as
long
as
we
want
e lá vem, pé ante pé, saber das últimas. sem janela de telejornais as últimas perdem-se um pouco. e quando te dizem que estás na mesma, que nada mudou, acreditas piamente para inglês ver. mas o futuro é curto e o passado a perder de vista. também podem nem estar aí. vamos contar o que há, realmente, como cada um vê verde ou azul. penso que o crescendo de números avança como as notas, em diferentes escalas. mas os números são mais fugidios e no princípio da sua linha ninguém marcou o fá ou o dó, porque ninguém vê o início, desperta-se in medias res. como mergulhaste numa água para ti muito azul e deslizaste morna durante horas e horas e como querias que nunca existisse a barra final. como o vento eléctrico no cabelo e a pedra morna sull'arco.
light gazing, ışığa bakmak
Saturday, November 15, 2008
quando tempo demora um círculo
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Ana V.
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Wednesday, October 8, 2008
a contar degraus desde 1982
ia sair para um curso sobre a consciência, perguntei-lhe o que era isso e, mais que tudo, pedi-lhe que me dissesse o que era depois de ter aprendido. contei mais um. falsa solidão, disse ele mudando de assunto. desde que disseste o primeiro a. se me recordasse da primeira letra, contar seria mais fácil. não te lembras de ouvir o eco, insistia. nada. mesmo nada.
a minha vizinha de cima todos os dias varria a cozinha, depois do jantar. todos os dias à mesma hora, nem devagar nem depressa. deixava-me uma impressão de estranheza o som do varrer, que foi tudo o que alguma vez vi ou soube dela. esse seu som confunde-se com os outros que me rodeiam, esporadicamente, sem razão nenhuma.
a verdade: odeio cozinhar. se não torno essa actividade minimamente interessante, não há maneira de me colocar numa cozinha a desempenhar a função. recolha e análise e dissecação de uma consciência. take that. muehlenbeckia maori, os nomes que detenho e que desconheço. um tão claro tenha cuidado que cresce muito, vai acabar com todas as outras que ponha ao pé dela para um nome assim difícil de chegar à língua. agora que vou ver as danças maori nas suas folhas, a verdade é que o verde aumentou o valor de verde.
"Dans ce monde hermétique, il n'y a rien qui vienne nous faire rire du destin. On ne peut s'aider de rien. Le doute règne partout." no Êxtase Material de Le Clézio, o laureado. se não estou em erro, ontem à noite, cerca de três milhões de pessoas viram duas novelas da tv portuguesa. le doute ne régne pas, peut-être, si absolument. há coisas tão absolutamente indesculpáveis, tão totalmente proscritas, e nem são as grandes sequer, que deveriam ser para sempre escritas em pedra, para toda a eternidade possível, e lançar quem as ousou no mais infinito dos infernos. três sem sequência. ou duas que se podem usar para brincar e rolar e uma fora de contexto, mas dentro de.
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Wednesday, September 24, 2008
escala
não conseguia bem levantar-se. a escada tinha três degraus, só, cada um noventa graus. dali, debaixo, as paredes subiam em trapézio, afuniladas mas com arestas. pequena como um roedor cego, chegava as pontas dos dedos à superfície vertical. se chover. fecho os olhos e espero, no patamar, acordar noutro corpo. na carapaça de um gigante.
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1:36 AM
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Tuesday, September 23, 2008
sublinhado
ia um sublinhado daqui até essa ponta da mesa. por baixo, rente à linha da escrita e um pouco acima dos dedos que escrevem. a escrita deixou de ser fricção, passou a ser percussão. corto o branco luminoso em dois com um traço negro que parte do meu aparo de plástico ________ LONGO, longo.
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12:14 AM
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Saturday, September 6, 2008
prreguiçça a
às vezes satisfazes-te tanto contigo que.. comigo? não, ele com ele, ela com ela. uma espécie de pecado duplo, como torrada com manteiga e geleia. não tens cuidado despistas-te. a rir-se; achas que sim? na linha da frente, frontalmente, na parede da auto-justificação. isso já nem é parede, é uma antepara. de ferro ou de aço, somos mais espantados do que isso. tu espantas-me. já sei que disto não gostas, não gostas de anagramas embora eu pudesse brincar com eles e tinha a sua piada, porque se eu deito torradas ou recito ou me entretenho com charadas não chega. podes falar de tudo, podes fazer acreditar que isto somos nós em diálogo dentro das quatro paredes quando não somos, nem nós nem eles, podes ter preguiça e cuspir horas de entrevistas, a tecedeira, como são vocês todas, e ainda me espantas. eu bem dizia.
É uma antiga rua burguesa com edifícios de primeiro piso de um lado e do outro. Muitos agora devolutos ou abandonados, apenas dois ou três reconstruídos ainda esperam moradores. As escadas de acesso ficam entre casas. Ao cimo, um portão azul avisa da inexistência de um cão. vem cá, o que estás a fazer, palavras cruzadas? não. e daí.
e ela sempre em voz off, por trás e ao lado, à frente, uma voz que não se cala, suave mas ininterrupta, enquanto lhe saem os números por colunas, um, dois, três, até à exaustão. era uma maneira de fazer andar os ponteiros e de estar calada. olhar para uma rua e subir uma escada pode ser apenas outra. quando ela falava apagavam-se os números e a rua. mas não se pode estar sempre assim, conjecturando. também não se deve pegar numa folha branca e misturar tudo. porque, afinal, já aqui entraram três pessoas e nenhuma delas foi sequer chamada. tira a melancolia da voz, fica enfadonho. vou tentar. ela é alta, um pouco branca, e anda como fala, os passos são curtos e rápidos. apressa-se através da página; quando a viramos deixou só um eco e o resto de uma saia. convém que as pernas sejam longas e pouco curvilíneas para que possa entrar e sair a seu belo prazer. gosta de se ouvir falar, obtém prazer por interromper. lá fora, a perícia no uso da verdade preludia chacinas. mas hoje tem por função distrair-me. afinal o que pode interessar a cara de uma mulher? fico-me pela carícia fácil, por enquanto. então pode ser, sai a melancolia, entra o pessimismo puro. deixa-te disso, a vida são três charadas.
acredita-se que as palavras não fazem nada, mas a mulher alta vive delas. há muitas maneiras de viver das palavras. ao cimo das escadas, oculto pelo perpendicular da parede, há outro portão que não é azul e que embora tenha um aspecto disuasor facilmente se abre pelo lado de fora. dou por mim a forçar a alavanca do fecho, ferrugenta e pesada de abandono. dentro, um pomar entregue aos elementos. ouvi dizer que alguém sonhou um jardim fértil em que todas as estações fossem tempo de colheita. o sonho de um agricultor.
tenho uma certa ideia de ti. quando penso em ti vejo-te de determinada maneira, um quase vulto, em pé, a olhar para mim. podia ser um símbolo de ti, ou um ex-libris, se fosses um livro meu. e, como nas imagens dos sonhos ou dos desenhos infantis, não interessa a perspectiva: vejo o teu olhar com clareza na figura indeterminada de vulto.
já resolveste o jogo? diverte-se, como ela, com a incongruência de um jogo resolvido, o oposto de si. já sei que esse homem que subiu a escada e entrou no jardim do paraíso vai morrer, mas ainda não sei como. no equilibrismo de uma grafite fina oscila o percurso sinuoso. e por entre colunas e linhas reparo nela, a mulher branca, momentaneamente alheada de nós, fitando outro espaço.
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Saturday, August 30, 2008
jornada, cento e trinta, trânsito, sono
dissolução
queria ver o John Milton punning. a essência do Sam, a cara do António, a alma trocada do Giovanni.
que ninguém escreve senão para si próprio. daí estou ilibada. olha. sou um vidro. do outro lado um grupo de homens em colóquio, poucas mulheres. as vozes alheias que soo enquanto ando por aí transparente, fora daqui, fora da corrida, sem clube, livre. In the beginning was the pun, god said.
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9:10 PM
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Thursday, August 28, 2008
e agora
actos contíguos
e agora. às vezes gosto de enigmas, outras sem hora sigo a linha clara.
entre o ornato talhado e o papel de arroz
são cortes de través, porções e degraus de tom.
por trás de mim está sempre outra.
foi no labirinto de Petrin que as cumprimentei, metaforicamente.
como quando saio da festa e os braços ainda lá ficam. ou a boca.
depois de Ambroise Vollard ganhámos esse artifício e esse
erro: continuamente perdendo partes. mas serei clara.
gosto de ciprestes e plátanos. discorro sobre o efeito da luz na
dimensão das pedras. esmago folhas só para as poder cheirar. clara.
e também menos. quando fecho os olhos sobram recortes no escuro
e o bafo de alguém que entretanto saiu.
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3:31 PM
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Friday, May 16, 2008
sem tino
gosto das palavras que não dizem nada, e das que nem
sequer foram ditas ainda, e que repousam, enroladas,
no canto da minha boca.
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2:08 PM
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Thursday, May 1, 2008
para atirar fora
arejamos todos para a mesma banda, e levamos o aperto a tiracolo. beira rio, beira Tejo, beira mar. cavalgando solitárias trotinetes de inverno.
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Friday, February 29, 2008
noite
Por vezes a noite cai de chumbo sobre os seus ombros. Nesses dias desce ao centro da vila e atravessa a praça. A uma esquina a farmácia e o letreiro intrusivo de néon verde, berrante, debaixo das arcadas de um prédio antigo um pedinte esporádico que dorme e, cobrindo toda a área da praça, a calçada usual com motivos de marinhagem. Senta-se no bar irlandês e bebe uma Guiness, a espuma na boca como o sexo de uma mulher imaginária. Os dedos vazios apoiam-se na mesa de metal. Sentindo a dentada do gelo, entrega-se ao grande vácuo, sem desejo, sem futuro.
A isto chamo fantasiar. A expressão das suas visões, dos seus sonhos, por mais medíocres e insignificantes, no mais literal sentido nulo, dá um prazer pouco explicado ao cidadão comum, "homens e mulheres do meu país". A necessidade do tal mais qualquer coisa, uma transcendência qualquer e o sobreviver do amor-próprio, sobretudo isto. Assim me justifico e me engano. Olhando para esse golito que bebo e que cuspo, vem-me um repúdio infinito por sequer olhar para as letras brancas no teclado. Cala-te.
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3:58 PM
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Thursday, February 28, 2008
ocupado
Há dez anos pegara no telefone e marcara o número. Nos primeiros dois anos ficou em espera. Depois disso foram só intermitências e intervalos. Quanto tempo se pode esperar por uma chamada, pensava. Estás-me a ouvir? A linha caía, enrolava-se, chegava a ondear. Por fim, restou-lhe um ódio ao aparelho. Já nem tentava escutar, nem se preocupava em ser entendido. Tinha apenas uma certeza, do outro lado ninguém escutava; o seu único ponto de chegada - e de partida - era o desejo de se ver livre daquele intruso. Vou desligar.
A palavra ocupado encheu-lhe a cabeça. Insidiosamente. Sempre associara a palavra "ocupado" a um pequeno espaço esconso, mas este era um império.
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8:27 AM
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Tuesday, February 26, 2008
quase
Eram dias de quase. Cruzou a rua vazia, uma quase possibilidade.
Quando ele se dispunha saiam as águas de um gole só. Um reservatório trancado,
mas nem assim se evitavam estas pequenas cheias. E secas violentas, ocasionais.
Estava abalançado o seu fio de prumo. Umas vezes o solo inclinava para a direita,
outras ia tombando para a esquerda. Comandante de outras embarcações,
outras liberdades. Estes dias eram de quase tudo.
Oscilava entre o castanho e o laranja, o chumbo das águas devorando as encostas.
Pensando bem nem se importava. Que se matassem em duelo, que concorressem,
que cravassem a bandeira fundo ou que a queimassem com socos. Era-lhe indiferente.
Continha apenas e tão só ar, a emissão dentro de momentos durante horas da sua vida.
Dias de um quase nada, caminhos do todo.
Uma destas mulheres esculpiu um texto, diz ela. Juntou as palavras de emails recebidos num só e depois foi cortando, alterando, até ter um texto escrito com as palavras dos outros. Mostpeople are average, mostwriters academic. ("Hot fishy reek of her freshened loins.")
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Monday, January 21, 2008
vulnerable
Lines darkening the skin. Palms up.
Voice tracks on the back of my hand.
Estas contas e as outras, dou daqui este pedaço, mas quero aquele, vou tomar nota de tudo no caderninho, para depois comparar e ter a certeza. Porque se passo para aqui depois tenho de ter a certeza que ali também dá, tenho que ver bem, ir com cuidado e murar a coisa. O que faria sem as notas que tomei, escrevi tudo ponto por pontos, iis e acentos, o que fizeram e o que fiz e onde fui e todas as coisas que passaram de mão e todas as lâmpadas que mudei, as migalhas, contei-as, as que apanhei do chão e as que deixei lá ficar de propósito para poder depois dizer que ninguém apanha a porcaria das migalhas, o melhor é mesmo medir melhor aquela parte da parede, e a janela, não vá ser um bocadinho maior ou um bocadinho mais pequena. Se eu pudesse ter tudo contido, contado, não vá agora dar o que não posso. Ponho esta linha e subtraio aquela, não era minha sequer: tomo nota.
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Tuesday, January 1, 2008
Mouros forros
Este ano bati um recorde. Nem passas, nem champanhe, nem chamadas, nem beijos ou abraços, nem música, nem gente, nem família, nem sequer online. Num warp de intervalo, entre Santa Susana e o Pobral, quase em sobrevôo pelo vale dos meus antepassados, vejo subirem os fogos de artifício em redor, sobre os milhares de pontos de luz alaranjada, gente. No final da paisagem acende e apaga o convento de Mafra, como uma montra.
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Tuesday, December 25, 2007
Café de estação
De serviço, aleluia por esses paraísos artificiais. No dia em que somos obrigados a fechar. Forçada a dar de caras com. A ficar dentro e gostar. Todos em torno da mesa, hoje aberta, e cada um a falar consigo.
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Friday, November 2, 2007
Cicatrizar
Dizia-se que a mulher procurava moribundos, necrófaga. Se era por eles que andava ou por si mesma, especulava-se. Mas recolhia-os, frouxos, e depois devolvia-os à vida. E seguia caminho.
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Thursday, October 25, 2007
Casa de pasto
Três da tarde. Atravesso a povoação seca buscando água. O ar espanta uma poeira suja, que se cola aos dentes. Na rua, uma porta escura viola a parede do estabelecimento. Entro. O claque dos passos precede-me e abre uma clareira nos diálogos etilizados dos homens. Lanço uma chispa oblíqua contra os seus sussuros mudos.
Wednesday, October 24, 2007
Que me acariciem, que me façam festas
Curioso é que quem escreve o faça para si. E agora, efeitos perversos dos novos meios, para ser visto. Existo, enganem-me o isolamento, façam-me festas. Entre os uns e a turba, noto um certo desdém pelo objecto de análise. Para além da limitação vocabular. E a pergunta que se impõe: fazê-lo para quê, se apenas se arranha, um desunhar patético. Não quero beijos, apenas passo o tempo, palavras cruzadas. Nada mais do que uma droga recreativa que facilita a figura triste e me engana o tempo. Antes fosse.
E o comentário do Tozz, que era bom demais para afundar com o blogue:
O que escrevo "em cima do joelho" sai melhor que o pensado e repensado. É normalmente um polaroid. Mas não gosto de mostrar a cara. Sou mais de dar. A cara e outras coisas. Tudo o resto são raios de luz. E calor do sol. Já fazia falta um aguaceiro ...
Tozzola
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Thursday, October 18, 2007
Emergir
"Sleep - those little slices of death, how I loathe them" (Edgar Allen Poe)
O homem fechou os olhos e dormiu. Enquanto dormia, entrou no quarto uma mulher de cabelo oxidado. Trazia nas mãos um dragão verde de napa ao qual alguém tinha arrancado os botões que faziam de olhos. Puxou o lençol para trás e olhou para o corpo branco do homem, exposto pela pequena morte. Influências e referências. Pegou, indolente, numa caneta preta e escreveu-lhe na pele nua: "Lázaro".
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Monday, October 15, 2007
Para ti
Há dias em que velejo por serras e declives, a ondulação da folhagem violácea a facilitar o trabalho da quilha. De cada vez que me faço ao mar, é a ti que encontro, terra nova. Há noites em que do fundo me chamam as vozes roucas de sereias translúcidas, ninfas de inspirar poetas mortos. E os seus ossos rimados que baloiçam no fundo de galeões, o sopro das marés lunares na profundeza das águas. E quando mergulho é o teu corpo que abraço por entre os sargaços e os cantos, as conchas e as moreias que nos cobrem de pérolas, bolhas de ar rarefeito, a dança nocturna de aves cegas, o sal que me mergulhas no corpo. E há manhãs em que não sou, desfeita em pó, caleidoscópica às brisas frias, e aos orvalhos que lambem os vidros frios das janelas. A casa que desperta depois de sonhar meio século, as cores disparadas da luz que me sopras. Debaixo do arco e de todas as pontes, depois dos átomos e de todos os fogos, no fim dos minutos, encontrei-te. Enrolo-me pequena num estojo antigo e gasto. Uma moeda velha que deixo cair nos teus dedos.
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