o melhor conto que li até agora na Granta 2, se alguém percebe cuba, parece que essa pessoa é Raquel. e escreve também.
(está bem exagero no perceber, mas escreve, e sem maneirismos de amador. a carreira jornalística deve ser decisiva nesse modo de escrita. por outro lado, e talvez por causa dessa carreira jornalística, um estilo de 'contar história' em que não chegam a surgir personagens que são figuras quase sem nome e sem substância. podia comparar este conto a outro, o genial "A Rose for Emily", mas que comparação, seria injusto, não?)
talvez no romance editado este mês haja mais espaço para as personagens.
light gazing, ışığa bakmak
Saturday, November 30, 2013
Raquel Ribeiro
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Wednesday, October 16, 2013
'Servindo o chá', Hélia Correia
é o conto de Hélia Correia na Granta Portugal em que, desta vez, se submetem os textos ao subtítulo ou temática 'Poder'. não sei se a literatura submetida ao poder é grande ideia, ou a literatura submetida a qualquer outro programa. (as curadorias e encomendas de arte alteram a arte e de que forma? ou, Banksy seria Banksy por encomenda?) no oposto: Rushdie a dizer que a literatura deve substituir o comunismo como contra-poder do capitalismo e penso que é mais neste campo que muitos autores e editores se colocam, usando a literatura como campo de batalha política o que, digo, não gosto. (se reading with a purpose é entediante, writing with a purpose é demasiado desviante. mais vale escrever receitas).
quando leio o (diria "beautifully crafted") conto 'Servindo o Chá', suspiro de alívio por ter escapado por pouco àquela geração. foi por um triz que tive direito à liberdade. muitas mulheres optam pela cedência por quotas dessa liberdade, pelo aluguer, pela venda ou hipoteca, mas essa é a sua opção. podem guardá-la e não capitalizar nem ganhar juros, mas vivê-la. o conto é, pelo seu contexto, profundamente deprimente. talvez seja mais fácil escrever sobre uma personagem deprimente do que sobre alguém feliz (não é, Lobo Antunes?) mas mesmo assim: eu era capaz de gostar mais.
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Monday, October 14, 2013
flash fiction
na folha de estudo vinham vários géneros literários que era preciso 'saber'. um deles era flash fiction, definido como prosa com menos de trinta linhas (seria isto?). deliciosa, a escola; neste caso, the innocence of definitions. terei de quebrar essa inocência, numa tarde destas, e revelar a dura realidade sobre as definições. são um pouco como deus - man made, arbitrárias e que vão sendo 'actualizadas', vulgo inventadas, conforme o contexto do momento.
comecei a ler José Gardeazabal na Granta 2 (e que título! - 'Várias versões de uma catástrofe'), um autor que desconhecia. lembrei-me logo do flash fiction e do non sense do presente cujo mestre e imperador absoluto é Rui Manuel Amaral. será que este non sense, bisneto do surrealismo, será o seguidor na linha da história literária do realismo mágico? o género começa a ser comum e a espalhar-se pelas massas. (ou talvez seja porque produzir este tipo de texto parece fácil, inocência..)
"I could look at her from the corner of my eye and deduce with remarkable accuracy what was happening on television (...)", Pamuk na p. 297 do Museum of Innocence, a Shirin dos sonhos: esta a diferença, entre o concentrado de significado que revela o não-sentido da vida, e o mergulhar na própria vida, ficar submerso, não respirar senão determinada personagem que se fez mais duradoura do que a própria vida.
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Saturday, October 12, 2013
'I grew up kissing books and bread.'
uma frase que, à partida, conquista logo a minha atenção e simpatia. é a abertura de 'Is Nothing Sacred?' de Salman Rushdie, um dos textos traduzidos para a Granta Portugal #2 que, em geral, me parece melhor do que a primeira.
"Joyce's wanderers, Beckett's tramps, Gogol's tricksters, Bulgakov's devils, Bellow's high-energy meditations on the stifling of the soul by the triumphs of materialism; these, and many more, are what we have instead of prophets and suffering saints. But while the novel answers our need for wonderment and understanding, it brings us harsh and unpalatable news as well."
bem capaz de fazer entrar Rushdie no lugar dos a ler, agora no caminho do rising sun. (all in all, um intervalo terá de ser feito para Munro, no futuro, e para Nina, num futuro muito próximo).
aqui, 'Is Nothing Sacred?'
aqui, o livro todo.
(ou talvez não)
este artigo foi escrito no final dos anos noventa, como o mundo mudou entretanto... há demasiadas coisas com as quais não posso concordar. algumas foram provadas erradas entretanto, outras porque o autor simplesmente verga a realidade para caber dentro dos seus argumento. fé e não fé, o moderno como o homem de não-fé, com o que não concordo de todo. embora para mim não exista fé em nada, talvez no poder de atracção entre os corpos celestes ou na perfeição e equilíbrio do mundo animal, mas de resto, mon ami, nada vezes nada - embora esse vazio, existem os outros para quem o religioso existe, deus, os deuses, os corpos celestes, as almas, os espíritos, as vozes do mundo, os suspiros das divindades aladas, o sopro da terra, a magia das luz e dos cometas e por aí fora. e não são menos modernos por isso. já foi tempo da exclusão, já foi tempo da supremacia branca, da superioridade moral, da relevância intelectual e artística. enfrentemos os factos: o mundo já não nos pertence.
como aqui: mas não! o rapaz vence porque o seu coração é novo e puro, porque precisamente acredita na normalidade, no senso comum, na amizade e nos valores que ganhou no continente americano: simples, da terra (assim se liga e compreende o 'selvagem' que carrega crâneos) - contra o velho obsessivo, o velho mundo, o vício, a visão viciada, a mania. (longe de Conrad, o coração da verdade não está nas trevas -não era da banalidade do mal que se falava? é ver Billy Budd onde o bem e o mal se confrontam: pode uma alma pura ser levada para as trevas?)
"Moby Dick enfrenta esse desafio ao oferecer-nos uma visão negra, quase maniqueísta, de um universo (O Pequod) nas garras de um demónio, Ahab, e encaminhando-se inexoravelmente para outro: a Baleia. O mar sempre foi o nosso Outro, manifestando-se ante nós sob a forma de monstros - o dragão Uróboro, o polvo Kraken, o Leviatã. Herman Melville mergulha nessas águas escuras para nos oferecer uma parábola extremamente moderna: o capitão Ahab, possuído pelo seu fascínio, morre; Ismael, um homem destituído de sentimentos fortes e de crenças absolutas, sobrevive. O homem moderno centrado em si é o único sobrevivente; os que adoram a baleia - uma vez que a perseguição é uma forma de adoração - morrem pela baleia."
diz Rushdie em "Is Nothing Sacred?"
[não tinha reparado: hoje foi 13.10.13. e está quase a acabar.]
um pouco à frente, aqui onde Rushdie acertou para falhar logo a seguir:
"Parece provável, também, que nos estejamos a dirigir para um mundo no qual não haverá alternativa real ao modelo social liberal-capitalista (excepto, talvez, o modelo teocrático, fundacionalista, do Islão). Neste contexto, o capitalismo liberal, ou democracia, ou mundo livre, exigirá a mais rigorosa atenção, exigirá como nunca antes a capacidade de re-imaginar, questionar e duvidar. «O nosso adversário é o nosso adjuvante,» disse Edmund Burke, e se a democracia já não tem a ajuda do comunismo para clarificar, por oposição, as suas ideias, então talvez tenha de encontrar na literatura, em substituição, um adversário." (Rushdie)
a literatura como substituição do comunismo, céus.
o problema de julgar que o futuro é um lugar pequeno.
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Thursday, October 10, 2013
granta #2
fartei-me de me queixar da Granta Portugal por ser um franchise, mas também é verdade que estou feliz por saber que o projecto que era de um ano passou a ser até um dia e por tê-la recebido hoje, com uma oferta (premonitória para mim) logo pela manhã- o dia vai ser bom.
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Tuesday, September 10, 2013
Anton Frost
Countryside
the center of the universe
is far away
and my heart
is a countryside of roots.
the moon is a bread-crumb
as the sky
turns to nothing.
i can hear the drumming
of water falling
onto rock,
i hear something
like a pulse
in the open cupboard.
my head
is a closed space.
it is an
occupied shell.
remembering
is like
watching a woman
from a distance
walking both toward me
and away from me.
it occurs
it is hard
to remember.
between days
and only sometimes
we remember we
have
more than
just memories.
my cupboards are empty
shells, repeating
the pulse of my ears.
my heart
is a diorama
of a universe
that is all center.
it is your silhouette;
it is me trying to decide
if you're walking toward me
or away from me.
- -
rainy
alone in my mouth
a bruised plum of light
something that i am
hangs on
like a drop of water
on a thin branch
that’s black with rain
it reminds me there is a bell
crashing
like you breathe
like you wouldn’t believe
the rain is a blue plate
of peas
somewhere in space
where the earth once was
my mother’s voice
floats says
you sit there
until it’s finished
peas like drops of rain
gleaming and tight
alone in my mouth
i wait out the pouring
i lean out
with my wet face
it smiles
so i smile too
the rain is riding the river
like it’s a horse
i want to be the rain so bad
the river
the horse it could be
i could be
instead i stand all alone under my awning
like the tongue of a bell
overhead a window
gets shoved open
the sun is still shining
someone says
their own mouth
bruised
too
- -
table window
when she turns
away
i swap our straws
and drink.
- -
Anton Frost, um dos poetas no número 2 da The Istanbul Review (o que a Granta Portugal poderia ser mas não é, independente).
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8:49 AM
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Sunday, July 21, 2013
Samarcanda:
and.
acabada a Granta, um franchise português de uma revista britânica que tinha, até agora que decidiu tornar-se marca, um passado respeitável. a versão portuguesa faz aquilo que se espera dela: um inédito de um autor português importante, Pessoa (benditos inéditos que se adaptam assim à necessidade de novidade dos mercados), dois grandes autores publicados na Granta inglesa, Pamuk [em ansiedade de separação] e Bellow, e Simon Gray e Kapuściński. uma série de portugueses de hoje (gostei de Afonso Cruz e fiquei a pensar que Walter Hugo Mãe afinal até podia escrever) e uma tradicional, Hélia Correia. as imagens de Blaufuks dificilmente serão ultrapassadas. --valeu a pena, ainda assim, espero o número dois (Tu?). onde é que estava o Eu? muitas das narrativas são auto-biográficas, se bem que 'uma bíblia capaz de cruzar sem inibições o novo testamento do jornalismo com o antigo testamento da literatura' é um programa que me desagrada profundamente. até porque bíblia há só uma e porque a literatura não é a versão antiga de nada. mas fica o balanço e este é positivo. long live.
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9:02 PM
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TAGS Afonso Cruz, Amin Maalouf, Calvino, Fernando Pessoa, Granta Portugal, Orhan Pamuk, Ryszard Kapuściński, Saul Bellow, T.S. Eliot
aforismos
inéditos de Fernando Pessoa na Eu da Granta.
- - -
Sê plural como o universo!
Duvido, portanto penso.
- -
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africanos
"Mas o bar dança. Não faz diferença que toda a gente esteja sentada. Olhem para os pés deles, para os ombros, para as mãos. Pode-se falar, discutir e namorar, negociar, ler a Bíblia ou passar pelas brasas. O corpo dança sempre. A barriga ondula, a cabeça oscila - todo o bar balança assim pela noite dentro."
Ryszard Kapuściński no Eu da Granta.
gostei de falar com o J. sobre Moçambique e os moçambicanos. foi bonito mas não quero falar mais sobre isso, fica comigo para sempre.
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8:25 PM
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história
o que é a história, o que não pode ser a história, o de deve ser a história, o que é a história.
"Folheei uma vez um livro de história belga - redigido para as escolas congolesas - escrito de tal forma que podia levar-nos a pensar que a Bélgica era o único país do mundo. O único."
Ryszard Kapuściński no Eu da Granta portuguesa.
(por falar em história, estas comunicações semanais ao país de seja quem for sempre dão um sopro de entrada de dinheiros em caixa às televisões que nos matam de tédio com meia hora de anúncios cretinos. entre esta meia hora e a meia hora dos comunicados venha o diabo e escolha.)
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Thursday, July 18, 2013
Rachel Cusk, grandes equívocos
ainda na Granta, a ler Rachel Cusk de quem gostei à primeira vista [um mais para Afonso Cruz e para a nudez de Walter Hugo Mãe]. depois googlando um pouco sobre Rachel apanho com tablóides, escândalos, culpas e divórcio e penso que pena. a tradução de António Costa Santos deve ser excelente, não dei por ela.
--
ainda Rachel Cusk e umas páginas à frente do início do pequeno texto, uma tirada inqualificável sobre as feministas, cheia de rancor aos seus próprios pais e de auto-elogios. que grande equívoco considerar esta Rachel uma bright ou seja o que for young novelist. ainda pensei que seria no estilo rude, tipo trainspotting, que criou gerações de seguidores e copistas, mas nem isso. ("Um homem feminista é um bocado como um vegetariano: só defende o princípio humanitário, acho eu.") com deus e os anjos, uma frase destas deveria dar em castigo, orelhas de burro ou qualquer outra coisa arcaica desse tipo.
é fácil reconhecer um enorme escritor: ler a primeira página do conto de Saul Bellow. (o modelo Granta pode ser uma bela marca, ou seja, uma boa oportunidade de negócio, mas é origem de grandes equívocos. especialmente para quem lê inocentemente, acreditando na bondade da escolha de quem escolhe: eles escolheram, devem ser todos bons do mesmo modo.)
"- Gott meiner - disse a minha mãe ao meu pai.
- Outra vez sem dinheiro? Mas dei-te doze dólares na início da semana. O que lhes fizeste?
- Não sei. Foi-se.
- Tão depressa? Mas ainda é quinta-feira... Impossível.
- Não pude evitá-lo. Utilizei parte do dinheiro para pagar dívidas antigas. Devemos dinheiro ao Herskivitz há não sei quanto tempo.
- Mas tinhas de lhe pagar nesta semana?
- Ele mora mesmo aqui no bairro. Há dois meses que venho para casa à volta, pelo caminho mais longo. Dei-lhe três dólares.
- Como é que pudeste fazer isso! Não tens juízo nenhum? E o que fizeste com o resto? Joshua - disse ele, voltando-se furiosamente para mim, - pega num lápis e escreve isto. Tenho de saber onde foi parar o dinheiro. Comprei ovos e manteiga na terça-feira.
- Setenta e cinco cêntimos para o leiteiro - disse a minha mãe, séria e atemorizada. Era evidente que ela acreditava ter feito alguma coisa de errado."
Saul Bellow em "Memórias do Filho de um Contrabandista".
ou "Memoirs of a Bootlegger's Son", inédito publicado na Granta em 1992. saiu agora uma biografia de Bellow pelo seu filho, mas a coisa é tão diferente. (ou no tag milking the dead cow)
- -
nem é a propósito disto, mas parece que o pecado mortal greed, a ganância, conquistou o mundo, não é.
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Wednesday, July 17, 2013
que Afonso Cruz me perdoe,
mas como é que eu podia passar sem citar este 'Jazz, Rosas e Andorinhas', especialmente esta: Isso não se faz com a literatura nem com a pintura. Uma pessoa não consegue fazer os corpos mexer com os girassóis de Van Gogh. tinha uma citação semelhante, por oposição, de Pamuk. a música, um elemento estranho na relação da ekphrasis. de certo modo, reflete o que senti ao ler guiões de ópera que eu, palavrodependente, queria coleccionar. colecção errada.
também gostei do 'nenhum tem a capacidade de o fazer como o senhor'. pois não.
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Sunday, July 7, 2013
Thursday, July 4, 2013
'Words, Pictures, Objects'
I can't event start to express the pleasure I got out of reading the chapter 'Words, Pictures, Objects'. e não sei se o podia ter lido em qualquer outro ponto da vida, o que torna a leitura um pouco incómoda: quem sou eu, aqui, (ou, quem somos nós, aqui, pois eu é sempre nós, um eu sem significado) neste momento, depois de ver e ouvir e saber tudo isto, depois de Morsi ter caído com novo golpe de estado, depois de um arrufo de quatro milhões, depois de ter vivido sob t.s. eliot muito tempo, depois de sebald, depois da obra quase completa deste autor, depois de muitas outras conclusões que não são para aqui chamadas, depois de ashbery e do escudo de aquiles, depois do incrivelmente poético black elk speaks, depois da p.i. ter ido embora, depois de brit bass, depois do prado, depois dos sons da praia de eastbourne, depois de morrer saramago, depois de alexandra, depois de afonso cruz, etc.
para o mal dos direitos da cópia, terei de o trazer para aqui. este final que sei que não o é, mas o iniciar de outra coisa, ou um desvio grande.
esta é a cara de Anna Karenina que foi pintada dez anos depois da publicação do livro.
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Wednesday, June 19, 2013
janela
depois de fazerem amor, Ka vai à janela e fica a olhar para fora, a ver a neve cair.
“What are you thinking?” asked I˙pek.
“I’m thinking about my mother,” said Ka, at first not knowing why he said this, for though she had just died, his mother was actually far from his thoughts. Later, returning to this moment, he would explain it by saying,
“My mother was on my mind throughout my visit to Kars.”
“So what are you remembering about your mother?”
“I am remembering how we were standing at the window one winter night, looking out at the snow, and she ran her hands through my hair.”
Pamuk em Snow.
- -
e andar por este autor como se andasse por uma cidade.
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Thursday, June 13, 2013
afonso cruz
(está aqui a faltar uma quote genial, mas fica para um pouco mais tarde)
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Friday, June 7, 2013
'don't save a prayer for me now'
é preciso ter a noção da dificuldade de ler qualquer outra coisa quando se lê uma das obras de Pamuk: a quantidade de planos diversos que se entrecruzam nas linhas aparentes é uma vertigem. encontro esta sofisticação de manipulação em Nabokov e perversidade é a palavra certa para descrever o processo. por outro lado, o que distingue Pamuk de Nabokov é a sua abertura total, colocar tudo no texto, todos as vírgulas da sua vida estão lá, mesmo aquelas de que não fala (a relação com as mulheres da sua vida, por exemplo), estão lá também e são visíveis. é provavelmente esta característica, bem como a mestria em manipular a realidade, na verdade em evocá-la (conjure) que torna difícil ler outros autores como injustamente tentei ler Rui Cardoso Martins. sempre pensei que é preciso escrever com o próprio sangue e é precisamente isso que não vi em 'Espelho da Água', agora que dormi sobre o assunto. o que me dá alguma curiosidade em relação ao conto de Dulce Cardoso pois parece-me, embora não a tenha lido, que o seu sucesso é precisamente esse. mas isto são congeminações, mais nada.
tal como imaginei, o capítulo 8 entra em velocidade cruzeiro: o capítulo seguinte não baixa o ritmo e apresenta outra magnífica personagem, mas em técnica hearsay, através da descrição de alguém (espelhos pois todas as palavras são ponto de vista de alguém): Saadettin é descrito por Ipek que é ouvida por Ka que é escrito pelo narrador, ou seja, nesta descrição há quatro personalidades simultâneas e todas são ouvidas claramente. por outro lado, este artifício cria enormes expectativas em relação à "realidade", ou seja, o Sheik ele mesmo visto por Ka descrito pelo narrador.
- -
a carta, ou introdução:
“Ka, my dear son:
“If you’d prefer me not to call you my son, I offer my sincere apologies. Last night I saw you in my dreams. It was snowing in my dream, and every snowflake that fell to the earth shone with divine radiance [meu itálico, para o que me parece ser o tema de Snow]. I asked myself if it was a sign, and then this afternoon I saw outside the same snow I’d seen in my dream falling right in front of my window. You walked past our humble home, number 18 Baytarhane Street. Our esteemed friend Muhtar, whom God Almighty has just subjected to a severe test, has explained to me the meaning you take from this snow. We are travelers on the same road. I am waiting for you, sir.
“Signed: Saadettin Cevher”
continuação:
“Listen. Go to our esteemed sheikh at once. He counts as a very important person here, much more important than you think; many people in this city go to see him, even people who regard themselves as seculars, lots of army officers. It’s even said the governor’s wife goes there, and lots of rich people, lots of soldiers. He’s on the side of the state. When he said that the covered girls in the university should take off their head scarves, the Prosperity Party didn’t make a peep. In a place like Kars, when a man this powerful invites you over, you don’t turn him down.”
“Was it you who sent poor Muhtar to see him?”
“Are you worried that the sheikh will discover a God-fearing part of you and send you scurrying back into the fold?”
“I’m very happy right now, I have no need for religion,” said Ka.
“And anyway, that’s not what brought me back to Turkey. Only one thing could have brought me back: your love. . . . Are we going to get married?”
I˙pek sat down on the edge of the bed. “Come on, go,” she said. She gave Ka a warm and bewitching smile. “But be careful, too. There’s no one better at finding the weak point in your soul, and like a genie he’ll work his way inside you.”
“What will he do to me?”
“He’ll speak to you, and then all of a sudden he’ll throw himself on the floor. He’ll take some ordinary thing you said and say how wise it is; he’ll insist you’re a real man. Some people even think he’s making fun of them at this point! But that’s His Excellency’s special gift. He does it so convincingly you end up believing that he really thinks what you’ve said is wise and that he believes as you do with all his heart. He acts as if there is something great inside you. After a while, you begin to see this inner beauty too, and because you have never before sensed the beauty within you, you think it must be the presence of God, and this makes you happy. In other words, the world becomes a beautiful place when you’re near this man. And you’ll love our esteemed sheikh because he’s brought you to this happiness. All the while, another voice is whispering inside you that this is all a game the sheikh is playing and you are a miserable idiot. But as far as I could figure out from what Muhtar told me, it seems you no longer have the strength to be that miserable idiot. You’re so
wretchedly unhappy that all you want is for God to save you. Now, your mind—which knows nothing of your soul’s desires—objects a little but not enough; you embark on the road the sheikh has shown you because it is the only road in the world that will let you stand on your own two feet. Sheikh Efendi’s greatest gift is to make the wretch sitting before him feel special, even more as one with the universe than His Excellency himself. To most men in Kars this feels like a miracle, for they know only too well that no one else in Turkey could be as wretched, poor, and unsuccessful as they. So you come to believe, first in the sheikh and then in the longforgotten teachings of your Islamic faith. Contrary to what they think in Germany and to the pronouncements of secularist intellectuals, this is not a bad thing. You can become like everyone else, you can become one with the people, and, even if it’s only for a little while, you can escape from unhappiness.”
“I’m not unhappy,” said Ka.
“In fact, someone that unhappy is not unhappy at all. Even the most miserable people have hidden consolations and hopes they secretly embrace. It’s not like Istanbul; there are no mocking nonbelievers. Things are simpler here.”
Pamuk em Snow.
- -
(escrever com o próprio sangue é uma imagem que induz em erro. Cardoso Pires não escreve eu muitas vezes, como na Valsa Lenta, mas toda a sua existência está presente em cada palavra. não há outro modo, há autores que lhe chamam honestidade na escrita e penso que esse qualificador é correcto. Rui Manuel Amaral não escreve eu jamais e a sua realidade não é a realidade - o meu mundo não é deste mundo - mas também ele faz isso: cada palavra é ele próprio e não julgo que pudesse ser mais ninguém.)
também há que dizer que enquanto Ipek fala de sua excelência o sheik, Ka está a tentar levá-la para a cama, a ler-lhe o seu poema e a perguntar dez vezes se o seu poema é bonito. em resumo, um fantástico auto-retrato.
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Thursday, June 6, 2013
'Espelho da Água'
de Rui Cardoso Martins, um dos contos na Granta portuguesa. um autor que eu não conhecia, o que não me admira nada pois leio poucos autores portugueses -ou outros - contemporâneos (não me apetece perder tempo a escolher coisas, neste caso prefiro-as já escolhidas). um pouco de montanha russa: algumas frases excelentes, algumas frases que ouvi em outros lados, algumas frases um pouco gastas. no início pensei que a história ia para o fantástico, mas depois começa um desfile de misérias de meter medo. não há gente feliz nos cacilheiros? finalmente, algumas frases bonitas, como: Os carros zumbiram ao longe no tabuleiro da ponte, vamos pegar ao serviço voando por Lisboa.
(e aqui também)
por outro lado as ondas e o rio sem ondas da primeira frase ficaram na primeira frase, com grande pena minha. é isto ou é aquilo?
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nem acredito (Granta Portugal)
depois de quase um mês (está bem, 3 semanas, inteiramente por culpa da minha afinidade tremenda com os números), abri finalmente a Granta. assim à primeira vista, gosto da arcoprint milk que para além do mais tem um nome que dá aso ao sonho, gosto das 85 gramas (qual é coisa qual é ela que pertence a dois géneros simultaneamente?), tem Pamuk no número Eu, o que é não só um bom presságio como também apropriado, uma das fotos de Blaufuks é uma romã, adoro as ilustrações de Vera Tavares.
Pamuk: graças ao anjos, chamaram-lhe Gente Famosa e não 'celebridades'. é indicada a origem (granta 99) mas não a partir de que língua foi feita a tradução (pena). também podia ter sido dito que este é o conto 'To Look Out the Window' em Other Colors, mas pronto. as duas versões correspondem a dois tradutores.
o que me aborrece na Granta é o excesso de publicidade 'da moda' (também um pouco ser uma filial, paciência), mas quem os pode censurar?
ah sim, e também tem estas frases:
«Estás tão bronzeado, estiveste em Zakopane?»
Será que a imaginação polaca nunca conseguirá ir além de Zakopane?
(não vejo nada de mal com Zakopane, pelo contrário: continua na minha imaginação polaca)
(e tenho agora o tag Granta)
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Ana V.
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