light gazing, ışığa bakmak
Saturday, July 30, 2016
Wednesday, June 22, 2016
palavras vivas
"É justa a alegria dos lexicólogos e dos editores quando, ao som dos tambores e das trombetas da publicidade, aparecem a anunciar-nos a entrada de uns quantos milhares de palavras novas nos seus dicionários. Com o andar do tempo, a língua foi perdendo e ganhando, tornou-se, em cada dia que passou, simultaneamente mais rica e mais pobre: as palavras velhas, cansadas, fora de uso, resistiram mal à agitação frenética das palavras recém-chegadas, e acabaram por cair numa espécie de limbo onde ficam à espera da morte definitiva ou, na melhor hipótese, do toque da varinha mágica de um erudito obsessivo ou de um curioso ocasional, que lhe darão ainda um lampejo breve de vida, um suplemento de precária existência, uma derradeira esperança. O dicionário, imagem ordenada do mundo, constrói-se e desenvolve-se sobre palavras que viveram uma vida plena, que depois envelheceram e definharam, primeiro geradas, depois geradoras, como o foram os homens e as mulheres que as fizeram e de que iriam ser, por sua vez, e ao mesmo tempo, senhores e servos."
Saramago nos Cadernos de Lanzarote V.
um mestre da língua, um virtuoso, aquele que chega longe e facilmente ao que levo anos a aflorar. que saudades. e no entanto ouço-lhe a voz e os pensamentos, eu e as outras cabeças com as suas sentenças. quando encontrei o Mia Couto sem aviso, fiquei embatucada, só me ocorria dizer obrigada e era só isso, obrigada, obrigada. obrigada, Saramago. tenho o Cerco cheio de páginas dobradas, milhentas anotações mentais. como todos os livros tinham um cão. pus-me a pensar: os cães existiram? seria um, vários? pelo menos um foi e encontrei-o nos Cadernos. o cão de Saramago chamava-se Camões.
e outra: "A meia hora de travessia do canal de Robaina, que separa as duas ilhas, mostrou-me novamente quanto se ganha em quebrar uma vez por outra a rotina das manhãs domésticas: aquela luz ainda com vestígios da claridade auroral, o balanço largo das ondas que era como a respiração do mar, o vento rijo e constante que soprava do norte, dos vulcões de Lanzarote - ora impressões que recolhi profundamente, segundo a segundo, como se eu viesse, piloto e relojoeiro, a governar o tempo e o barco..."
na primeira pessoa, a deixar ver pelos seus olhos, sentir pela sua pele. esse sentimento tão particular que me transportou imediatamente para a cidade meu sonho, no início da noite, o ruído do motor e os estalos da água, as cores na ponte, o barco quase deserto no percurso karaköy üsküdar.~
pegar num arrepio e fazê-lo sentir a outro com meia dúzia de palavras.
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Tuesday, March 24, 2015
hoje o dia é do poeta (cupcake, oh cupcake)
e hoje não li, não houve tempo. Mia Couto é um dos finalistas do Man Booker Prize, não conheço nenhum dos outros.
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Ana V.
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2:48 PM
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Tuesday, November 25, 2014
obrigada, a.
ou porque aquele país nunca sairá dos meus sonhos.
um pouco ao encontro do livro que ando a devorar, Patasana, onde a "acção policial" se desenrola numa escavação perto de Gaziantep. (que bom Ühmit, um homem antes de autor na mesma prateleira de homens como Sepúlveda e Mia Couto, embora não tanto na escrita, dentro da ideia ainda viva da literatura mudando para melhor o mundo).
Seleucia, fundada 300 anos antes de Cristo por um dos generais de Alexandre o Grande (não exactamente pelos "gregos"). a escavação hitita que leio agora tem 1600 anos antes de Cristo. cada vez que erdogan constrói uma ponte, autoestrada ou barragem ou até o metro de Istanbul, as camadas de vidas que desenterra são a própria ilustração da existência humana. absolutamente fascinante.
de certo modo, nascemos deste rio, como Náiades saídas da água. (para ter uma ideia temporal, os fenícios - sírios e libaneses - fundaram Lisboa 1200 anos antes de Cristo como um entreposto marítimo. porque a água desta península é salgada.)
quanto a Seleucia-Zeugma, outra cidade do Eufrates.
the gipsy girl, da wiki.
(e cá como lá mas lá para muito pior: a política de construção de barragens como forma de poder, de escravidão, de manipulação, de soberania.)
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Ana V.
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2:07 PM
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Sunday, December 22, 2013
o piloto moçambicano
propositadamente despenhou o seu avião nos pântanos da Namíbia. se isto não é um romance de Mia Couto, não sei o que será.
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Sunday, July 7, 2013
couldn't help it:
the Istanbul dining experience:
enquanto uma pequena manifestação pró-Morsi decorria noutro local sem embaraços. isto podia ser excepcional, um acontecimento fora da norma, mas não é. as convulsões internas fazem parte do desenrolar histórico desta zona do mundo. os europeus bem intencionados que querem, ou queriam, a integração da turquia no clube europeu sofrem do mesmo engano que os benevolentes dadores a África, como muito já escreveu Mia Couto sobre esse assunto. o paternalismo europeu, a fonte dos colonialismos, mantém-se e continuará ainda. no entanto, o terceiro mundo ganhou inesperadamente voz e o primeiro mundo (a que pertencemos tem dias) ganhou a possibilidade de ir lá e ver com os próprios olhos. no outro dia abri o livro da quarta classe à venda na Vida Portuguesa, com as ideias que imbuíram a geração dos meus pais. bom e mau, bom e mau, a moral e o proper, com a devida inspiração vitoriana. vamos domesticar estes vagabundos, disse o senhor da cadeira, que quis converter à sacristia a vagabundagem portuguesa.
e agora a sério: istanbul eats. eat local, em reacção à proliferação de shoppings e grandes superfícies, os autores do blog istanbul eats defendem a manutenção dos pequenos restaurantes locais e divulgam-nos. de um país que consegue lutar simultaneamente em dois sentidos, ou seja, lutar pela liberdade democrática da modernidade, e lutar pela manutenção dos locais históricos e da tradição, uma lição que poderíamos aproveitar (a defesa dos velhos, a defesa dos antigos e a resistência por todos os meios à razia que foram os 23 por cento na restauração. abaixo a pizza, fora o hamburguer, viva a sardinhada)
cohabitação: uma dificuldade.
(testing oggl)
estes miúdos podiam escrever uma carta dos direitos humanos. eles lembram-nos muita coisa.
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Thursday, May 30, 2013
uma nota de Luis Sepúlveda
via fb
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Monday, May 27, 2013
parabéns,
Mia Couto, the golden hearted.
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9:20 PM
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Friday, October 26, 2012
Idades, Cidades, Divindades (2)
um livro que no wook(?) ou outro custa uns 3 euros, noutros sítios está esgotado. na minha própria prateleira esgotou-se, ou debaixo de maior volume ou em empréstimo esquecido. afinal a minha prateleira dois tem quase tudo o que preciso (a não ser que precise de europeus fora do circuito ou livros para dobrar). e li outra vez.
aqui, Peixes, poetas a dizer o mesmo de diferentes modos.
Peixes
Com violência
estilhaçou o aquário.
Os peixes
pratearam desesperos pelo mármore.
Como as palavras
de um obrigatório poema de escola:
livres,
dispondo de todo o ar
e morrendo de asfixia.
e
Avesso Bíblico
No início,
já havia tudo.
Mas Deus era cego
e, perante tudo,
o que ele viu foi o Nada.
Deus tocou a água
e acreditou ter criado o oceano.
Tocou o chão
e pensou que a terra nascia sob os seus pés.
E quando a si mesmo se tocou
ele se achou o centro do Universo.
E se julgou divino.
Estava criado o Homem.
- - -
é muito curiosa a relação de Mia Couto com as letras portuguesas e das letras portuguesas com Mia Couto, é toda uma história novelada, um pouco como Saramago mas sem a comoção e sem Nobel. Mia Couto acaba por ser comprado em Portugal, seguido e lido em Portugal mas do que no seu próprio país onde ler e comprar livros é um pouco diferente. aqui o vemos como um emissário de África, uma África para onde se olha com saudade. por outro lado, Mia Couto é o campeão das mulheres no sentido americano do termo, o defensor (como a Leoa) e acaba por ter nelas um público fiel. os seus versos e citações não se encontram em blogues ou revistas de quem estabelece os trends literários e de opinião (os definidores de cool) mas em blogues cor-de rosa com pores-do-sol em fundo rosa. não é muito justa esta contingência. por outro lado, a sociedade não se limita a ascéticos, por um lado, e princesismos, por outro.
O urbano visita a savana
Olhou a paisagem
e seus infinitos.
Depois de inspirar fundo,
perguntou:
- A imagem está óptima,
Mas, não tem legendas?
- - -
Sono Coloquial
Da velhice
Sempre invejei
o adormecer
no meio da conversa.
Esse descer de pálpebra
não é idade nem cansaço.
Fazer da palavra um embalo
é o mais puro e apurado
senso da poesia.
---
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Ana V.
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10:39 AM
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Thursday, June 14, 2012
entre
estou entre felinos, ou melhor, felinas: entre a leoa do Mia Couto (afinal uma história que funde os tais factos reais com as histórias das pesquisas antropológicas do escritor, com a defesa da mulher, com uma nova ironia e auto-referência). talvez pela dor de dentes feroz que me acompanhou nos três capítulos finais, não os achei muito claros. talvez preferisse que não tivesse existido uma Luzilia, não sei bem. dizia: entre a leoa de Mia Couto e a felina de Sepúlveda, esta última num oposto divertido: se Mia Couto fosse a sobremesa, Sepúlveda seria o arroz de lampreia. delicadeza-brutalidade.
um como o outro: contadores de histórias.
"No momento não entendi. Mas depois Luzilia explica: na língua de Manila o termo Kusungabanga significa "fechar à faca". Antes de imigrar para trabalhar há homens que costuram a vagina da mulher com agulha e linha. Muitas mulheres contraem infecções. No caso de Martina Baleiro, essa infecção foi fatal."
Mia Couto n'A Confissão da Leoa.
para ver aqui também. está bem, aqui não foi assim tão doce. assim é a violência de Mia Couto: uma violência escondida em palavras doces.
- - -
"Os textos de história pareceram-lhe um chorrilho de mentiras. Era lá possível que aqueles senhorecos pálidos, de luvas até aos cotovelos e apertados calções de saltimbancos, fossem capazes de ganhar batalhas. Bastava vê-los de caracolinhos de cabelo bem cuidados, agitados pelo vento, para perceber que aqueles tipos não eram capazes de matar uma mosca. De tal maneira que os episódios históricos foram desprezados pelos seus gostos de leitor."
Luis Sepúlveda em O Velho que Lia Romances de Amor.
senhorecos e caracolinhos. não deixa de ter piada para quem não se deixa enganar por faixas e bandeiras. até porque, finalmente e depois de tudo dito, a primeira frase continua a ser muito verdadeira. a história tem tantas mentiras como o corpo tem água.
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Ana V.
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Wednesday, June 13, 2012
'A Confissão da Leoa', Mia Couto
já não lia Mia Couto há muito, desde que tentei traduzir os seus textos jornalísticos para inglês, no princípio dos blogues. muito mudou no panorama. já há Mias "lá fora", embora talvez não tanto como devia haver (é sempre pouco). penso que bastante se deve ao tradutor David Brookshaw. nunca li uma tradução, mas ainda hei-de espreitar alguma, especialmente os primeiros livros, aqueles que sempre achei intraduzíveis.
dou por grandes diferenças na escrita - menos bruxuleante; nas história - menos desviantes e com maior estrutura, uma estrutura que mostra ter sido pensada antes e em que não há muitos caminhos secundários (diria: mais firme) e, acima de tudo, uma novidade bem-vinda: a ironia.
para quem consiga ultrapassar o rendilhado e as cores sem sombra de África, nos antípodas do minimalismo; para quem lê sem sentimentalismo, Mia Couto é agora uma maior referência do que era há quinze anos. ele existe num país ressuscitado, numa transversal ao passado, entre-línguas e entre histórias nacionais, fazendo reviver o presente do mato, mas existente por ser já um futuro: o escritor que pertence a várias nações e que atravessa culturas. é muito interessante.
entretanto, passeamos pela explosão de máximas que é (era) em parte base ou substituto do conhecimento escolar. estas mesmas máximas que o escritor usa para brincar e que Jenny Holzer ironiza, projectando-as (sem sentido) em fachadas de prédios e outras construções.
o mundo construído sobre uma estacaria de máximas só pode ser um mundo de opostos: bem e mal, pobre e rico, caçado e caçador, fora e dentro, vivo e morto. o mundo de Mia Couto é este mundo dos opostos que convivem, aqui não há meias realidades nem gradação de cinzentos, o que para mim foi tão estrangeiro como ler Toni Morrison.
- - -
"O homem vê o cacimbo; a mulher vê a chuva. Provébio de Kulumani."
"Todas as manhãs a gazela acorda sabendo que tem de correr mais veloz que o leão ou será morta. Todas as manhãs o leão acorda sabendo que tem de correr mais rápido que a gazela ou morrerá de fome. Não importa se és um leão ou uma gazela: quando o Sol desponta o melhor é começares a correr. Provérbio africano."
"Só há um modo de escapar de um lugar: é sairmos de nós. Só há um modo de sairmos de nós: é amarmos alguém. Excerto roubado aos cadernos do escritor."
Mia Couto em A Confissão da Leoa.
(até porque sabemos que nada é assim: tudo é possível, tudo se mistura, tudo é incerto)
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Monday, June 11, 2012
beijo
A recepcionista do jornal é uma mulher gorda, arrastada na voz e nos gestos. Parece ter nascido assim, sentada, o traseiro semelhando um astro em competição com a Terra.
- Venho saber do resultado do concurso.
Agito o recorte do anúncio frente à vidraça. A voz flautada da recepcionista foi feita para se esgueirar pelas frestas do vidro quebrado:
- O senhor é o próprio caçador?
- Eu sou o último caçador. E esta é a minha última caçada.
A funcionária olha o tecto como um astrónomo contempla o céu ao meio-dia. Abre à minha frente um envelope enquanto volto a falar, eufórico, certamente para adiar o momento da revelação:
- Não sei por que publicaram o anúncio. Já não há mais caçadores. Há quem ande por aí aos tiros. Esses não são caçadores. São matadores, todos eles. E eu sou o único caçador que resta.
- Arcanjo Baleiro? É esse o seu nome?
Sou o único que resta, repito sem responder à pergunta. E prossigo o meu delirante discurso. Não tarda, afirmo, que não sobrem animais. Porque esses falsos caçadores não poupam nem crias nem fêmeas grávidas, não respeitam os períodos de defeso, invadem os parques e as reservas. Gente poderosa fornece-lhes as armas e tudo, para esses matadores, se resume à sagrada trilogia: arma, dinheiro, poder.
- É tudo carne, é tudo nhama - suspiro, em desânimo.
Só então regresso aos olhos mortiços da mulher gorda que aguarda o final do meu arrazoado.
- O seu nome é Arcanjo Baleiro? Pois o senhor vai poder caçar à vontade, foi você que ganhou o concurso.
- Posso entrar no seu gabinete? Quero dar-lhe um beijo.
Com inesperada ligeireza, a mulher ergue-se sobre o balcão e espera de olhos fechados, como se o meu beijo fosse o único prémio de toda a sua vida.
- - -
Mia Couto em grande forma n'A Confissão da Leoa.
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Saturday, June 9, 2012
mesmo assim,
e apesar de uma pequena caixa de cerejas do Fundão com a marca momentos vodafone oferecida por uma rapariga que me apanhou à socapa enquanto o rapaz por detrás dela me fotografava (as relações agora são assim: à socapa. a Vodafone a fotografar-me à socapa enquanto me põe uma cereja debaixo do nariz; a polícia que apanha os veículos à socapa enfiada numa berma alta enquanto - pelas costas - fotografa as matrículas)
- mesmo assim, precisava de me adoçar. entrei, não sem culpa, na fnac: café cheio, caderno sem linhas e o último de Mia Couto (voz morna, canja, leite-creme por arrefecer) que começa: "Deus já foi mulher".
nas listas de melhores primeiras linhas, está aqui um concorrente.
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Friday, September 11, 2009
Jesusalém
acabei Jesusalém e fiquei destruída, parece que saí de um acidente. uma história triste e ansiosa que li na pressa de saber o fim, armadilhas bem montadas e ratoeiras, uma história convulsionada entre mulheres e o desejo delas. a impressão do início foi confirmada, eram páginas perfeitas demais para resistirem ao tempo da história. por mim, teria ficado na primeira parte, sem que a intrusa chegasse nunca. Cláudia e o que a ela diz respeito foi a parte que não gostei de todo, talvez porque me parece um cliché. as cartas e os escritos, estava capaz de apostar que as letras do miúdo eram tão melhores, até pelo universo do baralho de cartas, imagens assombrosas. tudo o que diz respeito ao universo fechado está feito e acabado sem esforço. é com a portuguesa branca que a coisa se enreda e perde a luz. da segunda parte retirava o sonho de Mwanito, um tratado de qualquer coisa a que talvez chamasse África.
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Thursday, August 27, 2009
lembrei-me,
de repente, de juntar a cruz de Jesusalém e a Avenida Tiradentes, ali em baixo, e que vejo como uma crucificação. imagem interessantíssima no Museu de Belas Artes de Bruxelas. lá me colou uma boa meia hora.
- Um dia, Deus nos virá pedir desculpa."
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Monday, August 3, 2009
o homem ilha
O que está escrito entre "Na verdade, não nasci em Jesusalém. " na página 21 e "emboscada de bicho" na página 23 de Jesusalém, Mia Couto, é tão perfeito que tive vontade de fechar o livro e não ler mais nada. ainda por cima numa dia em que comprei o silêncio a alto preço.
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Tuesday, June 16, 2009
tudo é e não é
"Bem abaixo das colinas de ondas verdes,
onde o sol se refrata em agulhas frias,
descem todas as sereias dos mares e dos rios,
irreais e lentas , como espectros de vidro,"
"If poetry is liberated from its preoccupation with the relationship between word and referent, acknowledging that much of human knowledge is encoded in modes other than words, we are suddenly free to address a whole new range of subjects, and to address them in novel ways." (daqui)
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Thursday, June 26, 2008
nem acredito
os meus dois favoritos juntos e falhei.
Saramago apresenta prosa «límpida, quase transparente» de Mia Couto
Uma prosa «límpida, quase transparente», onde a naturalidade dos encontros chega a ser sedutora, preenche, segundo José Saramago, as páginas da mais recente obra de Mia Couto, Venenos de Deus, Remédios do Diabo, hoje apresentada em Lisboa.
Escrito num «assalto pelo sentimento do tempo», como o próprio moçambicano descreve, o romance conta a história de um jovem médico português que parte para Vila Cacimba, em Moçambique, em busca de uma mulata por quem se apaixonou sob a «luz branca» de Lisboa.
Em terras africanas, o médico depara-se com mistérios e histórias nunca contadas e acaba por partir numa viagem de palavras e reflexões sobre o próprio sentido da vida, durante a qual se confronta com o pensamento de que «somos donos do tempo apenas quando o tempo se esquece de nós».
Durante a apresentação da obra, numa livraria da capital, Mia Couto explicou que o tempo - ou a falta dele - era um assunto que precisava e ainda precisa de resolver mas que, não sendo «resolvível», tem de ser transformado em história, em poesia, em «não assunto».
«O estilo a que geralmente um escritor é associado pode ser também uma prisão e pensei que me apetecia desfazer essa amarra. Apetecia-me não saber como escrever, então mergulhei no vazio», conta o escritor, que assinou já cerca de vinte títulos, entre romances, contos, poesia e crónicas.
Mia Couto tentou mas José Saramago garante que não conseguiu.
Para o Nobel, não existem diferenças significativas no estilo de «Venenos de Deus, Remédios do Diabo» e dos restantes livros do seu amigo e «camarada de trabalho», o que acaba por ser uma sorte para quem, como ele, admira todo o percurso do escritor moçambicano.
«Acho que ele fez o mesmo - e isso parece-me uma virtude - contando outra história», afirmou Saramago.
«Estou a gostar do livro, a gostar muito. Tem uma prosa límpida, quase transparente. Encanta-me e quase me seduz a forma como o Mia desenvolve situações que envolvem encontros. É tudo tão natural», descreveu.
José Saramago referiu que Mia Couto foi um dos escritores que melhor soube reagir às mudanças trazidas pelo 25 de Abril, respondendo com uma enorme «liberdade criativa» às dúvidas que então surgiram entre os autores, habituados a enfrentar a censura.
Do Sol, aqui.
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Wednesday, June 18, 2008
tristeza
não fosses tu, não fosse o José Mário Silva do Bibliotecário de Babel, e lá tinha eu falhado esta entrevista no DN. Dia 11.Jun.2008.
. . .
Sobre "Venenos de Deus Remédios do Diabo"
Mia Couto a Isabel Lucas, aqui no DN
"Os meus livros eram um pouco aborrecentes, muito ramificados e eu tinha dificuldade em lidar com personagens novos. Algum me batia à porta e eu deixava entrar toda a gente", ri. Mia Couto ri disso, dessa indisciplina que quer domar, e sorri perante a tarefa que lhe deram. Assinar livros enquanto fala. "Como se pudesse! "Sou o melhor vivo do que se costuma dizer: um homem, ao contrário das mulheres, é incapaz de fazer duas coisas ao mesmo tempo." E ri outra vez. Por isso o escritor fala e os livros ficam lá, no caixote.
O mote é o seu 23.º romance, um livro sobre o tempo - o passar do tempo - e a capacidade de mentir, o jogo de mentiras, o encenar para poder existir. E é também sobre a morte e o amor numa terra imaginária, Vila Cacimba, lugar que "só existe por via da mentira", onde quem chega também mente; metáfora de outra cacimba que ora revela ora adensa mistérios e mentiras e enigmas à volta de uma família. "Há mais coisas a descobrir numa família do que numa vista a Marte", diz Mia Couto citando de cor o autor israelita Amos Oz. "Este livro fala sobre a quantidade de segredos que pode ser desvendada a partir desta incursão no universo familiar. Qualquer que seja a família, esconde sempre segredos", afirma o escritor no seu falar devagar, pausado, quase sussurro como quando diz que só há pouco começou a sentir que o tempo passa.
Por isso, este é um livro pessoal. "Pela primeira vez dei-me conta da idade que tenho."
Foi aos 50 anos, na mesma altura em que lhe aconteceu ser avô. É assim que a angústia perante o tempo e a morte de Bartolomeu Sozinho, o velho da narrativa, que tal como Mia não que está a morrer e tão depressa se quer salvar como deseja ser entregue à morte, também é a sua, a de Mia. "De repente tropecei numa coisa que nunca existiu para mim: o tempo. Sempre me senti sem idade e um bocadinho irresponsável em relação a essa coisa de ter de prestar contas aos dias. Eu estava velho. Tinha a idade daqueles a quem chamava velhos na minha adolescência e perguntava, "porque é que isto me acontece a mim, logo a mim, ter 50 anos? Eu, tão novo!"
E é por isto que este livro está cheio de tempo. No drama, na ironia com que ri do trágico - "nas s culturas africanas é preciso não levar muito a sério as coisas pesadas, por se acreditar que isso atrai maus espíritos; há uma atitude de superstição em levar muito a peito o que é trágico" -, na duração de uma mentira, no tecer dos mistérios que compõem uma vida.
Mia Couto tem 50 anos. E sobre o homem de 50 anos escreve: "aos 50 pensamos com suficiente sabedoria já não ter ideias." Acontece-lhe? "Penso um bocado assim. A sabedoria passa por se ter sentimentos, sensibilidades. Sobrevalorizamos aquilo que chamamos a ideia, como se fosse a capacidade de pensar e de produzir abstracções e sobretudo a capacidade de produzir revelações do mundo, como se as coisas se pudessem reduzir a isso. Acho que há coisas que são intraduzíveis. Pensar com o corpo inteiro, pensar com o coração e não e pensar que o cérebro é uma espécie de mecanismo de reflexão total. De vez em quando temos uma sintonia por via da intuição, por via de uma coisa que não sei se tem nome e se calhar é mais interessante do que a hegemonia do pensamento."
Se há coisas que não lhe apetece levar muito a sério, essa é uma, numa altura em que quer libertar-se de um início de carreira que durou mais de vinte romances. Quis que este fosse diferente, "de outra maneira já não me apetece escrever mais".
E foi diferente até na criação. Sem dor, sem o magoar dos anteriores, mas com a mesma tristeza. Não é angústia, não é solidão, porque sente as personagens como companheiros, com a força de serem companhia... Hesita. Talvez haja solidão, mas não a sente como peso. "Desde miúdo diziam que eu era muito apto e tendente para a solidão. Os meus pais e os meus amigos queriam tirar-me daquilo e eu estava tão bem assim. E a tristeza também. A tristeza é o meu território, mas a tristeza nunca me derrotou. Acho que há uma janela para as coisas nessa condição de triste. Hoje temos medo desse sentimento, como se fosse uma doença."
E nesses momentos tristes é possível rir, soltar uma gargalhada. "Só produzo em estado de tristeza, mesmo que esteja a produzir ironia. Os da minha casa entendem bem isso e protegem-me nessa tristeza como se fosse um estado de graça. "Deixa-o lá estar triste mais um bocadinho." É como se fosse um sono; como se ali houvesse uma porta para sonhar e chegar a uma espécie de intimidade com coisas a que não se chega de outra maneira."
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Ana V.
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TAGS Biblioteca de Babel, Mia Couto

