light gazing, ışığa bakmak

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Monday, May 27, 2013

mulheres portuguesas

em Um Homem Não Chora, o protagonista farta-se de chorar por não conseguir o divórcio da mulher que chora por não querer o divórcio. não sei, genuinamente, quem lia o livro de Sttau Monteiro, se homens ou mulheres, mas a verdade é que me choca sem fim o nível de humilhação sofrido pelas mulheres dos anos sessenta em Portugal. aquilo tudo é podre, Bolor sem dúvida: homens inúteis com pena de si próprios, mulheres maltratadas com o assentimento de todos os poderes mais altos. Kemal tratar a sua amada como uma figura de mausoléu é, ao pé disto, água de rosas.




Sunday, May 26, 2013

não misture línguas, p.f.

"Eu, feito homem da gravata às riscas – «As you wish».
O senhor pomposo – Peço-lhe o especial favor de se não usar de palavras estrangeiras. Considero tal hábito pernicioso, inútil e, acima de tudo, antipatriótico. Uma pessoa esclarecida como Vossa Excelência deve auxiliar-me nesta minha campanha em favor do aportuguesamento da língua.
Eu, feito homem da gravata às riscas – «If you say so.»
Sttau Monteiro em Um Homem Não Chora, tal como Abelaira em torno do casamento, antes da revolução de Abril. se Abelaira é sensível, Sttau Monteiro é uma verdadeira besta, barulhento, do contra e a partir tudo à sua passagem, refiro o uso da língua, naturalmente. na verdade, este herói desconchavado lembra-me muito alguém que conheço bem. ler sobre nós próprios e ver como chegámos aqui é expor publicamente um segredo privado.

Saturday, May 25, 2013

flowers from the holy land

essa relíquia. em Bolor, diz Abelaira-Humberto sobre o relógio:

"– Para o teu relógio. Pergunto-me se te fica bem.
– Julgas que não. [ah mas quantas vezes já ouvi este estou bonita]
Um objecto standardizado, construído peça a peça por mãos alheias que nunca se apertaram umas nas outras, igual a milhares de outros neste momento cobrindo milhares de pulsos (diferentes). Como posso então triunfar nesta arqueologia insensata de reconstituir quem és? Quem somos todos nós neste mundo onde nada foi feito por nós – nós, os homens vulgares?"

standardizado o relógio, standardizada também a relíquia do monte das oliveiras.


Bolor

ler o Abelaira e ver o último filme de Fernando Lopes deixam um pouco da mesma sensação de ter sido aquela a altura em que tudo mudou, um súbito encontrão no percurso que ofereceu a liberdade de hoje. ser livre para estar só, para ser ou para ir onde se quer. (se não gostas de estar só, não gostas de ti, quem disse. eu sei bem quem disse).

vi o Abelaira em geral como um homem sensível, talvez delicado. agora acrescento indeciso. com Bolor entra-se no interior de muitos apartamentos lisboetas de há vinte anos, os tais que cresciam em Benfica, talvez nas avenidas novas, cujos habitantes estão hoje sós (sabiam lá eles), muitos deles em lares da santa casa a serem limpos e lavados por perfeitos desconhecidos que, se tiverem sorte, se lembram que foram gente de substância, com carreiras, casamentos que pareciam bem e as dúvidas que tiveram e o convívio com a censura, os cafés de lisboa onde os amigos bebiam as cervejas e conspiravam mas pouco seriamente contra o regime. eram mais piadas do que acção (acção só os pobres ou os muito ricos, n'est ce pas).

também me faz sentir contente de não estar em nenhuma daquelas constrições, de não ter de imaginar o que o outro esconde e fazer novelos e ocupar o espírito com isso, e ter pesadelos e pensar como seria se não fosse assim e pôr tudo em causa. tinham-se casado para sempre mas naquele tempo já os cônjuges estavam destinados ao fracasso, e não o sabiam.

nos livros com várias mãos, como este que me chegou aos olhos depois de outros o terem lido, gosto de descobrir os seus objectos. neste Abelaira encontrei um postal de Albufeira no seu início, anos oitenta, e uma relíquia de Jerusalém sobre a qual secou uma planta e logo imagino que foi uma mulher, quem sabe sofrendo o mesmo que a Maria do Rosário das páginas a perguntar ao marido, advogado, se ainda pensa nela (havia sempre uma ela). quando re-leio, diz Pamuk, há uma multidão: o leitor que foi, o autor, as personagens e o leitor que é nesse momento (e gosta dessa multidão). assim eu gosto da leitora que sou, do autor, das personagens, da leitora que num livro de Abelaira colocou um souvenir de Jerusalém, uma flor de oliveira de Gethsemani e um postal que se esqueceu de enviar. a quem o enviaria e o que diria. têm sido umas férias agradabilíssimas, tenho aproveitado para ler--


 
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