light gazing, ışığa bakmak

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Thursday, February 12, 2015

daqui a umas horas


um entre muitos:
Vergílio Ferreira, não sei onde, daqui.

Sintra é o mais belo adeus da Europa quando enfim encontra o mar. Camões o soube quando os seus navegadores a fixaram como a última memória da terra, antes de não verem mais que “mar e céu”. E no entanto, ou por isso, o espaço que ela nos abre não é o da infinitude mas o do que a limita a um envolvimento de repouso. Alguém a trouxe de um paraíso perdido ou de uma ilha dos amores para uma serenidade de amar. Ela é assim o refúgio de nós próprios e de todo o excesso que nos agride ou ameaça. O sagrado dos seus bosques de frescura e de sombra não se nos interioriza como o espaço de uma catedral, mas exterioriza-se-nos em acalmia de uma mitologia pagã. As ninfas que habitaram estes bosques, deixaram, ao abandoná-los, a memória física de um prazer sensível. Sintra é o único local do país em que a História se fez jardim. Porque toda a sua legenda converge para aí e os seus próprios monumentos falam menos do passado do que de um eterno presente de verdura. E a memória do que foi mesmo em tragédia desvanece-se no ar ou reverdece numa hera de um muro antigo. Em Sintra não se morre - passa-se vivo para o outro lado. Porque a morte é impossível no vigor da beleza. E a memória do que passou fica nela para colaborar. Eu disse que as ninfas abandonaram estes bosques. Mas não é de todo improvável que voltemos a encontrá-las. Como todas as divindades pagãs que nasceram para perdurarem no eterno da sua juventude. O aviso de Dante para abandonarmos as esperanças às portas do Inferno, inverteria aqui o sentido para se entrar no Paraíso. E não precisaríamos de uma Beatriz para no-lo iluminar, porque estaria invisível no visível de outra beleza. O que deixamos à porta é o excesso do que nos oprime e convulsiona e incendeia as noites de insónia. O que deixamos à poria é justamente o Inferno. Possível é assim que a olhos já cristianizados, nós encontremos neste bosque deleitoso medievo os seus anjos mensageiros, educadores da Justiça, Fortaleza e outras virtudes que lá fora nos faltam. «Porque a vida do ermo, solitária e apartada, é vida angelical, mas a vida da cidade é ruído do interno» Não será possível sabê-lo no fresco repouso da sua sombra?
Porque é no silêncio repousado que a meditação tem melhor voz de se ouvir. Mas o inferno insiste em voltar sob a forma do trânsito e do ruído. E com eles a poluição dos ares deste verdadeiro locus amoenus de que variamente nos fala a literatura medieval latina. Até quando?
A vilegiatura de Sintra manteve-se na suspensão de tudo quanto a perturbava, mesmo da mundanização imposta das praias. Porque a praia é uma invenção dos começos do século passado. A imagem dessa vilegiatura era a de um senhor composto num vestuário de rigor como o era das suas damas. Porque a frescura dos bosques era bastante para a canícula não ter razão e a reserva do corpo se cumprir.
Mas a praia desautorizou essa compostura e severidade. E Sintra, renovada no paganismo, é hoje um compromisso entre as ninfas discretas da solidão desses bosques e as nereidas da nudez solar. Não é possível pedir-se a prevalência de umas sobre as outras. Mas é de pedir ou desejar que a cidade a não invada com o desembaraço expeditivo de quando expulsa dela o paraíso para o inferno entrar. Que esse inferno passe de largo com a perda da esperança, para que ela e o mais aqui continuem. Porque, como numa mesquita ou em certas salas reservadas, há que deixar à porta o que de impureza arrastamos com os pés. Ou como num atelier, como Picasso dizia, é necessário deixar á entrada tudo o que seja perturbação para a arte se cumprir. Pagã ou cristã ou mesmo moura, Sintra tem o sagrado do outro lado da vida imediata e utilitária.
A convulsão apazigua-se, o ruído afoga-se no silêncio da floresta, o tempo abranda-se numa lentidão genesíaca. Um banco e uma sombra tranquiliza-nos do nosso excesso e é possível então ouvir em nós a voz que outras vozes ensurdeceram. Amar o seu silêncio, a frescura inicial da alma, a História e monumentos feitos elementos da Natureza. Amar a legenda sempre recente, a memória breve, a iniciação à alegria que não cansa.»
Louvar Sintra. Amar Sintra.
Louvar Amar

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as for Proust, here. awesome site.





de repente aqui. aqui. aqui. aqui. aqui. para além do normal e comezinho.


Wednesday, December 25, 2013

'Cartas a Sandra', Vergílio Ferreira

sobre o livro, mais aqui.
um admirável livro, acima de tudo. todas as cartas de amor em português são lidas através de Fernando Pessoa, não há modo de lhes escapar. mas Vergílio Ferreira consegue fazê-lo numa série de admiráveis cartas de um homem velho - o autor - à sua mulher morta. as cartas são introduzidas pela filha Xana que as encontra depois da morte do pai e que, segundo diz, as decide publicar. a última carta está por terminar pois o homem morre ao escrevê-la.

parto para o livro de olhos fechados, como gosto de partir para quase tudo. ao longo das várias cartas vejo nelas o autor que morre, a sua filha, a sua vida, as emoções privadas que apenas podem ser conhecidas depois da morte. um romance epistolar publicado no ano da morte do escritor e que aborda a morte literária ideal: escrevendo que se fez amor com a mulher da sua vida.

"Apertei-te a mão e tu apertas-te a minha e eu tive a evidência de que nada nos podia separar. Agora um estudante cantava uma balada - "morrer é passar um dia todo inteiro sem te ver". Como é triste pensá-lo. Sem te ver."

o livro veio da Galileu, este ano, de onde trouxe também Aparição. um dia irei a Gouveia ver o espólio do escritor. e sim, para além de sementes e árvores, também dei alguns livros.

(aliás a Galileu é um excelente ponto de visita, até de estudo, uma demonstração prática do que significa a palavra livraria)



Tuesday, March 26, 2013

typical quote

ou, uma frase que foi escrita para ser citada, a primeira frase de um ensaio 'On Reading':
"To carry a book in your pocket or in your bag, particularly in times of sadness, is to be in possession of another world, a world that can bring you happiness."

Pamuk em Other Colors.

place to be, gosto da falsidade da companhia do campo. este ano, as loja de decoração, todas elas, têm pássaros em almofadas. arranjei a minha quota-parte destes bichos que nem cantam nem largam dejectos na sala.

muito do que se pode dizer de Other Colors ou muito do que o livro contém são livros e mais livros, os próprios e os alheios. no capítulo 'How I got rid of some of my books' vejo essa relação conturbada com os objectos aparentes que são os livros, os complicados cálculos de cabeça a eles ligados, os modos de emprateleirar ou de empilhar ou de espalhar ou até de esconder. os livros como show-off e não apenas os livros dourados para decoração do salão, mas o show-off de conteúdos (já leste isto tudo? hmm... não, já li muitos). já fiz aquilo, já fui culpada daqueloutro. (e quando montei um cuidadíssimo cenário de livros e discos... uma piada privada que me fez rir quando a preparei e depois quando funcionou).

na limpeza em curso, os livros são uma derrota garantida: nada os vai impedir de estragar as simetrias da decoração moderna e também não vão estar colocados geometricamente em cima da mesa auxiliar da sala, como bibelots, com o vaso artificial de flores e os comandos dissimulados.

no quarto talvez precisasse de uma prateleira para os colocar, mas não posso garantir que não voltam  a encher tudo como uma maré negra (e ainda mais na imaginada prateleira): os meus e os dele. todos os Pamuk recentes e um futuro (o actual anda na mala para os fins acima explicitados), o recente Saramago e o primeiro, Clarabóia, o livro do Japão, um volume do Conta Corrente, um dicionário, as Malhas Portuguesas e Around the World in Knitted Socks. um dos Vargas Llosa que acabou por descer as escadas, os Intervalos do Cinema e a Teoria da Arte no século XX. um book of patterns que veio de Estrasburgo (não este mas parecido). e os dele. gardening for kids, 150 experiment for kids, shakespeare, einstein, da vinci da série horribly famous, the bomb, 100 receitas saudáveis, national geographic mag for kids, the owl keeper, uma aventura em viagem, goosebums most wanted, guiness gamer's edition. bolas, já pedia uma remodelação.

(costumava dizer que os cigarros, ao contrário das pessoas, nunca me deixavam só nem me causavam infelicidade. hoje que os substituí pelos livros, admito que esta foi uma decisão saudável e equilibrada. mas não sei até que ponto a sociabilidade do cigarro pode competir com o isolamento da literatura).



Friday, July 29, 2011

resultados práticos de limpar o pó

almocei com a segunda Conta Corrente da nova série.

 
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