski, ao Éluard e ao Pessoa (ao Pessoa, veja bem!) levantou prontamente a suspeita do bem-pensante e foi abatida antes que se fizesse tarde, e isto para não falar já das páginas eliminadas por inteiro nem das interrogações e de certos sinais enigmáticos que aparecem à margem doutras. Numa delas está anotado a tinta «Deixar passar?» Como vê, os caprichos da Censura eram largos e insondáveis... e eu tinha-os ali na mão! Desse por onde desse, não estava disposto a perder um testemunho daqueles. Como e de que maneira, não sabia. Por sorte minha, pouco tempo depois houve uma remodelação dos Serviços de Censura e nunca mais devolvi o exemplar. Guardo-o como um apontamento precioso da minha vida de escritor porque ‚ uma comprovação da prepotência e da análise supersticiosa daquilo a que o Salazar chamava a Política do Espírito. Senti a mão da Censura logo ao primeiro texto que publiquei em livro, uma antologia universitária intitulada Bloco. Morte imediata, livro apreendido sem demora porque a polícia da escrita estava atenta aos candidatos a escritor. Os que havia já chegavam e sobravam, para essa praga de inquisidores, o escritor português vivo era a besta inconveniente, o alvo maldito. Mesmo assim, ele não se calava, não desistia de escrever. E os editores publicavam-no, os editores, que imprudência, assumiam esse risco. E os livreiros protegiam-no, faziam malabarismos para lhe venderem o livro clandestinamente se por acaso fosse proibido."
* Jacinto Baptista, Caminhos para uma Revolução, Ed. Bertrand, Lisboa, 1975.
Cardoso Pires por Cardoso Pires, entrev. de Artur Portela, 1ª edição, Publicações D. Quixote, 1991, 124 p., pp. 33 - 35
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Wednesday, April 2, 2008
hmmm
"As mães-hospedeiras são putas que fazem pela vida. Uma espécie de galinhas de aviário que alugam o útero ao prazo de nove meses, deixá-las lá. O que incomoda, o que mete nojo são as outras, as fanáticas da independência que em vez de fornicarem vão ao frigorífico buscar o menino condensado na ampolazinha..." palavras de Alexandra Alpha, de José Cardoso Pires.
At odds with free standing.
Leaning for so long on antagonism and now,
stepping on the void, blank spaces: who are you?
Ó Alexandra/Cardoso: mas desde quando é que a independência é um fanatismo, hein?
Lá recomecei as caminhadas. Passando ao lado do Montemar, de má memória, vinte minutos.
O cheiro do mar chega a ser tão intenso que enche os pulmões. Murganheiras-da-praia.
Estorno, ammophila arenaria.
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Saturday, March 29, 2008
recomeçar
"(...)Penso no cérebro como o atlas vivo das grandes marchas do homem. Uma massa luminosa capaz de abranger os infinitos da mais impossível grandeza, do maior sempre maior ao mais ínfimo dos mais ínfimos, mas que se revolve ou se retém a um minúsculo sopro de pó; que se descodifica e resta neutro, terminado; que se recompõe e nos torna de novo vivos a um traço calculado da ciência.
Sinto-me tomado de gratidão. Isto de alguém se recomeçar assim depois de nulo é algo que deslumbra e ultrapassa."
De Profundis, Valsa Lenta
José Cardoso Pires
Esta janela viva para o mais profundo do cérebro aberta por Cardoso Pires deixa-me sem comentários. Paisagens; algumas que eu tinha imaginado, outras que descobri pela primeira vez. Do prefácio-carta inicial, adorei ler esta linha de João Lobo Antunes sobre o escritor: "V., que tem espírito geométrico, e não foi matemático porque não quis..."
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Wednesday, March 19, 2008
andorinhas
Estação de serviço de Grândola (ou seria Alcácer?), debaixo de águas mil, ainda em Março, quatro ninhos de andorinhas. Os pássaros a esvoaçar, fugindo à chuva. Esvoaço também para Sul, onde encaixo na paisagem como uma luva, a lavar os olhos. Amanhã ou depois Monchique, talvez, que ainda não me cansei de serranias. As Caldas e a Fóia. Porco em molho de amêndoa ou cabrito com canela na Quinta de São Bento. Missão complementar: encontrar um Folar de Olhão. E outra: aperfeiçoar a arte da Margarita. Pintar ovos, brincar aos mouros na serra e inventar histórias encantadas. (Mãe, porque é que os mouros tiveram de ir embora? Why they couldn't share?) O que nos liga às coisas, hoje em estado doce-mel, às pessoas.
"“De resto, a desmemória não só o isolou da realidade objectiva, como o destituiu, pode dizer-se, de sentimentos. Perdeu os estímulos de aproximação porque, sem a consciência da identidade que nos posiciona e nos define num framework de experiências e de valores, ninguém pode ser sensível à valia humana do semelhante. As suas virtudes ou os seus males só podem ser reconhecidos como significantes sentimentais em contraponto com a consciência da nossa identidade, isto é, com a tradição da comunicação que praticamos com a sociedade e com a nossa memória cultural. A ele tal coisa estava-lhe vedada, memória onde tu já ias. Daí a total indiferença em que navegava à tona das comoções e dos afectos, uma indiferença extrema que, sucedesse o que sucedesse , não o levava a perturbar nem ao de leve a disciplina do ambiente. Na verdade, não sabia de todo onde se encontrava, a razão era essa.”(José Cardoso Pires in De Profundis, Valsa Lenta)
À gossip, que me deixou a pensar nisto desde dia 7.
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Wednesday, March 12, 2008
matronas americanas ou American madonnas
Já em Alexandra Alpha, a mulher liberta. A falta de sinais no corpo e a ausência de grandes pecados anunciam-me uma queda quase inevitável. Eu, que gostava de a levar ao colo, vou por enquanto seguindo a sua trajectória nervosa pela(s) cidade(s). E ali, precisamente, where I went wrong. Devia ter sabido que uma serpente nunca se ajeita no molde de uma matrona. Águas passadas.
Alexandra sentou-se em cima da cama e acendeu o primeiro cigarro da manhã. Diante dela, no espelho da porta do quarto, via uma mulher de queixo apoiado nos joelhos, os braços a envolverem as pernas, e a pensar que uma coisa tinha aprendido pelo menos com o Steve: o medo de amar. É que toda a ânsia com que ele queria legalizar a situação não podia ter outro nome. Medo, qualquer estúpida perceberia. Ou insegurança, se assim lhe quisessem chamar. Não é certamente por acaso que os americanos jet set andam todos com o retrato da matrona e da filharada na carteira ao lado dos cartões de crédito. E isso tanto pode significar insegurança como complexo de identidade ou ambos os males por atacado. Ou o Edipozinho a fazer das dele, já que o Edipozinho recalcado é tudo menos distraído e ataca sempre pelo verso e pelo reverso e pelo perverso principalmente.
Enfim, tudo tem o seu termo e a experiência com Steve Dorkin acabou como tinha de acabar. Quando ele lhe veio todo contente com a intimação do casamento, Alexandra nem pensou duas vezes: embora esfarrapada na alma, sabe Deus, pôs ponto final ao escrupuloso apaixonado. Como serpente da maçã Steve podia continuar a usá-la e a abusá-la, que para isso é que ela estava ali e por sinal com muito bom proveito. Usar e abusar. Como quisesse e à vontadinha. Agora lá Eva oficializada é que não. Eva com aliança e assinatura reconhecida, aí, Steve, paravam os Talmudes. O tipo, ainda batalhou, insistiu, mais empedernido do que a tábuas do Moisés, mas cada qual ficou na natureza que lhe era própria: ela, serpente e com muita honra, ele com a folha de parra pregada a rebites, o parvalhão. «Lixaste-te, mas foi melhor assim,» deve-o ter confortado depois o Jeová, mas se o confortou, Alexandra nunca teve confirmação porque não tornou a pôr-lhe a vista em cima.
Em Alexandra Alpha
José Cardoso Pires
Que eu tenha visto, mas posso-me enganar muito, Alexandra Alpha é um livro por traduzir. Em inglês, suponho. Surpreende-me que Cardoso Pires tenha sido pouco traduzido, ou foi? Interrogação em suspenso.
Interessante, a técnica da citação em Cardoso Pires.
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Monday, March 10, 2008
o significado de um chá
O verdadeiro significado de um chá perfumado, uma delicadeza.
O Thé du Hammam do Palais des Thés ("Thé du Hammam is inspired by a traditional Turkish recipe, based on green tea, flowers and fruits. Enlivened, in the purest of eastern traditions, with rose petals and orange flower water, Thé du Hammam is a green tea perfumed with the pulp of green dates and red fruits. This green tea, which is high in vitamins, is famous for its freshness and for its thirst quenching qualities.")
"Comia lentamente, sem gosto, apenas para sustentar o corpo, e também nisso se parecia com os camponeses, que se alimentam, não comem. Um cavador mastigando em pleno descampado comeria decerto assim - com aquela mesma solidão; talhando à navalha na palma da mão, poupando o conduto, bebendo pela garrafa em goladas pensativas."
(...)
"À sesta, deitado no fundo do telheiro, recordava ainda os chineses que o tinham visitado e, sem saber porquê, via-os cobertos de um brilho de ouro, vestidos com cabaias de dragões como os mágicos do circo. E sentindo o vento da tarde a trazer-lhe o cheiro da resina da lenha na fogueira, adormeceu a sonhar com passarinhos fritos, escorrendo sobre o pão."
De "O Conto dos Chineses" no Burro-em-Pé de José Cardoso Pires.
Porque toda a gente sonha, até mesmo os neo-realistas (às escondidas).
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Friday, March 7, 2008
do horóscopo para o corpo para a política: ainda a vertigem das palavras
Tem a ossatura sólida das mulheres do tipo Sagitário (cf. Elle, Horoscope, Prof. Trintzius...), signo mutável que predispõe ao repouso e ao ar livre. Mas a presença benéfica de Júpiter não elimina nela alguns sinais indiscutíveis de Marte (seguramente por ter nascido muito próxima do Escorpião), o que resulta com frequência em felizes associações. Seios opiniosos num tronco repousado, nariz determinado e audaz num rosto contemplativo, são oposições características das mulheres deste signo de fogo que governa sobretudo a região das coxas, e Maria das Mercês não desmente a regra. Tacteia o ventre, as pernas, demora-se no vinco do slip, ali onde se delimita um rebelde areal que se alteia gentilmente, recoberto e um tanto agreste de toque; e desse promontório breve, rosa negra, duna eriçada, partem dois rios irmãos que são as pernas em livre e consciente harmonia. Tais hastes, demonstram-no as vidraças, têm o deslizar contenso da luz outonal; sendo firmes e bem definidas, iluminam envolvendo, e são amáveis - porém sucintas. Sem retórica, classifico-as eu, recordando-me do artigo de fundo do jornal que li ao jantar.
D'O Delfim
José Cardoso Pires
Como tudo pode ser objecto literário. O Delfim, que vou descobrindo devagar mas com prazer, é sem dúvida um dos melhores romances escritos em português - na minha opinião (e não só). O prazer da leitura é avassalador, se é que me é permitido usar uma palavra tão pomposa e dramática para uma escrita tão económica e contida. Cada frase, mil sentidos/meanings, muitos planos que se cruzam e avançam paralelamente. O simultâneo de sítios e de estados de espírito é vertiginoso, talvez isso o que me atrai mais neste livro. Por outro lado, o escritor expõe-se como raramente vejo, expõe-se até ao âmago do que é, está lá todo, cru e cruel o seu olhar sobre os outros.
Aqui, Maria das Mercês, sozinha no quarto, lê uma revista feminina e entretém-se com os testes de cruzinha e com o horóscopo. Enquanto a mulher se olha nua, depois de ter posto a revista de lado, o escritor-voyeur do outro lado, no seu próprio quarto, olha-a e descreve-lhe o corpo, que "ambos" admiram ao espelho, partindo da revista que ela leu. Ela, pensamos nós. Mas afinal foi ele, escritor, que leu o horóscopo, o qual compara, num breve gesto de génio: ao "artigo de fundo do jornal". A frase mais corrosiva que já li sobre a qualidade da imprensa e que, desgraçadamente, poderíamos aplicar, ainda hoje, a uma enorme parte da imprensa escrita portuguesa. As pernas sem retórica de Maria das Mercês.
Só para que se veja: o texto d'O Delfim, acima, tem 179 palavras. O texto ranhozeco que sobre ele escrevi tem 240. O que eu adoro quando isto acontece: não o que escrevo, obviamente, mas quando leio uma coisa assim.
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Thursday, March 6, 2008
a bala que matou a meiadeleite
Não sei quanto tempo durará o blogger ou esta lâmpada mas, aguentando dez anos, e constantemente torneando falhas próprias, assim asseguro a existência futura dessa bala, a bala que matou a meiadeleite.
«Você é cruel», murmura daí a pouco. «Nunca pensei.»
«Sou um escritor negativo», respondo-lhe. «Mas isto passa, deixe lá. Qualquer dia aproveito para fazer a minha revisão.»
D'O Delfim
José Cardoso Pires
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Monday, March 3, 2008
à luz, entrevendo a pele e não o mito
Sentada à mesa ou deitada, serão de trabalho adiado para a noite seguinte, exaustão. Decido arrumar a casa, recapitular. Perseguindo as mulheres de José Cardoso Pires, era projecto, acabou por se provar proveitoso. Por vezes - muitas - os tiros no escuro dão nisto mesmo.
- As personagens femininas são centrais na sua obra...
- Talvez, eu, por mim, não tenho nada a opor... Creio até que na realidade portuguesa a condição feminina é muito mais representativa das contradições do nosso tempo do que a do homem. As assimetrias sociais são mais visíveis, pelo menos... Por outro lado, a mulher também tem, por natureza, um realismo muito mais forte do que o homem, por muito controverso que isto possa parecer. Mas tem, para mim tem. O seu próprio percurso biológico é, já de si, perfeitamente demarcado, eloquentemente demarcado, diria mesmo, em todos os capítulos do seu corpo. Menstruação, desfloramento, maternidade, menopausa, tudo aparece com uma precisão por vezes dramática e registada a sangue. No homem, não. No homem as transições são incomparavelmente mais abstractas. No homem, a puberdade é normalmente uma viragem incolor e a andropausa vem diluída em indefinições e metáforas."
Cardoso Pires por Cardoso Pires, entrev. de Artur Portela, que retirei daqui.
Cá está, o cardápio:
Os Caminheiros e outros contos (conto - 1949)
Histórias de Amor (conto - 1952)
O Anjo Ancorado (romance - 1958)
O Render dos Heróis (teatro - 1960)
A Cartilha do Marialva (ensaio - 1960)
Jogos de Azar (conto - 1963)
O Hóspede de Job (romance - 1963)
O Delfim (romance - 1968)
Dinossauro Excelentíssimo (fábula - 1972)
E Agora, José? (ensaio - 1977)
O Burro em Pé (conto - 1979)
Corpo Delito - na Sala de Espelhos (teatro - 1980)
Balada da Praia dos Cães (romance - 1982)
Alexandra Alpha (romance - 1987)
A República dos Corvos (crónica - 1988)
A Cavalo no Diabo (crónica - 1994)
De Profundis, Valsa lenta (memória - 1997)
Lisboa, Livro de Bordo (crónica - 1997)
Ou, dito por outras palavras, entrevejo a pele e desmancho-me logo toda. Seriam outros assuntos, mas pensar não chega. A filosofia, matemática incompleta porque não é capaz de cheirar o basílico nem os escapes da hora de ponta. (ou é?) Maria das Mercês não é personagem "plana", como odeio estas etiquetas, forcefed aos "jovens" como pílulas, o programa, conteúdos programáticos. Melhor imaginar-lhe o corpo branco, o sapato desconfortável de salto, o fumo da cigarrilha, o cabelo na escova.
O pinhal é uma paliçada entre mim e a lagoa, onde, num pântano, a Urdiceira, existe uma ferida por fechar. Arrancaram de lá o corpo de Maria das Mercês, esse espinho branco cravado no lodo, essa anémona de cabelos soltos a tremularem na corrente. Ofélia, murmuro. Ofélia à flor das águas como no sempre venerado santo William Shakespeare.
Mas estes montes são pobres. Nem ao anoitecer têm grandeza para se poder estender sobre eles um imponente manto de púrpura digno de dar passagem a uma Ofélia. E, francamente, só por delírio pretensioso é possível chegar a tamanha ingratidão para com Maria das Mercês, criatura humana - não dos livros. [meta, meta, meta, gritei] Ofélia, Hamlet, Cena V, e coisa e loisa, estão a mais neste cenário. Saint William Shakespeare disse tudo sobre o assunto. Esgotou-o, meteu-nos a todos no saco dele porque escreveu uma bíblia e «na Bíblia (cito de memória) contém-se até a defesa dos diabos». O melhor é deixar essa gente em paz com os encenadores - ou em guerra, se houver vantagem nisso para o Teatro. Daí lavo as minhas mãos e afasto o olhar do pinhal. Ninguém tem culpa dos caçadores enfrascados em literatura.
N'O Delfim
José Cardoso Pires
Sai daqui, santo WS! grita Cardoso Pires.
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Encarnado ou vermelho:
O vermelho é mais escuro?
"Há ainda o caso de um outro - esse muito antigo - que semeava bastardos entre a criadagem e que a cada amante oferecia um lenço vermelho. Tem barbas, a história. Ouvia-a ao Padre Novo que, por sua vez, a tinha ouvido a alguém dos seus tempos de liceu. Numa das versões, o homem morreu crivado de tiros de zagalote; noutra, o fim era a loucura: acabava, velho e podre, a sonhar com procissões de lenços vermelhos. Prefiro a segunda."
E lá se lança o escritor no relato imaginado da segunda, e os meus itálicos. (...)
«Ele e os seus dejectos arrastavam-se a passo de procissão por entre lenços vermelhos, tantos como não seria capaz de imaginar.» (...)
«Rapaz, de que cor era o cachené daquela?»
«Encarnado, patrão.»
De O Delfim
José Cardoso Pires
Na imagem, um dos 118 objectos vermelhos que o artista Paho Mann tinha em casa em 2005. Um projecto interessante, em Sort. Somos mais do que a soma dos nossos objectos? (Sempre inspirada pela Marta.)
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para ti, outra e outra vez
"Caminho por telhas atapetadas de mato que se há-de transformar em estrume e em viveiro de larvas depois de moído por botas cardadas, calores e invernias; e, caminhando, cruzo-me com vultos, alguns chegados da Vila. Vejo interiores de casebres alumiados a petróleo, são uma espinha de traves coberta com telhas em escama. Cavernames de navio, é o que me lembram. Pequenas arcas de Noé. Num ou noutro há o gato e a criança de barriga nua e de pernas arqueadas; num ou noutro há o cachorro e a galinha presa pela pata a uma cadeira, e em grandes alguidares de folha remexem enguias pardacentas. A noite está tranquila, húmida talvez. "
No Delfim
José Cardoso Pires
Aqui sem lhe perseguir as mulheres, perseguindo antes a imagem na escrita, a descrição perfeita. Não tirava nem punha nada e essa impressão vai-se mantendo ao longo do livro, ao longo da obra. Aqui gostei sem adjectivos suficientes do "talvez" final, um golpe último no paralelo terra-mar que ia correndo.
E deste lado ficam as curvas ao longo do rio, para a vida toda.
"Por mim, no que toca ao modo de narrar, prefiro correr o risco de jamais atingir o ponto impreciso da clareza a pecar por excesso, ultrapassando-a. Das duas faces desastrosas do gume, a última parece-me a pior porque resvala para o tom impositivo que anula os valores da sugestão e que impede a leitura de se tornar em si mesma uma segunda criação".
Sobre si próprio fala Cardoso Pires, que tirei daqui.
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Saturday, March 1, 2008
a vertigem das palavras, quem te dera Jenny Holzer
«E o passado não conta nas pessoas?», pergunta Maria das Mercês. «Pois olhe, eu acho que basta um tipo ter sido criado numa ilha para ganhar uma maneira de ser especial. Pelo menos precisa de imaginação para suportar aquela pasmaceira.»
Tomás Manuel pisca-me o olho:
«Influência do factor geográfico no comportamento das espécies.»
«Oh, não goze», implora ela, pegando no tricot.
E o marido, uma vez mais para mim:
«É isto. A sociologia chegou à Gafeira.»
Silêncio a seguir: uma esposa que faz malha, um Engenheiro anfitrião que bebe, rolando o copo nos dedos. Situação pouco agradável para um visitante, não fosse o whisky velho que o acompanha e a não menos velha curiosidade que nunca abandona o contador de histórias, esteja onde estiver. Coleccionador de casos, furão incorrigível, actor que escolhe o segundo plano, convencido de que controla a cena, deixa-me rir. Rir com mágoa, porque todos os contadores de histórias, por vício ou por profissão, merecem a sua gargalhada quando julgam que controlam a cena. E quem os trama é o papel, o espaço branco que amedronta - e aí, adeus suficiência. Não há boa memória nem gramática que os salve. Aposto que Xenofonte, apesar de patrono dos escritores caçadores, foi muito melhor furão em campo aberto do que no papiro. Atenção a Tomás Manuel:
«Qualquer dia hei-de pedir-lhe para nos fazer uns grogues à maneira de Cabo Verde.» Refere-se a Domingos, evidentemente. «Ficam estupendos.»
(Entretanto, lembro-me eu, sempre a vigiar a rua e o café, os jornais da tarde ainda vão tardar com o seu boletim meteorológico. Sei muito bem o que se passou com o Domingos e a maneira como o Engenheiro o reconstruiu, peça por pela, depois de o ter arrancado a uma guilhotina da fábrica, sem um braço. Sei tudo. Conheço-lhe a morte que o espera, e até como foi salvo da perdição da bebida graças a uma receita de Tomás Manuel, que, se não me engano, se resume a duas coisas: «rédea curta e porrada na garupa.» Sei tudo menos o passado próximo, o ontem e o hoje, que o jornal da tarde me reserva. E é importante.)
«Agora põe-se-lhe um tractor à frente e é tipo para o montar e desmontar com a maior limpeza. Mas deu-me que fazer, Domingos duma cana. Fui-me a ele, rédea curta e porrada na garupa, e pu-lo okay. Maria, quando tempo esteve o Domingos na Ford?»
«Seis meses,» responde a mulher, do canto da sala. «Olhe... a locutora de que você gosta, Tomás.»
«Dá-lhe cumprimentos. O caso é que num estágio de seis meses, ou nem isso, aprendeu a pegar num tractor como gente grande. Daí até ao Jaguar foi um brinquedo, faz dele o que quer.»
De quando em quando, Maria das Mercês tira uma fumaça da longa boquilha, torna a pousá-la no cinzeiro e, diante do televisor, recomeça a manobra dos dedos e da lã. Maquinalmente, como as beatas quando desfiam um rosário. O tricot, afirma ela, descontrai («a pessoa deixa de pensar») mas, aqui para nós, qual a diferença entre o rosário e as agulhas?, pergunto, olhando-a de relance. Mimetismo lúdico, Professor. Tricot para aquecer os pobres, ave-marias para o nosso eterno descanso - dois movimentos que descontraem a alma e a angústia. (Assunto a desenvolver no meu caderno de notas: a caridade como elemento de equilíbrio social; logo, como estabilizador das hierarquias. «Da necessidade da existência dos pobres para se alcançar o Reino dos Céus.» Mas não vale a pena gastar tempo com o assunto. Vem nos catecismos, Professor.)
No Delfim
José Cardoso Pires
Vejo as pessoas a beber a bica da manhã com os seus cães luzidios sentados ao lado, na esplanada, e tenho pena de não poder fazer o mesmo com o meu cão. (Borrifei-me para os blogues de panfleto, estou na minha.) E ainda a perseguir as mulheres de Cardoso Pires, encontro esta Maria, à mercê de tudo: o marido, a televisão e a cigarrilha, o tricot, as ideias feitas e a sorte da família, à mercê do que deve ser. Poucas vezes vi uma mulher ser tão finamente humilhada em tão poucas linhas. E o olhar do escritor cúmplice e embaraçado. A branca do contador de histórias. A caridade-pilar. Os casamentos brancos.
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Ana V.
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Thursday, February 28, 2008
de mastodonte a gota
"Aí vai a dona da pensão: um mastodonte. Acaba de sair por baixo da minha janela, carregada de gorduras e de lutos, e calculo que de boca aberta para desafogar o seu trémulo coração. Atravessa a rua perseguindo a criada-criança, como é hábito. Entra no café: mal cabe na porta. Tem cabecinha de pássaro, dorso de montanha. E seios, seios e mais seios, espalhados pelo ventre, pelo cachaço, pelas nádegas. Inclusivamente, os braços são seios atravessados por dois ossos tenríssimos. «Jesus, o que são as coisas», queixa-se ela a todo o momento.
Com um corpo assim não podia deixar de ser uma criatura sofredora, maternal. Vemo-la sentada, formiga-mestra duma hospedaria de caçadores: toda ela transborda generosidade. Chegamo-nos mais: verificamos que está erigida sobre uma fina camada de cheiro à flor do soalho, o modesto cheiro a sabão amarelo, e começamos a perceber uma música gentil lá no alto - a sua voz. Escutemo-la sem pressas, é o som duma alma sensível e resignada. E não faltarão pequenas delicadezas, pequenas gotas de orvalho, a brindar quem se abeirou dela. Ainda há pouco, quando me veio apresentar os cumprimentos, teve de me trazer a Monografia aqui presente:
«Espera, da outra vez o senhos escritor lia muito este livro, e pode ser que ainda lhe interesse. Deixe-mo levar, disse eu. E aqui tem, se faz favor.»
Agradeci. Era um gesto, como se vê, uma pequenina gota de orvalho destilada de um corpo volumoso e paciente."
em O Delfim
José Cardoso Pires
Passando em velocidade pelas mulheres nas páginas de Cardoso Pires. Fiquei fascinada pelo olhar de quem escreve. Longe, mais perto, mais perto até a trespassar, vendo-lhe as entranhas. Assim se olha quando se olha mais fundo, a gentileza do escritor.
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Wednesday, February 27, 2008
Cecília
O Lavagante de José Cardoso Pires é mais do que um tratato sobre o homem-lavagante, sobre o regime. É acima de tudo uma boa chamada à memória dos tempos passados, em que a liberdade, ou a falta dela, obrigavam os homens - e mulheres - a venderem a alma, cada um vendendo o que tinha para viver. Pela nota do editor se percebe que este texto foi escrito antes de 1963 e que era supostamente o primeiro capítulo de um romance. Isso não se deixa perceber numa história que parece completa, a de Cecília. Um texto nada mais do que muito, mas muito singular.
"- (...) Sabes o que é uma mulher que se olha ao espelho?
Aceno que sim, julgo que sei. Recapitulando, no dicionário de Daniel. Mulher Que Se Olha Ao Espelho é toda aquela que está permanentemente diante de si mesma; o pavor do ridículo característico desta espécie origina, por via de regra, uma incapacidade de se entregar cujas consequências são por vezes dolorosas. A Mulher Que Se Olha Ao Espelho preza-se demasiado (ama-se, é o termo) para conseguir deixar de se estudar nas circunstâncias mais adversas e procura compensar as suas quebras de autoridade com uma crítica impiedosa das situações absurdas. Dixit."
O Lavagante
José Cardoso Pires
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