light gazing, ışığa bakmak
Friday, May 15, 2015
aniversário
por enquanto é aproveitar a oportunidade de trabalhar a todas as waking hours. que se continue assim até que os projectos se realizem, desviar o curso do futuro. e nos intervalos ler algo breve e que serve para limpar os olhos, Tabucchi, o autor dos meus intervalos, a que regresso com a Mulher de Porto Pim.
que melhor limpa os olhos apenas duas coisas, o reflexo luminoso do Bósforo e o plano quente alentejano.
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Ana V.
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Sunday, July 27, 2014
"Memory and desire, stirring"...
"O guarda-livros Faldini tem cara de quem toda a vida escreveu cartas para países distantes a olhar para uma paisagem de gruas e contentores pela janela." Tabucchi em O fio do horizonte.
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Saturday, July 26, 2014
fio do horizonte
"O fio do horizonte, de facto, é um lugar geométrico, porque se desloca à medida que nós nos deslocamos."
Tabucchi em O Fio do Horizonte.
(nice book)
os tipos do independent disseram que o livro está mal escrito. os tipos da amazon fizeram copy paste do artigo da independent e puseram como editorial review ou coisa que o valha. é o "mercado livreiro". é assim lá e cá a mesma coisa. desde que seja mercado e desde que seja livreiro, a coisa é a mesma.
o fio do horizonte é uma espécie de canterbury tale, a sucessão de personagens passa pelo leitor como uma sequência de peregrinos (da vida). o final é a dissolução tal como o nosso final é a dissolução do esquecimento. no entretanto lida-se com as sensações e com noções difusas de personalidade, noções de memória. um pequeno mas grande livro que li de uma vez durante a tarde.
e muitos momentos memoráveis.
..."como aquele odor acre e ligeiramente desagradável com que ficam alguns quartos depois de lá ter dormido alguém."
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Ana V.
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10:59 PM
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Thursday, October 10, 2013
Petros Koublis (silence) ou outra nota para a Trienal
"The area that surrounds Athens is composed by a certain antithesis, as the vast urban surface meets with the countryside.
Surrounded by the silence of centenarian olive groves, meadows, mountains and seas, the city today struggles to carry the weight of its own existence, facing a rather tough and tense present. This is a prolonged silence that seems to surround the loud and desperate cry that comes out of the capital city.
With more than 4 million people living today in Athens’ metropolitan area, the city itself is a controversial image on its own, sketched by the difficult palpable reality that everyday an increasing number of people have to face. It is a depression that gradually influences every aspect of life, economically and psychologically, in quite a dramatic and absolute way, as the consequences of this crisis are extending and the agony for tomorrow is constantly growing. Around the world, images of graphic violence, extensive riots and distressing poverty have been transmitted by the media, enhancing the depressed portrait of the city. The center of Athens has been the main scenery of the crisis that this country is going through and the drama in the streets of the city provided a visual narrative for the Greek Crisis chronicles.
The images of this project were made around the outskirts of Athens, less than 30 miles away from the heart of the capital. It is the area that surrounds the depressed city and all the millions of its citizens’ individual stories. Outside the invisible borders of the extended metropolitan area, in the land that lies behind the edge of the city, time seems to move parallel but in a different density. There is an inevitable contrast between the two states, a parable manifested by the discreet mystery that trees seem to hide among their branches and seas among their waves. This is an alternate state in parallel time, where silence seems to carry inside it a waiting, patiently whispering a long forgotten language.
There is no beauty that is timeless but the timelessness of nature can reflect a new direction, maybe even a hope.
It’s not a blissful silence but it’s an inspiring one."
texto que acompanha a exposição In Landscape de Petros Koublis e que interessa compara com a de Azade Köker, duas cidades em países contíguos, um dentro e outro fora da 'comunidade europeia', um abismo político entre eles, um abismo de situação. se o que é imposto pelo poder aos cidadãos de um estado fosse facilmente visível, esta seria a janela de observação. apesar das diferenças geográficas que moldaram ambos os países, um que se extende pela longa Anatólia com as suas culturas particulares, outro que se espraia em ilhas ou sobe pelos balcãs (verde escuro): mas ambos comunhando tantos lugares e, no entanto, hoje, poderiam estar em ilhas opostas.
sobre a Grécia gostei de ler a comparação de Tabucchi: a Ítaca de Homero, a Ítaca de Cavafy, a Ítaca de Sophia. com Tabucchi, diria que estes são os únicos lonely planet que interessam.
em termos sonoros seria o silêncio grego contra o clamor turco. o despojamento vs. exuberância.
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Sunday, October 6, 2013
lisboa ('laundry hung in blue air')
(do blogue da PI)
LISBON
In the Alfama quarter the yellow tramcars sang on the steep slopes.
There were two prisons. One was for thieves.
They waved through the grilled windows.
They shouted that they wanted to be photographed.
´But here,´ said the conductor giggling like a split man
´here sit politicians.´ I saw the façade the façade the façade
and high up in a window a man
who stood with a telescope to his eye and looked out over the sea.
Laundry hung in blue air. The walls were hot.
The flies read microscopic letters.
Six years later I asked a woman from Lisbon:
´Is it true, or have I dreamt it?´
Tomas Tranströmer
in New collected poems, Bloodaxe
- -
também Tabucchi se perde em Lisboa:
"Mas, além de uma alucinação, o romance é também uma vagabundagem, uma errância através da cidade que não corresponde a nenhuma lógica topográfica.", sobre o seu romance Requiem.
lisboa, labirinto da saudade.
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Saturday, October 5, 2013
Molina (novel and reality)
"Usando personajes y fragmentos de historias de la realidad igual que Picasso usaba trozos de cartón o tornillos o tubos recogidos del suelo, la novela reivindica su naturaleza bastarda y de aluvión, celebra su empeño no tanto de retratar la vida como de convertirse en una parte de ella. Si el historiador narra atado escrupulosamente a los hechos y el biógrafo, como dice Michael Scammell, es un novelista bajo juramento, el novelista pocas veces disfruta más que cuando finge seriedad de historiador o cronista y comete perjurio, como el dibujante que se aprovecha de sus facultades para falsificar documentos." (daqui)
de certo modo um escritor sereno, tal como Tabucchi.
ainda do mesmo artigo:
"Las mejores novelas ensanchan la realidad: le añaden pormenores, provincias enteras que en seguida se nos vuelven imprescindibles. Cervantes lo sabía, y por eso hizo que cuando don Quijote llega en su vagabundeo a Cataluña se encuentre con un bandido tan real como Roque Guinart y vea desde la playa de Barcelona una escaramuza con barcos piratas berberiscos que había sido un hecho notorio para sus contemporáneos. Max Aub quiso que su Jusep Torres Campalans se cruzara con Picasso no sólo en las páginas de una novela que fingía ser una biografía sino en alguna de las fotos trucadas que la ilustraban. Daniel Defoe publicó Robinson Crusoe como la historia verdadera de un náufrago, y a Francisco Rico le gusta puntualizar que el autor del Lazarillo no es anónimo, sino apócrifo, porque la historia viene firmada por el propio Lázaro de Tormes."
claro que seria imprescindível acrescentar Pamuk e o seu museu dos objectos do romance - cada um deles equivale a uma sensação, cada sensação equivale a um momento do tempo aristotélico, essa a matemática do autor. um objecto, uma sensação.
para seguir: escrito en un instante, o blog dos leitores de Molina.
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9:13 AM
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Thursday, October 3, 2013
A Dialogue on Facts, Fiction, History
Pamuk / Eco
novels are about sensations, diz Pamuk. Hemingway is so good writing about sensation, about how it feels to drink a coffee, how it feels to wake up in the morning (...)
Eco dizia: eu nunca seria capaz de escrever uma história de amor, como Füsün, eu teria medo de mostrar alguma coisa privada. assim escrevo sobre nada. escritores que falam de si e de outros.
as Viagens de Tabucchi não são sobre lugares, são sobre escritores. ele não foi à descoberta de um sítio, em particular, mas da sensação de ser aquele escritor ali. outras viagens, as viagens de outros.
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silence
"O túmulo de Tanizaki é uma enorme pedra redonda assente sobre a terra nua. Quando ali estive o terreno estava coberto de folhas de ácer vermelhas e a pedra pareceu-me natural, ou seja, não trabalhada pela mão do homem, ainda que por vezes no Japão seja difícil (veja-se os bonsai) identificar à primeira vista o que é realmente natural daquilo a que a mão do homem deu a aparência de natural. Afastei as folhas à procura de inscrições ou de signos. Na pedra havia apenas um ideograma cinzelado e depois pintado. Copiei-o no meu caderno tentando ser o mais exacto possível e nessa noite mostrei-o ao empregado da recepção, que falava um inglês perfeito. «O que significa?», perguntei-lhe. «Silence,» respondeu-me. E depois, com um ligeiro sorriso, acrescentou: «Or "Nothing", Sir.»
Tabucchi em Viagens, Outras Viagens.
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Tuesday, October 1, 2013
axolotl
"There
was
a
time
when
I
thought
a
great
deal
about
the
axolotls.
I
went
to
see
them
in
the
aquarium
at
the
Jardin
des
Plantes,
and
stayed
for
hours
watching
them,
observing
their
immobility,
their
faint
movements.
Now
I
am
an
axolotl.", diz Cortázar no início do conto "Axolotl", para ler aqui. (ou aqui). Tabucchi viajou também no Jardin des Plantes, para ver o axolotl:
Tabucchi em Viagens e Outras Viagens.
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Valéry, 'Je m'abandonne à ce brillant espace', --'L'âme exposée aux torches du solstice,'
Le cimetière marin
Ce toit tranquille, où marchent des colombes,
Entre les pins palpite, entre les tombes;
Midi le juste y compose de feux
La mer, la mer, toujours recommencee
O récompense après une pensée
Qu'un long regard sur le calme des dieux!
Quel pur travail de fins éclairs consume
Maint diamant d'imperceptible écume,
Et quelle paix semble se concevoir!
Quand sur l'abîme un soleil se repose,
Ouvrages purs d'une éternelle cause,
Le temps scintille et le songe est savoir.
Stable trésor, temple simple à Minerve,
Masse de calme, et visible réserve,
Eau sourcilleuse, Oeil qui gardes en toi
Tant de sommeil sous une voile de flamme,
O mon silence! . . . Édifice dans l'ame,
Mais comble d'or aux mille tuiles, Toit!
Temple du Temps, qu'un seul soupir résume,
À ce point pur je monte et m'accoutume,
Tout entouré de mon regard marin;
Et comme aux dieux mon offrande suprême,
La scintillation sereine sème
Sur l'altitude un dédain souverain.
Comme le fruit se fond en jouissance,
Comme en délice il change son absence
Dans une bouche où sa forme se meurt,
Je hume ici ma future fumée,
Et le ciel chante à l'âme consumée
Le changement des rives en rumeur.
Beau ciel, vrai ciel, regarde-moi qui change!
Après tant d'orgueil, après tant d'étrange
Oisiveté, mais pleine de pouvoir,
Je m'abandonne à ce brillant espace,
Sur les maisons des morts mon ombre passe
Qui m'apprivoise à son frêle mouvoir.
L'âme exposée aux torches du solstice,
Je te soutiens, admirable justice
De la lumière aux armes sans pitié!
Je te tends pure à ta place première,
Regarde-toi! . . . Mais rendre la lumière
Suppose d'ombre une morne moitié.
O pour moi seul, à moi seul, en moi-même,
Auprès d'un coeur, aux sources du poème,
Entre le vide et l'événement pur,
J'attends l'écho de ma grandeur interne,
Amère, sombre, et sonore citerne,
Sonnant dans l'âme un creux toujours futur!
Sais-tu, fausse captive des feuillages,
Golfe mangeur de ces maigres grillages,
Sur mes yeux clos, secrets éblouissants,
Quel corps me traîne à sa fin paresseuse,
Quel front l'attire à cette terre osseuse?
Une étincelle y pense à mes absents.
Fermé, sacré, plein d'un feu sans matière,
Fragment terrestre offert à la lumière,
Ce lieu me plaît, dominé de flambeaux,
Composé d'or, de pierre et d'arbres sombres,
Où tant de marbre est tremblant sur tant d'ombres;
La mer fidèle y dort sur mes tombeaux!
Chienne splendide, écarte l'idolâtre!
Quand solitaire au sourire de pâtre,
Je pais longtemps, moutons mystérieux,
Le blanc troupeau de mes tranquilles tombes,
Éloignes-en les prudentes colombes,
Les songes vains, les anges curieux!
Ici venu, l'avenir est paresse.
L'insecte net gratte la sécheresse;
Tout est brûlé, défait, reçu dans l'air
A je ne sais quelle sévère essence . . .
La vie est vaste, étant ivre d'absence,
Et l'amertume est douce, et l'esprit clair.
Les morts cachés sont bien dans cette terre
Qui les réchauffe et sèche leur mystère.
Midi là-haut, Midi sans mouvement
En soi se pense et convient à soi-même
Tête complète et parfait diadème,
Je suis en toi le secret changement.
Tu n'as que moi pour contenir tes craintes!
Mes repentirs, mes doutes, mes contraintes
Sont le défaut de ton grand diamant! . . .
Mais dans leur nuit toute lourde de marbres,
Un peuple vague aux racines des arbres
A pris déjà ton parti lentement.
Ils ont fondu dans une absence épaisse,
L'argile rouge a bu la blanche espèce,
Le don de vivre a passé dans les fleurs!
Où sont des morts les phrases familières,
L'art personnel, les âmes singulières?
La larve file où se formaient les pleurs.
Les cris aigus des filles chatouillées,
Les yeux, les dents, les paupières mouillées,
Le sein charmant qui joue avec le feu,
Le sang qui brille aux lèvres qui se rendent,
Les derniers dons, les doigts qui les défendent,
Tout va sous terre et rentre dans le jeu!
Et vous, grande âme, espérez-vous un songe
Qui n'aura plus ces couleurs de mensonge
Qu'aux yeux de chair l'onde et l'or font ici?
Chanterez-vous quand serez vaporeuse?
Allez! Tout fuit! Ma présence est poreuse,
La sainte impatience meurt aussi!
Maigre immortalité noire et dorée,
Consolatrice affreusement laurée,
Qui de la mort fais un sein maternel,
Le beau mensonge et la pieuse ruse!
Qui ne connaît, et qui ne les refuse,
Ce crâne vide et ce rire éternel!
Pères profonds, têtes inhabitées,
Qui sous le poids de tant de pelletées,
Êtes la terre et confondez nos pas,
Le vrai rongeur, le ver irréfutable
N'est point pour vous qui dormez sous la table,
Il vit de vie, il ne me quitte pas!
Amour, peut-être, ou de moi-même haine?
Sa dent secrète est de moi si prochaine
Que tous les noms lui peuvent convenir!
Qu'importe! Il voit, il veut, il songe, il touche!
Ma chair lui plaît, et jusque sur ma couche,
À ce vivant je vis d'appartenir!
Zénon! Cruel Zénon! Zénon d'Êlée!
M'as-tu percé de cette flèche ailée
Qui vibre, vole, et qui ne vole pas!
Le son m'enfante et la flèche me tue!
Ah! le soleil . . . Quelle ombre de tortue
Pour l'âme, Achille immobile à grands pas!
Non, non! . . . Debout! Dans l'ère successive!
Brisez, mon corps, cette forme pensive!
Buvez, mon sein, la naissance du vent!
Une fraîcheur, de la mer exhalée,
Me rend mon âme . . . O puissance salée!
Courons à l'onde en rejaillir vivant.
Oui! grande mer de delires douée,
Peau de panthère et chlamyde trouée,
De mille et mille idoles du soleil,
Hydre absolue, ivre de ta chair bleue,
Qui te remords l'étincelante queue
Dans un tumulte au silence pareil
Le vent se lève! . . . il faut tenter de vivre!
L'air immense ouvre et referme mon livre,
La vague en poudre ose jaillir des rocs!
Envolez-vous, pages tout éblouies!
Rompez, vagues! Rompez d'eaux rejouies
Ce toit tranquille où picoraient des focs!
- -
Tabucchi em Sète para ler aqui, em português parte de Viagens e Outras Viagens.
foto da wiki.
O cemitério marítimo
Esse tecto tranquilo, onde andam pombas,
Palpita entre pinheiros, entre túmulos.
O meio-dia exacto nele incende
O mar, o mar recomeçando sempre.
Oh, recompensa, após um pensamento,
Um longo olhar sobre a calma dos deuses!
Que lavor puro de brilhos consome
Tanto diamante de indistinta espuma
E quanta paz parece conceber-se!
Quando repousa sobre o abismo um sol,
Límpidas obras de uma eterna causa
Fulge oTempo e o Sonho é sabedoria.
Tesouro estável, templo de Minerva,
Massa de calma e nítida reserva,
Água franzida, Olho que em ti escondes
Tanto de sono sob um véu de chama,
-Ó meu silêncio!... Um edifício na alma,
Cume dourado de mil, telhas, Tecto!
Templo do Templo, que um suspiro exprime,
Subo a este ponto puro e me acostumo,
Todo envolto por meu olhar marinho.
E como aos deuses dádiva suprema,
O resplendor solar sereno esparze
Na altitude um desprezo soberano.
Como em prazer o fruto se desfaz,
Como em delícia muda sua ausência
Na boca onde perece sua forma,
Aqui aspiro meu futuro fumo,
Quando o céu canta à alma consumida
A mudança das margens em rumor.
Belo céu, vero céu, vê como eu mudo!
Depois de tanto orgulho e tanta estranha
Ociosidade - cheia de poder -
Eu me abandono a esse brilhante espaço,
Por sobre as tumbas minha sombra passa
E a seu frágil mover-se me habitua.
A alma expondo-se às tochas do solstício,
Eu te afronto, magnífica justiça
Da luz, da luz armada sem piedade!
E te devolvo pura à tua origem:
Contempla-te!... Mas devolver a luz
Supõe de sombra outra metade morna.
Oh, para mim, somente a mim, em mim,
Junto ao peito, nas fontes do poema,
Entre o vazio e o puro acontecer,
De minha interna grandeza o eco espero,
Sombria, amarga e sonora cisterna
- Côncavo som, futuro, sempre, na alma.
Sabes tu, prisioneiro das folhagens,
Golfo roedor de tão finos gradis,
Claros segredos para os olhos cegos
Que corpo a um fim ocioso me compele,
Que fronte o atrai a tal rincão de ossadas?
Um lampejo aqui pensa em meus ausentes.
Sacro, encerrando um fogo sem matéria,
Pouca de terra oferecida à luz,
Prezo este sítio, que dominam tochas,
Composto de ouro, pedras e ciprestes,
Onde mármores tremem sobre sombras.
O mar lá dorme, fiel, sobre meus túmulos.
Cadela esplêndida, afugenta o idólatra!
Quando, sorriso de pastor, sozinho
Apascento carneiros misteriosos
- Branco rebanho de tranquilos túmulos -
Afasta dele as pombas temerosas
Os sonhos vãos, os anjos indiscretos.
Aqui vindo, o futuro é indolência.
Nítido inseto escarva a sequidão;
Tudo queimado está desfeito e no ar
Se perde em não sei que severa essência,
Faz-se a amargura doce e claro o espírito.
Os mortos estão bem, sob esta terra
Que os aquece e resseca seu mistério.
O meio-dia no alto, o meio-dia
Quedo se pensa em si e a si convém.
Fronte completa e límpido diadema,
Eu sou em ti recôndita mudança!
Eu, somente eu, contenho os teus temores!
Meus pesares, limitações e dúvidas
São a falha de teu grande diamante...
Em sua noite grávida de mármores,
Entanto, um povo errante entre as raízes
Tomou já teu partido, lentamente.
Dissolveu-se na mais espessa ausência;
Bebeu vermelho barro a branca espécie;
Passou às flores o dom de viver.
Dos mortos, onde as frases familiares,
A arte pessoal, as almas singulares?
Tece a larva onde lágrimas nasciam.
O riso agudo de afagadas jovens,
Olhos e dentes, pálpebras molhadas,
O seio ousado desafiando o fogo,
Sangue a brilhar nos lábios que se rendem,
Últímos dons e dedos que os defendem
- Tudo se enterra e ao jogo outra vez volta.
E tu, grande alma, acaso um sonho esperas,
Despido, então, das cores de mentira
Que a estes meus olhos a onda e o ouro mostram?
Cantarás, quando fores vaporosa?
Tudo flui! Porosa é minha presença;
A sagrada impaciência também morre.
Magra imortalidade negra e de ouro,
Consoladora com horror laureada,
Que seio maternal fazes da morte
- O belo engano, a astúcia mais piedosa!
Quem não conhece e quem não repudia
Esse crânio vazio, o riso eterno?
Pais profundos, cabeças desertadas,
Que sob o peso de tantas pàzadas
Terra sois, confundindo os nossos passos!
O verdadeiro verme, irrefutável,
Não para vós existe, sob a lousa
Ele de vida vive e não me deixa.
Amor, talvez? Talvez ódio a mim mesmo?
Seu dente oculto está de mim tão próximo
Que qualquer nome, acaso, lhe convém.
Que importa!... Ele vê, quer, sonha, ele toca:
Minha carne lhe agrada, e até no leito
Vivo de pertencer a este vivente.
Zenão, cruel! Zenão, Zenão de Eléia!
Feriste-me com tua flecha alada,
Que vibra, voa e que não voa nunca.
O som engendra-me e a flecha me mata!
O sol... Ah, que sombra de tartaruga
Para a alma, Aquiles quedo e tão ligeiro!
Não, não!... De pé! No instante sucessivo!
Rompe meu corpo, a forma pensativa!
Bebe meu seio, o vento que renasce!
Esta frescura a exalar-se do mar
A alma devolve-me... Ó, poder salgado!
Corramos à onda para reviver!
Sim, grande mar dotado de delírios,
Pele mosqueada, clâmide furada
Por incontáveis ídolos do sol,
Hidra absoluta, ébria de carne azul,
Que te mordes a fulgurante cauda
Num tumulto ao silêncio parecido,
Ergue-se o vento! Há que tentar viver!
O sopro imenso abre e fecha meu livro,
A vaga em pó saltar ousa das rochas!
Voai páginas claras, deslumbradas!
Rompei vagas, rompei contentes o
Tecto tranquilo, onde bicavam velas!
- -
em português um pouco do Brasil. esta tradução aqui penso ser bem melhor.
de Valéry para ler: Une Soirée avec Monsieur Teste.
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Monday, September 30, 2013
partir
"Muitas vezes imaginava partir. Via-me a subir para um daqueles comboios durante a noite, sorrateiramente... Levava comigo uma bagagem minúscula (...)"
"Releio estas viagens que de certo modo são a trama da Viagem que fiz até agora. Algumas suscitam-me alegria, outras nostalgia, e outras ainda saudade. Muitas trazem boas recordações: foram (continuam a ser na memória) viagens muitos belas. Mas talvez faltem as viagens mais extraordinárias. São as que não fiz, as que nunca poderei fazer. Ficam por escrever, ou encerradas no seu próprio alfabeto secreto debaixo das pálpebras, à noite. Depois chega o sono, e levantamos a âncora."
Tabucchi em Viagens e Outras Viagens.
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Sunday, July 28, 2013
orhan
desviciar-me de Pamuk tem sido difícil. continuo a desejar lê-lo e os dois livros que me separam do fim não são grande margem de segurança. não encontro outro que consiga colocar no seu lugar mas, de vez em quando, encontro refúgios amenos, os suaves braços de autores aos quais regresso como se voltasse à sala da casa onde fui criança. --tanta coisa para dizer que comprei tabucchi.
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Monday, September 3, 2012
baklava
"A baklava não é da Palestina, é do Iraque, replicou ele, desculpa, mas é do Iraque, isto sem ofensa. Do Iraque uma ova, respondeu o rapaz, essa é boa.", Tabucchi em O Tempo Envelhece Depressa. a minha foi do Quartier Latin por onde tinha passado mas sem tempo para a provar e onde voltei por ela. lá havia uns quadrados de pistácio que gostava de saber fazer, como os pequenos bolos de pinhão que me parecem tão parecidos com as pinhoadas do Alentejo. todos os doces do mediterrâneo sul. camadas da fina filo, frutos secos e mel, criada nas cozinhas imperiais do palácio Topkapi, em Istambul, a morada do sultão reinante. a maior cozinha do império otomano, em que 800 pessoas cozinhavam 4000 refeições, por vezes 6000, por vezes na preciosa loiça azul e branca chinesa, transportada pelo caminho da rota da seda.
parece-me que Candide é mais empolgante do que a maior parte dos livros que já li. o que coloca este problema: que pessoa se é quando se tira prazer daquele tipo de narrativa.
hoje lia o Candide como há anos atrás li a travessia de Aníbal, circunstâncias que tornam os livros inesquecíveis. tenho tomada a dose vitalícia de loucura a atravessar-me a porta. agora será só sensibilidade e bom senso.
havendo orçamento, retomo os almoços temáticos. o primeiro será em vénia ao laranja quente do Mohamed, por quem soube que a travessia Málaga - Melila custa trinta euros para pessoa só, 120 para um carro. prefiro Tarifa - Tânger onde, estou certa, encontraria muito mais do que uma baklava.
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Friday, August 31, 2012
Tabucchi
pela entrevista e pelos links-
Yo [Vila-Matas] he escrito toda la vida sobre Dama de Porto Pim, libro de cabecera y artefacto literario que en ocasiones contemplo como si fuera un Moby Dick en miniatura.
--
ali atrás andava às aranhas com isto: artefacto literário. era o que procurava, a profissão (sei que sei), como o-que-se-faz.
ah, Salinger.
(o conto é uma forma fechada, como o soneto em poesia. foi como teve início a literatura italiana, um pilar)
a literatura é feita de trabalho, de fadiga. é preciso estar ali numa página o dia inteiro..
(outros clips, num breve retrato)
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Thursday, August 30, 2012
lisboa
podia passar todo o conto. fica este pedaço-
"No empedrado do chão estava desenhada uma rosa-dos-ventos. Deteve-se sem saber que direcção tomar: o jardim botânico era grande e seria impossível encontrar aquilo que procurava antes da hora do encerramento. Escolheu o sul. Sempre demandara o sul em toda a sua vida, e ao chegar agora àquela cidade do Sul parecia-lhe acertado prosseguir na mesma direcção. Mas no seu íntimo sentia o sopro da tramontana. Pensou nos ventos da vida, porque ele há ventos que acompanham uma vida: o zéfiro suave, o vento quente da mocidade que o mistral se encarregará de temperar, certos ventos de sudoeste, o siroco que abate, o vento gélido da tramontana. Ar, pensou, a vida é feita de ar, um sopro e acabou-se, aliás nós não passamos de um sopro, respira-se, até ao dia em que a máquina pára e o sopro extingue-se. Parou, estava ofegante. Arranjaste uma bela pieira, disse de si para si. O caminho subia abruptamente até uns socalcos que se avistavam para lá das copas das magnólias gigantes. Sentou-se num banco e tirou do bolso um pequeno bloco. Era onde apontava os nomes dos lugares de origem das plantas que o rodeavam: Açores, Canárias, Brasil, Angola. Desenhou a lápis algumas folhas e algumas flores, e a seguir, servindo-se das duas páginas centrais do bloco, desenhou a flor de uma árvore com um nome muito estranho, proveniência Canárias-Açores. Era um gigante majestoso com folhas compridas e lanceoladas e umas flores enormes e carnudas agrupadas em ramificações que pareciam frutos. A idade daquele gigante era realmente notável, fez as contas: no tempo da Comuna de Paris já devia ser adulto.
Sentiu que tinha recobrado fôlego e dirigiu-se a passos rápidos para o fim do caminho. O sol bateu-lhe em cheio e encandeou-o. Estava muito calor, e no entanto a brisa que soprava do oceano era fresca. A parte sul do jardim botânico terminava num enorme terraço suspenso sobre a cidade, com uma vista panorâmica completa, o vale ocupado pelos bairros pobres numa rede apertada de ruas e travessas, e as casas, brancas, amarelas, azuis. Lá do alto enxergava-se todo o horizonte, e ao fundo, à direita, para lá das gruas do porto, abria-se o mar. O terraço era delimitado por um murete que lhe chegava à altura do peito e onde um painel de azulejos representava a cidade. Procurou decifrar-lhe a topografia a partir daquele desenho de risco ingénuo: o arco de triunfo da cidade baixa donde arrancavam as três artérias principais, com a arquitectura iluminista da reconstrução subsequente ao terramoto; o centro, com duas grandes praças encostadas uma à outra, à esquerda a rotunda com um pesado monumento de bronze, e depois, para norte, a zona nova, com uma arquitectura tipo anos cinquenta e sessenta. Porque vieste até aqui, disse para consigo, que procuras?"
Tabucchi em O Tempo Envelhece Depressa.
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Ana V.
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lê-se
difícil é libertar-me do que disse Pedro Mexia no Expresso sobre este Tabucchi - mover-se do espaço para o domínio do tempo. está bem, sim, é verdade, mas é preciso ler mais adiante. lê-se também que a memória da infância vive sempre presente; o não-vale-a-pena dos velhos; o já-sei-no-que-isso-vai-dar; a ternura pelas crianças; o lugar dos amores; o balanço e contas da profissão. vejo o que não consigo dizer de outro modo: o escritor quer dizer isto e di-lo exactamente. pela melancolia de observador, como Thomas Mann; pela liberdade tomada com a sintaxe, Lobo Antunes (mas menos); com a exactidão das palavras, Nabokov (mas muito menos).
(divertidamente) o NYT diz: "Ruminative, elegiac and mordantly funny, Mr. Tabucchi’s prose conjures a state between waking and dreaming. Its hallmarks include discontinuous chronology, in which fragments of narrative glint like shards of memory; the mutable identities of people and places; and the eminently reasonable presence of ghosts."
(já tinha dito que T. faz parte dos mais próximos do meu coração, coração dos olhos?)
para muitos Americanos, generalizamos, tudo o que seja aproximadamente latino deve caber no realismo mágico. só por nada. (pois sim)
"Lá vem a nau catrineta que tem muito que contar. E continuou: meteu-se-me na cabeça escrever um romance em grande, por assim dizer, aquele romance que mais cedo ou mais tarde todos aguardam, o editor, os críticos, porque, dizem eles, é certo que os contos são estupendos, e aqueles dois livros de divagações também, e o próprio diário falso é um texto de primeira grandeza, sem dúvida, mas o romance, um romance a sério, é para quando?, andam todos com a matação do romance a ponto de eu também andar, e para escreveres o romance que toda a gente exige de ti, que será a tua obra-prima, tens de compreender que é indispensável o ambiente certo..."
Tabucchi em O Tempo Envelhece Depressa.
sempre este 'todos'
matação fez-me parar o ritmo da frase mas a palavra do dia tem mesmo de ser esculhambem.
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Ana V.
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Sunday, August 26, 2012
Tabucchi
o livro deste verão está ainda por vir ou passou há tempo. o The Crying of Lot 49 não resistiu ao final da The Courier's Tragedy no interior da paisagem do sul da Califórnia com os seus variados modos de tortura e morte. a grande novela americana escapa-se, o sarcasmo com que se olha o mundo a partir de lá (muitas vezes mas absolutamente não sempre) escancara-se nos livros. daí um salto para o Lúcio de Mário de Sá Carneiro e as fantasias de sexualidade reprimida. catolicismo, talvez. Paris, sim, Paris era isso para muitos homens dos outros locais da Europa, agora o vejo. essa fantasia, pois pois, não é a minha, mas explica-me muita coisa.
em espera estão as palavras suaves de Tabucchi (a preço exorbitante, tentando, como é costume das editoras, espremer todos os euros possíveis da vaca morta). tal como os limões, esta compra foi de certo modo forçada. passando à frente:
"Um sorriso bonito num rosto viçoso de leite e de sangue, como ouvira em tempos dizer naquela terra, não em Genebra, talvez, mas em Lugano: leite e sangue. Que estranha mistura, ao ouvi-la pela primeira vez aquela expressão causara-lhe um efeito estranho, uma espécie de náusea, talvez porque tivesse imaginado um jarro de leite pingado de sangue."
Tabucchi em O Tempo Envelhece Depressa.
pelo jardim da memória.
hei-de ir a Lugano.
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Ana V.
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1:48 PM
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