light gazing, ışığa bakmak

Showing posts with label Sttau Monteiro. Show all posts
Showing posts with label Sttau Monteiro. Show all posts

Tuesday, May 28, 2013

quanto a Sttau Monteiro, posso dizer que

a literatura permitiu-lhe insultar mais pessoas por minuto do que, por exemplo, uma conversa de café. e também que se Portugal hoje fosse assim, como era, eu imigraria amanhã, nem que fosse para o Burkina Fasso (sem ofensa).

Monday, May 27, 2013

amor é amor é amor

"Entro na cabina. Como deverei começar? Se lhe peço desculpa da conversa desta manhã, ela fica outra vez cheia de esperanças e lá se me vai meter na cama esta noite. Isso é o pior de tudo. Não se pode mandar uma mulher embora. É horrível, excessivamente cruel. É como bater numa criança. Ainda estou a vê-la, quando isso aconteceu, em Janeiro. Pobre Fernanda... curvada, a sair do quarto, com uma camisa de noite cheia de florzinhas, como se não tivesse mais ninguém no mundo, como se a vida acabasse ali.
Veio oferecer tudo o que tinha e eu não lho quis. Sempre que me lembro disso, sinto arrepios. Mas que podia eu fazer? Representar o papel do marido extremoso? Mentir ainda mais? Dar-lhe ilusões acerca dum futuro que eu sabia não existir?
Foi pena só ter comprado duzentos gramas de passas. São tão boas que bem podia ter comprado meio quilo. Por outro lado, meio quilo já dá um embrulho grande de mais para se ter no bolso. Para a outra vez, compro duzentos e cinquenta gramas.
Entro na cabina e ligo para casa. A Fernanda vem ao telefone.
- Está lá? És tu, Fernanda? (Quem havia de ser? E se fosse um homem? Talvez fosse uma solução...)
-Sou eu.
- É para te dizer que resolvi ir ao cocktail dos Simões.
- Vens buscar-me? (Sinto-lhe a esperança na voz...)
- O melhor será ires lá ter. Encontramo-nos lá. Eu vou cedo, vou às 6 horas.
-Vais assim mesmo ou vens a casa mudar de fato?
- Vou assim mesmo. Não tenho tempo de ir a casa. Se for a casa, já não vou ao «cocktail».
- Pelo sim e pelo não arranjo-te um fato escuro e ponho-te uma camisa lavada em cima da cama.
- Não vale a pena. Vou como estou.
- Mesmo assim, arranjo-te as coisas.
- Não arranjes, que não vale a pena. (Já estamos a discutir...)
- Podes mudar de ideias...
- Nunca mudo de ideias.
- Até logo e obrigado.
-Adeus.
A conversa irritou-me. A mania que ela tem de cuidar de mim! Arranja-me o fato, coloca-me pratinhos de passas sobre a mesa-de-cabeceira, deixa-me sempre qualquer coisa fria no frigorífico... Vive na esperança de que eu mude de ideias. Julgará ela que o amor vai e vem com a mudança de ideias? Que quererá ela? Que eu entre em casa e lhe diga que mudei de ideias e que resolvi voltar a amá-la?"

ou o amor nos anos sessenta, Sttau Monteiro em Um Homem Não Chora.
e no fim (spoiler spoiler spoiler), não sendo o marido a fazê-lo, é o escritor quem a mata.



o marquês

"Conheço muita gente que se engana propositadamente nos nomes dos amigos menores. É um dos truques dos aristocratas profissionais. Não é o caso do marquês, que se não lembra de nada, nem dos nomes dos amigos nem dos nomes dos inimigos.
- Pois eu ando a experimentar um carro novo que comprei ontem. É uma maravilha...
- Que carro é?
- Um Mercedes 300 SL. Você não imagina o que aquilo anda... Olhe que me vejo grego para o segurar na estrada. Foge de mim, e olhe que eu gabo-me de guiar bem, guio como poucos... Pois acredite que me vejo grego para segurar aquele carro. E tem uma raça... Você já olhou bem para ele? Tem uma raça impressionante.
- E quanto custa um objecto desses?
- É caro, muito caro, mas eu entendo que se deve, de vez em quando, fazer um gosto ao dedo... Não acha? A vida não pode ser só trabalhar, homem. Para que serve o dinheiro? Além disso, há outro problema em que temos de pensar. Tenho dito muitas vezes que temos obrigações especiais, mesmo muito especiais. Não acha? O que eu quero dizer é que temos obrigações de dar dinheiro a ganhar aos outros e de ajudar os artistas, que isto dum carro como este é uma autêntica obra de arte. Agora já ninguém tem fortunas como havia antigamente, como havia na Idade Média. Nesse tempo, as famílias nobres podiam sustentar pintores e escultores... Até houve nesse tempo algumas famílias formidáveis... os... como é que eles se chamavam... os... não importa... você sabe... aqueles que sustentavam à sua própria custa tantos pintores e tantos homens de talento... Agora nada disso é possível e pena é que o não seja. Vá aos grandes museus, como aquele de Madrid, e fica logo a ver como essa gente ajudou as artes do seu tempo. Agora nada disso é possível mas, dentro daquilo que se pode... De qualquer forma a minha Mercedes é uma autêntica obra de arte. Dá 230, ao cronometro... Estou a dizer-lhe que não sou capaz de o aguentar, ó Manuel, trazes-me outro «whisky»? Igual a este, ouviste?
O Dr. Martins ouviu tudo isto sem tirar os olhos do marquês. Quase que o oiço pensar. Mete-se na conversa.
- V. Ex.” desculpe a minha pergunta, mas despertou a minha curiosidade. Quanto gasta esse carro?
- Quanto gasta?
-Sim, qual é o seu consumo?
- Não é muito elevado. Claro que isso depende de quem o conduz. Nas minhas mãos deve gastar à volta de 15 litros... Isto não é certo, porque como só o comprei ontem ainda não tive tempo para fazer contas.
- Deve ser um carro maravilhoso. Eu, se pudesse, também comprava um carro assim.
- Não é um carro para toda a gente. Como não podia deixar de ser, é um carro para entendedores, mas é uma verdadeira maravilha.
- Gostava de o ver. V. Ex.a tem-no aí fora?
- Está aqui no largo. Tenho o maior prazer em lho mostrar. Quando acabar de jantar vamos vê-lo. V. Ex.a gosta de automóveis?
- Gosto de tudo o que é bom.
- Eu também sou um pouco assim. Gosto de tudo o que é bom: bons quadros, bons automóveis, bons vinhos, bons... bons... tudo quanto é bom.
--V. Ex.a deve ter bons quadros.
- Tenho. Tenho uns quadritos. Não lhe posso dizer que tenha muitos, mas tudo quanto tenho é bom. Gosta de pintura?
- Quando é boa.
- É como eu. Olhe que ainda no outro dia, no Louvre, vi um quadrito muito semelhante a um que lá tenho em casa e estou certo que é do mesmo pintor. O meu não está assinado mas não me engana. Tenho um instinto especial para o que é bom. É por isso mesmo que vou aos museus. O Louvre é muito bom. É uma lição ir-se lá! Conhece?
- Fui lá no Verão de 54.
- Pois eu vou lá bastantes vezes. Sempre que estou em Madrid vou lá.
- Em Madrid?!
- Pois. Mas se gosta de quadros há-de ir a minha casa ver os meus. Desde já lhe digo que é uma colecção modesta. Nada de extraordinário, mas tudo bonzinho.
- Tenho o maior prazer em ir a casa de V. Ex.a e, se me permite, levo o meu rapaz, que gosta muito destas coisas de arte. É de família... Já minha esposa também faz muito gosto nestas coisas.
- Havemos de combinar isso. Manuel, trazes-me outro whisky»?
- Quando?
- Como?
- Quando é que poderíamos ir a casa de V. Ex.a?
- Qualquer dia. Tem um cartão? Dê-mo que eu um dia destes telefono-lhe.
- Se pudéssemos combinar um dia...
- Neste momento é-me impossível, porque ando tão ocupado com a rodagem da Mercedes, que nunca sei quando estou em casa. Amanhã vou ao Porto para a rodar. Durmo e volto depois de amanhã.
O Martins tira a carteira do bolso e dobra um cartão que dá ao marquês.
- Pois fico-lhe muito agradecido. Creia que tenho o maior prazer em ver a sua colecção, sr. marquês. O maior prazer.
- Se V. Ex.a já jantou, vamos até lá fora ver a Mercedes?
- Às suas ordens, sr. marquês.
Levantamo-nos todos e saímos. O carro do marquês está parado no largo. O Martins ouve todas as explicações técnicas com avidez. Fez perguntas. Interessa-se pelos faróis, pela mala, pelo motor. Senta-se lá dentro e salta para cima e para baixo a fim de experimentar os assentos.
- Pois deixe que lhe diga, sr. marquês, que o invejo. Isto sim! Isto é um automóvel!... Eu gostava muito de ter um igual, mas é claro que o não saberia conduzir. Isto é só para entendidos.
O filho do Martins não faz uma única pergunta. Está um pouco afastado e segue com um misto de atenção e de desprezo os gestos do pai. Leio-lhe nos olhos que, além de desprezo, há, também, ternura, aquela ternura que os filhos têm pelos pais e que se mantém para além de todas as decepções.
Pobre Martins! O filho lê-o como quem lê um livro aberto...
O marquês entra para o carro e vira-se para mim.
- Você importa-se de me pagar as minhas bebidas? É que se você mas pagar eu sigo já para Cascais.
Tira da carteira uma nota de cem escudos e faz o gesto de ma entregar mas o Martins agarra-lhe o braço.
- O sr. marquês não me faz esta desfeita... Quem o convidou fui eu. Em sua casa, quando eu lá for, bebo o seu «whisky» com muito prazer, mas aqui quem paga sou eu. Nem pense mais nisso.
Voltamos os dois ao bar sem trocar uma palavra. Mando vir a minha conta. Em cima da mesa, ao pé dos copos, está o cartão que o Martins deu ao marquês. Durante uns segundos, ninguém diz nada. O Martins chega-se para trás na cadeira e respira fundo. Está com cara de quem fez um bom negócio ou de quem acaba de realizar uma ambição antiga. Os seus olhos percorrem o bar, examinam o filho e a rapariga, caem sobre a mesa, dão com o cartão que o marquês se esqueceu de levar. Olha para mim e, vendo que eu também vi o cartão, diz num tom de voz que não consegue esconder o despeito:
- Condes, marqueses, duques... Nunca percebi para que serve essa trampa toda. Andam para aí a armar e nem sabem ler. Do que isto precisa é duma limpeza geral... Duma revolução que acabe com esta trampa toda...
Cá fora está uma noite linda.
Subo a rua e encaminho-me para casa. Passa por mim um operário trauteando um fado.
«E à noite, o vento, é meu irmão...»"


Sttau Monteiro num episódio genial em Um Homem Não Chora.

mulheres portuguesas

em Um Homem Não Chora, o protagonista farta-se de chorar por não conseguir o divórcio da mulher que chora por não querer o divórcio. não sei, genuinamente, quem lia o livro de Sttau Monteiro, se homens ou mulheres, mas a verdade é que me choca sem fim o nível de humilhação sofrido pelas mulheres dos anos sessenta em Portugal. aquilo tudo é podre, Bolor sem dúvida: homens inúteis com pena de si próprios, mulheres maltratadas com o assentimento de todos os poderes mais altos. Kemal tratar a sua amada como uma figura de mausoléu é, ao pé disto, água de rosas.




Sunday, May 26, 2013

não misture línguas, p.f.

"Eu, feito homem da gravata às riscas – «As you wish».
O senhor pomposo – Peço-lhe o especial favor de se não usar de palavras estrangeiras. Considero tal hábito pernicioso, inútil e, acima de tudo, antipatriótico. Uma pessoa esclarecida como Vossa Excelência deve auxiliar-me nesta minha campanha em favor do aportuguesamento da língua.
Eu, feito homem da gravata às riscas – «If you say so.»
Sttau Monteiro em Um Homem Não Chora, tal como Abelaira em torno do casamento, antes da revolução de Abril. se Abelaira é sensível, Sttau Monteiro é uma verdadeira besta, barulhento, do contra e a partir tudo à sua passagem, refiro o uso da língua, naturalmente. na verdade, este herói desconchavado lembra-me muito alguém que conheço bem. ler sobre nós próprios e ver como chegámos aqui é expor publicamente um segredo privado.

 
Share