Tolstoi é claro, as suas ideias sólidas e limpas, o bem e o mal definidos, o corpo e a mente, a simplicidade e a empatia, a terra e a honra, a alegria de celebrar a vida. em Guerra e Paz, muitos são os episódios memoráveis e que vibrarão pelo futuro, vivos para sempre em obras alheias e nos arquétipos da cultura comum. Andrei olhando para as nuvens, Anatol caindo do cavalo, Denisov roubando víveres para o seu pelotão, a alcoviteira. há também a shakespeariana varanda de Natasha. e Anna Karenina está lá no corpo de Ellen, Lévin e Kitty em Andrei e Natasha. das mais impressionantes 'cenas': Andrei atravessando o hospital militar. esta cena então perde-se na contagem de réplicas. aqui, este movimento que acompanha o andar do personagem é mais frequente, ou o olhar de quem está de lado a ver. em Karenina, o olhar começa no meio do grupo de pessoas e depois eleva-se para uma vista panorâmica de toda a sala, outro lugar entretanto comum do cinema.
não me admira que Nabokov tenha dedicado a vida à literatura russa: entre Gogol, Tolstoi, Dostoiesvky e Chekhov está na verdade quase tudo. (não esquecendo o pai, Turgenev e ele próprio, Nabokov, o último ? nesse breve período genial) --que século glorioso ("One century, the nineteenth, had been sufficient for a country with practically no literary tradition of its own to create a literature which in artistic worth, in wide-spread influence, in everything except bulk, equals the glorious output of England or France, although their production of permanent masterpieces had begun so much earlier. This miraculous flow of esthetic values in so young a civilization could not have taken place unless in all other ramifications of spiritual growth nineteenth-century Russia had not attained with the same abnormal speed a degree of culture which again matched that of the oldest Western countries. I am aware that the recognition of this past culture of Russia is not an integral part of a foreigner's notion of Russian history. The question of the evolution of liberal thought in Russia before the Revolution has been completely obscured and distorted abroad by astute Communist propaganda in the twenties and thirties of this century. They usurped the honor of having civilized Russia.", diz o mestre.)
e continua:
"For an artist one consolation is that in a free country he is not actually forced to produce guidebooks. Now, from this limited point of view, nineteenth-century Russia was oddly enough a free country: books and writers might be banned and banished, censors might be rogues and fools, be-whiskered Tsars might stamp and storm; but that wonderful discovery of Soviet times, the method of making the entire literary corporation write what the state deems fit — this method was unknown in old Russia, although no doubt many a reactionary statesman hoped to find such a tool. A staunch determinist might argue that between a magazine in a democratic country applying financial pressure to its contributors to make them exude what is required by the so-called reading public — between this and the more direct pressure which a police state brings to bear in order to make the author round out his novel with a suitable political message, it may be argued that between the two pressures there is only a difference of degree; but this is not so for the simple reason that there are many different periodicals and philosophies in a free country but only one government in a dictatorship. It is a difference in quality. If I, an American writer, decide to write an unconventional novel about, say, a happy atheist, an independent Bostonian, who marries a beautiful Negro girl, also an atheist, has lots of children, cute little agnostics, and lives a happy, good, and gentle life to the age of 106, when he blissfully dies in his sleep — it is quite possible that despite your brilliant talent, Mr. Nabokov, we feel [in such cases we don't think, we feel] that no American publisher could risk bringing out such a book simply because no bookseller would want to handle it. This is a publisher's opinion, and everybody has the right to have an opinion. Nobody would exile me to the wilds of Alaska for having my happy atheist published after all by some shady experimental firm; and on the other hand, authors in America are never ordered by the government to produce magnificent novels about the joys of free enterprise and of morning prayers."
sem dúvida, mr. nabokov. poucas coisas foram tão assassinas como o comunismo russo.
light gazing, ışığa bakmak
Thursday, March 27, 2014
moral e ética
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Friday, December 27, 2013
'HAPPY families are all alike; every unhappy family is unhappy in its own way.' ('a worn-out woman no longer young or good-looking')
frase usada para gáudio dos deprimentes deprimidos que julgam a sua unhappiness diferente de todas as outras, desprezando a felicidade. o desprezo da felicidade esteve muito em voga e continua a ser praticado por aves tardias. o desprezo da infelicidade é também, infelizmente, muito comum.
- -
"He could not at this date repent of the fact that he, a handsome, susceptible man of thirty-four, was not in love with his wife, the mother of five living and two dead children, and only a year younger than himself. All he repented of was that he had not succeeded better in hiding it from his wife. But he felt all the difficulty of his position and was sorry for his wife, his children, and himself. Possibly he might have managed to conceal his sins better from his wife is he had anticipated that the knowledge of them would have had such an effect on her. He had never clearly thought out the subject, but he had vaguely conceived that his wife must long ago have suspected him of being unfaithful to her, and shut her eyes to the fact. He had even supposed that she, a worn-out woman no longer young or good-looking, and in no way remarkable or interesting, merely a good mother, ought from a sense of fairness to take an indulgent view."
tens de ler a Anna Karenina. sou boa filha. emprestou-me o livro, mas também o estou a ler na net, em parte porque o livro é muito grande, em parte porque desconfio das traduções portuguesas. esta edição tem tradução de António Pescada - do russo - e um posfácio de Nabokov, que começa- Tolstoi é o maior escritor russo de ficção em prosa, deixando de lado os seus precursores Púchkin e Lermontov, talvez se possam ordenar os grandes artistas russos da prosa da seguinte forma: em primeiro Tolstoi; em segundo Gogol; em terceiro Tchékhov; e em quarto Turgueniev. É como dar notas aos trabalhos dos alunos, e não há dúvida de que Dostoievski e Saltykov estão lá fora à porta do meu gabinete para discutir a má nota que tiveram. -O veneno ideológico, a mensagem - começou a afectar o romance russo a meio do século passado e matou-o em meados deste século. (...) digo eu que talvez Gorki também quisesse discutir a nota, mas isso são devaneios de Nabokov com os quais concordo em parte, quem sou eu. ele próprio se pode incluir neste rol de chamada.
a mulher enganada, de trinta e três anos, cinco filhos vivos e dois mortos, já não era nem nova nem bonita.
não há bebés por causa da crise? não era bem isso......
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Saturday, October 12, 2013
'I grew up kissing books and bread.'
uma frase que, à partida, conquista logo a minha atenção e simpatia. é a abertura de 'Is Nothing Sacred?' de Salman Rushdie, um dos textos traduzidos para a Granta Portugal #2 que, em geral, me parece melhor do que a primeira.
"Joyce's wanderers, Beckett's tramps, Gogol's tricksters, Bulgakov's devils, Bellow's high-energy meditations on the stifling of the soul by the triumphs of materialism; these, and many more, are what we have instead of prophets and suffering saints. But while the novel answers our need for wonderment and understanding, it brings us harsh and unpalatable news as well."
bem capaz de fazer entrar Rushdie no lugar dos a ler, agora no caminho do rising sun. (all in all, um intervalo terá de ser feito para Munro, no futuro, e para Nina, num futuro muito próximo).
aqui, 'Is Nothing Sacred?'
aqui, o livro todo.
(ou talvez não)
este artigo foi escrito no final dos anos noventa, como o mundo mudou entretanto... há demasiadas coisas com as quais não posso concordar. algumas foram provadas erradas entretanto, outras porque o autor simplesmente verga a realidade para caber dentro dos seus argumento. fé e não fé, o moderno como o homem de não-fé, com o que não concordo de todo. embora para mim não exista fé em nada, talvez no poder de atracção entre os corpos celestes ou na perfeição e equilíbrio do mundo animal, mas de resto, mon ami, nada vezes nada - embora esse vazio, existem os outros para quem o religioso existe, deus, os deuses, os corpos celestes, as almas, os espíritos, as vozes do mundo, os suspiros das divindades aladas, o sopro da terra, a magia das luz e dos cometas e por aí fora. e não são menos modernos por isso. já foi tempo da exclusão, já foi tempo da supremacia branca, da superioridade moral, da relevância intelectual e artística. enfrentemos os factos: o mundo já não nos pertence.
como aqui: mas não! o rapaz vence porque o seu coração é novo e puro, porque precisamente acredita na normalidade, no senso comum, na amizade e nos valores que ganhou no continente americano: simples, da terra (assim se liga e compreende o 'selvagem' que carrega crâneos) - contra o velho obsessivo, o velho mundo, o vício, a visão viciada, a mania. (longe de Conrad, o coração da verdade não está nas trevas -não era da banalidade do mal que se falava? é ver Billy Budd onde o bem e o mal se confrontam: pode uma alma pura ser levada para as trevas?)
"Moby Dick enfrenta esse desafio ao oferecer-nos uma visão negra, quase maniqueísta, de um universo (O Pequod) nas garras de um demónio, Ahab, e encaminhando-se inexoravelmente para outro: a Baleia. O mar sempre foi o nosso Outro, manifestando-se ante nós sob a forma de monstros - o dragão Uróboro, o polvo Kraken, o Leviatã. Herman Melville mergulha nessas águas escuras para nos oferecer uma parábola extremamente moderna: o capitão Ahab, possuído pelo seu fascínio, morre; Ismael, um homem destituído de sentimentos fortes e de crenças absolutas, sobrevive. O homem moderno centrado em si é o único sobrevivente; os que adoram a baleia - uma vez que a perseguição é uma forma de adoração - morrem pela baleia."
diz Rushdie em "Is Nothing Sacred?"
[não tinha reparado: hoje foi 13.10.13. e está quase a acabar.]
um pouco à frente, aqui onde Rushdie acertou para falhar logo a seguir:
"Parece provável, também, que nos estejamos a dirigir para um mundo no qual não haverá alternativa real ao modelo social liberal-capitalista (excepto, talvez, o modelo teocrático, fundacionalista, do Islão). Neste contexto, o capitalismo liberal, ou democracia, ou mundo livre, exigirá a mais rigorosa atenção, exigirá como nunca antes a capacidade de re-imaginar, questionar e duvidar. «O nosso adversário é o nosso adjuvante,» disse Edmund Burke, e se a democracia já não tem a ajuda do comunismo para clarificar, por oposição, as suas ideias, então talvez tenha de encontrar na literatura, em substituição, um adversário." (Rushdie)
a literatura como substituição do comunismo, céus.
o problema de julgar que o futuro é um lugar pequeno.
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Tuesday, April 2, 2013
e um bom retrato de Gogol
por um leitor plebeu. um blogue para ler, Dias do Leitor.
Entretanto, o dono da venda, um homenzinho cinzento de capote de frisa, com a barba por fazer desde o último domingo,...
(injusto é desatar a ver Bruegel quando leio Gogol)
Gógol? bolas.
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2:41 PM
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Thursday, March 7, 2013
hoje é dia
de não dizer nada. também é dia dos estudantes de psicologia de Braga lerem um conto de Gogol.
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Wednesday, December 26, 2012
ah os meus melhores livros
deste ano são tantos: Pamuk neste final de ano, valeu a pena esperar perante o enorme abismo e seguir em queda livre; Candide de Voltaire; Walk. depois: Au Japon (bem sei, a sequência é estranha) e O Velho que lia Romances de Amor. em meados de Abril, na Patagónia. no Inverno passado foi Gogol. que ano estrondoso.
- -
estes são alguns dos melhores do público mas listas não faltam na net. positivamente vendo: ter entrado para o goodreads pela mão do Armando (thanks!)
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TAGS Biblioteca de Babel, Elena Janvier, Gogol, Luis Sepúlveda, Orhan Pamuk, Robert Walser, Voltaire
Sunday, August 19, 2012
walk
depois de Walk, lembro outros caminhantes. Rousseau e Thoreau. o flâneur de Baudelaire, Sebald. um universo limitado, por agora. a poesia de Pasolini é caminhante também. um grande número de personagens caminha. os anos cinquenta e sobretudo os sessenta deram velocidade ao fugir da paisagem. Perec escreveu um livro sem 'e' (foi ele? foi); assim fujo aos acentos que a máquina infernal ignora.
a caleche de Gogol fica a meio caminho: entre o solitário caminhante e a 'road trip'.
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Monday, May 14, 2012
ligações
outra: Beckett e Gogol são tão parentes.
'Joyce's wanderers, Beckett's tramps, Gogol's tricksters, Bulgakov's devils'
.
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Wednesday, May 9, 2012
Christmas Eve, Gogol
nas asas da fantasia, no melhor dos sentidos, com esta véspera de Natal na planície ucraniana. ainda espero encontrar uma versão online.
(The Rise of Prose)
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'cada vez se lê menos'
" Antes de mais nada, devo notar-vos que o meu avô não era um cossaco vulgar. Conhecia bem a língua eslava e sabia quando era preciso colocar uma abreviatura no seu verdadeiro lugar. Nos dias de festa, lia-nos os Actos dos Apóstolos com uma segurança tal que faria vergonha a um padre dos nossos dias. Ora vós sabeis bem que, nesse tempo, todos os letrados de Baturina se podiam fechar na palma de uma mão. Não é pois de admirar que toda a gente tivesse uma grande consideração pelo meu avô."
Gogol em "A Carta Roubada", nos Contos.
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Thursday, May 3, 2012
o diabo
enquanto lia A Ilustre Casa de Ramires tentava lembrar que tinha dito que pessoas surgiam das palavras, como do nada, e logo voltavam a desaparecer mais logo na linha. assim faz Eça, convocando uma multidão viva nesta obra maior da língua e da história. (e era Nabokov sobre Gogol).
ao ler Gogol, tenho sempre a impressão de uma coisa extraordinária, comovedora, para além do habitual. o que pode ser criado do ar com palavras.
- -
– Ouviste, Vlass? – dizia, erguendo-se na escuridão, um dos muitos visitantes da feira que pernoitava ao clarão das estrelas, – alguém falou no diabo, aqui ao pé de nós?
– E daí, que me importa isso a mim? – rosnou, espreguiçando-se, um cigano que estava deitado ao seu lado: – como se pode impedir alguém de falar da parentela?!
– Mas gritou como se o estivessem a estrangular!
– Quando um homem acorda bruscamente é capaz de imaginar todos os disparates!
– Seja o que quiseres, mas vamos ver o que se passa. Petisca lume!
O outro cigano pôs-se de pé, resmungando, iluminou-se duas vezes com as faíscas da pederneira que deram o clarão rápido de pequenos relâmpagos, puxou fogo à isca assoprando-a e acendeu o kaganetz – a lâmpada usada na Pequena-Rússia, que consiste num simples caco de barro cheio de sebo de carneiro, – e pôs-se em marcha alumiando o caminho.
– Alto! está aqui qualquer coisa caída. Ilumina por aqui!
Neste momento, já outros curiosos se lhes tinham juntado.
– O que vem a ser isto, Vlass?
– Palavra, que me parecem duas pessoas uma por cima da outra; mas não distingo qual delas é o Diabo!
– Qual é a que está por cima?
– Uma mulher!
– Então, não há dúvida, é essa o Diabo!
Uma gargalhada geral ressoou por toda a rua.
– Uma mulher que cavalgou um homem com certeza que sabe bem como há-de dirigir a sua montada! – dizia um dos recém-chegados.
– Olhai, rapazes! – disse outro pegando num bocado dum pote de que apenas uma metade se conservava ainda na cabeça de Tcherevik, – vede de que fazenda é o boné deste desgraçado!
Os risos e o barulho sempre crescentes fizeram despertar as duas criaturas inertes, que não eram senão Solopi e a sua mulher. Ainda sob a influência do terror recente, contemplavam abismados os rostos trigueiros dos ciganos. Iluminados pela luz escassa e oscilante das lâmpadas, estes, pareciam uma selvagem reunião de gnomos, que, envolvidos numa neve opaca e subterrânea, viessem saindo das trevas de uma profunda noite.
Gogol no conto "A Feira de Sorotchinetz", nos Contos.
Foi em Sorotchinetz que nasceu Gogol.
também chamado Evenings in Little Russia, ou Evenings in a Village near Vikanka.
to read online here.
Sorochintsy.
Sorochintsy Fair, também uma ópera cómica de Mussorgsky baseada no conto de Gogol.
a feira no youtube.
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8:25 AM
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Friday, March 2, 2012
data assinalável
o livro na escuridão transitória é Patagónia Express, pequenos prazeres da leitura.
(podia ter comprado digital, edição mais modernaça e cara, mas não comprei e nem foi pelo preço. veio este com a capa e o tamanho que eu recordava, talvez de quando foi editado. com amor na Pó dos Livros)
e o Gogol (fui eu!). (já agora, é aproveitar para ler isto. ainda não cheguei lá, vou entremeando)
se eu tivesse de comemorar, fazer uma festa, etc. era isto mesmo: um café e dois livros.
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Thursday, February 23, 2012
Gogol
"Depois de provarmos este tipo de humor jamais nos contentaremos com a mediocridade anedótica que hoje em dia preenche os coisos literários", não li tudo -ainda- mas com isto concordo tanto.
(e as pessoas que leram o mesmo livro: como se fossemos passageiros do mesmo paquete)
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Sunday, February 19, 2012
s/n
"Talvez alguns leitores achem toda esta conversa algo inverosímil. Para os comprazer, o autor confessa que é da mesma opinião, mas infelizmente as coisas passaram-se como as relatamos."
Gogol em As Almas Mortas.
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Saturday, February 18, 2012
s/n
"Chichikov sentia-se pouco à vontade, como se de súbito os seus sapatos bem engraxados se tivessem enchido de lama."
Gogol em As Almas Mortas.
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Thursday, February 16, 2012
'live creatures'
"We are faced by the remarkable phenomenon of mere forms of speech directly giving rise to live creatures."
Nabokov sobre Dead Souls em Lectures on Russian Literature.
('life-generating syntax")
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província
eu na lenga-lenga da literatura e da cultura, tal e tal, espírito da nação, e Nabokov a dizer que Gogol não passou mais de uma semana e oito horas na província. genial!
(como disse Feijó, Pessoa inventou Portugal mais do que o contrário. um pouco equivalente ao realismo imposto como obrigação nas artes visuais)
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'é o verbo' (palavras que valem x imagens)
"Cada povo possui em si próprio uma reserva de forças, determinadas faculdades criadoras, particularidades bem definidas e ainda outros dons que Deus lhe deu. Mas de todos esses dons, o que o caracteriza, o distingue e melhor reflecte o seu carácter, é o verbo. A língua inglesa exprime um conhecimento profundo da alma humana e uma judiciosa compreensão da vida; a francesa cintila em clarões efémeros; a alemã rumina laboriosamente uma frase profunda cujo sentido escapa a muita gente. Mas não há no mundo palavra tão completa, tão espontânea, tão estuante de vida, como uma palavra russa aplicada a preceito."
Gogol em As Almas Mortas.
que afinal não podia ser de outro modo, tendo em conta a total transformação de ponto de vista que o seu uso da língua precipitou na história da literatura russa.-
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Wednesday, February 15, 2012
'limbs of a single tree' (palavas que valem x imagens)
se a beleza foi afastada da discussão visual, julgo que temporariamente porque nem nunca chegou a ir embora, nem pode, faz parte do instinto humano, a literatura é outra coisa totalmente diferente. por exemplo, ainda estou no início de compreender Hamburgo: visitar no presente, visitar antes da guerra com T. Mann, visitar durante e depois da guerra, com Sebald.
onde mais está esse espírito (do lugar, do conjunto das pessoas e da sua individualidade, as cores e o cheiro de uma cidade.) literatura e cinema.
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Tuesday, February 14, 2012
Pelágia (palavras que valem x imagens)
"- Eh! Pelágia! - chamou a dona da casa, dirigindo-se a uma garota duns onze anos, que esperava perto do patamar, mal-enjorcada num vestido grosseiro que lhe deixava à mostra as pernas nuas, tão cobertas de lama que dir-se-ia usar botas. - Pelágia, vai ensinar o caminho a este senhor.
Selifane ajudou a garota a subir. Ela pôs primeiro o pé no estribo, enlameando-o todo, e depois trepou para a boleia, sentando-se ao lado do cocheiro. (...)
Por fim, a rapariga, estendendo um braço, apontou na direcção dum edifício que se divisava ao longe e gritou:
- Lá está a estrada principal!
- E aquela casa? - inquiriu Selifane.
- É uma estalagem - respondeu a pequena.
- Bem, então podes voltar para trás, já não nos enganamos no caminho.
Refreou os cavalos, parou, e enquanto ajudava a garota a descer, ia resmungando entre dentes: «Que rapariga tão porca!»
Chichikov deu-lhe uma moeda de cobre e ela regressou a casa a correr, muito feliz por ter andado de carruagem."
Gogol em Almas Mortas.
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