light gazing, ışığa bakmak

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Friday, July 14, 2017

escondendo-se nas palavras para preservar o que é precioso

"O barco no qual bordejámos a margem do maciço do Jura, que aqui mergulha no fundo do lago, chamava-se Ville de Fribourg." Sebald n'O Caminhante Solitário.

Wednesday, December 14, 2016

perguntar

"1. What is the temporal geometry of events and feelings? How do random, discontinuous, multilinear and multidirectional events become the matter of biographical experience and expression? How do pathos and trauma, be it psychological or historical, (un)form time, consciousness, and narrative?
2. What is the relationship between the sensorial layer of life, the autobiographical memory system and the narrative constructions? What is the degree of poiesis and mimesis in biographical writing? How does the Diltheyean triad Life-Expression-Understanding function?
3. What is the relationship between memory, imagination and language in biography? Is memory essentially a subsystem of one’s imagination and will to meaning? And is imagination the subjective appropriation of the imaginary metanarratives of a semiotic community (codified e.g. in mythic-theological discourse)?
4. What is the intentionality of a life history/story? Who are its writer, narrator, and actor? What is the relationship between life, art and truth? Is there truth in an ethical and aesthetic Self? What is narrative, historical, hermeneutical and performative truth?
5. What is the ethical and political meaning of the Narrative Self? Does moral personality lie in narrative competence? Does responsibility consist in narratability? Does struggle for recognition translate into psychosocial internarrative conflict?"

daqui. muitas perguntas e todas boas. as minhas preferidas em itálico. parecem-me perguntas de século vinte, olhando para a literatura e não para a filosofia. é ler Sebald, deve responder às cinco.


Sunday, August 23, 2015

treasure chest

também se encontram no facebook, mas é raríssimo. este é um deles:

"Fiction should have a ghostlike presence in it somewhere, something omniscient. It makes it a different reality.", Sebald lessons in literature.

uma história, um pequeno tesouro nos comentários do goodreads: a rapariga comentava o Sea-Wolf de Jack London (luv) e contava que aquele tinha sido o livro favorito da sua mãe e por isso tinha decidido lê-lo. a mãe tinha-se apaixonado pelo livro quando era adolescente na Alemanha de Leste. mas era proibido vender o livro, comprá-lo, tê-lo. a jovem leitora tinha requisitado o livro da biblioteca dezenas e dezenas de vezes, as suficientes para o copiar e assim ter uma cópia só sua.

a rapariga, cidadã de um país livre, talvez os Estados Unidos, comentava que o livro nem era assim tão especial, antiquado e demasiado romântico.

os tesouros de uns são os lixos de outros. e vice versa.

Sunday, April 19, 2015

a mulher que morreu duas vezes

a minha admiração por Nina Hoss não termina.


não sei se vem carregado de prémios. habituada a salas vazias foi com espanto que dou com uma fila até às caixas para entrar em Phoenix (fénix renascida), esse filme de descer aos infernos e nunca mais regressar. conseguir ser a imagem da imagem numa perfeita representação dos espelhos, a contenção e a intensidade do olhar de Nelly fala por todo um século de carnificina e amoralidade. não foram só os campos mas o depois dos campos, a destruição pelos salvadores (aqui no vermelho inferno de Phoenix, os corruptores) e o silêncio das testemunhas. Nelly é a mulher que morre duas vezes, a primeira no campo, a segunda morta pelo marido que lhe apaga a esperança e a identidade, mas que também resiste duas vezes, salva por si própria. o que resta depois da resistência é uma questão de difícil resposta. nada ou sinais, alguns objectos, algumas imagens, impressões (Sebald). imagens e sentimentos fantasmagóricos de cidades inteiras desaparecidas.
as cores de Phoenix são as mesmas cores de Blaufuks, talvez o holocausto tenha a sua própria paleta visual. um filme perfeito, inesquecível, violentamente brutal.


PHOENIX (2014) by Christian Petzold – Trailer from Richard Lormand on Vimeo.

Thursday, February 26, 2015

viagens de comboio

enquanto me ponho a hipótese de nas idas a norte optar pela viagem de comboio (o mesmo que colheu a vida e os corpos de dois jovens polícias), leio a do jovem Marcel asmático para Balbec e alinho-a a outras: a de Karenina com o livro no colo, a entrada de Gustav em Veneza, a das crianças alemãs de Sebald, os pastores de Sepúlveda no Patagonia Express.

Wednesday, September 10, 2014

stairhead

or Joyce's tower agora parte do complexo de museus Joyce e das comemorações do bloomsday e da oferta turística da cidade. na altura alugada por Joyce e colegas de universidade para 'helenizar' a Irlanda.


a história das torres de Martello também é interessante mas não sei qual a sua eficácia, para além de terem ajudado a gerar um primeiro capítulo tão estrondoso para a literatura universal. a arquitectura da construção original é genovesa, senhores temporários dos mares. uma certa torre na Córsega resistiu aos ingleses durante dois dias, o que os inspirou a construir um grande número de torres deste tipo no seu país e pelo império fora, sobretudo durante o terror napoleónico (um pouco como são francisco a construir estranhas formas defensivas à espera dos japoneses, assim o reino unido a guardar-se de napoleão). a cópia da cópia chegou aos estados unidos com desenho alterado e utilidade muito limitada.

as torres foram derrotadas não pelos inimigos imaginados mas pela tecnologia e ciência próprias (Sebald). no entanto, a simbologia da torre já me fascina desde que aprendi a ler o tarot e fazia sessões de leitura vagamente literárias no chão da sala para um grupo de amigos em maior ou menor estado de estupor (poético, digamos).



culpa de la tour abolie  no El Desdichado de Nerval.

Je suis le Ténébreux, – le Veuf, – l’Inconsolé,
Le Prince d’Aquitaine à la Tour abolie :
Ma seule Etoile est morte, – et mon luth constellé
Porte le Soleil noir de la Mélancolie.

Dans la nuit du Tombeau, Toi qui m’as consolé,
Rends-moi le Pausilippe et la mer d’Italie,
La fleur qui plaisait tant à mon coeur désolé,
Et la treille où le Pampre à la Rose s’allie.

Suis-je Amour ou Phébus ?… Lusignan ou Biron ?
Mon front est rouge encor du baiser de la Reine ;
J’ai rêvé dans la Grotte où nage la sirène…

Et j’ai deux fois vainqueur traversé l’Achéron :
Modulant tour à tour sur la lyre d’Orphée
Les soupirs de la Sainte et les cris de la Fée.


- -
com tradução e notas.

- -
[coisas tão divertidas que até doem: o jogo a que o dito-jornal Público chama um 'produto cultural' é o mais caro de sempre, 500 milhões de dólares. blablabla aliens, 'luta para manter a paz', blablabla, terra em perigo, blabla. o dinheirinho não servia para coisas melhores, pois não.]


Tuesday, September 2, 2014

Küf or Mold, by Ali Aydın




The greenish hues, the stillness, the outdated and worn out buildings and people are closer to the American conspiracy movies of the seventies than anything else, with a strong melancholy Anatolian twist. If one watches Mold unprepared, the film will be placed somewhere in the past. As it is, the story is closer to home than one might think. Exhibited in festivals and art houses in 2013, the film provides an eery context to the Istanbul events of June 2013.

Mass graves are uncovered almost every year in Istanbul, many of the dead are Kurds from the PKK, but not only. Mold is about one father whose son has disappeared and has been missing for the last 18 years.
(...)

“In the past, Turkey was proud of its underground mine treasures; now Turkey has more to be proud of, such as skulls and bones from unsolved murders,” Republican People’s Party (CHP) Deputy Chairman Sezgin Tanrıkulu said Jan. 15 during a visit to the area.

Kül
is Ali Aydın's debut film. It has been screened in MoMA and has won the Lion of the Future Award at the Venice Film Festival. Aydın comes from the field of contemporary art and, in his own words, ended up being a director by chance. Küf took him six years to write. Like Pelin, Aydın chose a transportation station for his set: this small place where people and carriages are always coming and going symbolize the crossroads in the character's lives. In Küf, the immobilism of the father, waiting for news for 18 years, contrasts darkly with the nature of his workplace.

site. Slant review. Rapporto confidenziale review.

The greenish hues of the film, the beautiful melancholic landscapes, the masterfully crafted sets with their carefully chosen objects, the diffuse light: a story of loss and longing that reads as a true work of art.


- -
chego a pensar que há tantos mortos na cidade como vivos, todos habitando as mesmas moradas, como no cemitério da colina de Eyüp. nos livros de Altun, para quem os mortos estão mais vivos do que os próprios, os edifícios são divididos entre soulless e os outros. esta noção, que carrego para o meu próprio olhar sobre todas as construções e cidades, altera paisagens. Hamburgo é uma cidade onde os mortos falam alto, parece-me, porque foram apagados das paredes das suas casas. 'reconstruir do nada', uma noção curiosa e que só cabe na inocência de alguns: a aldeia da luz reconstruída é um desses lugares soulless, que os vivos abandonam (e talvez onde nem os mortos queiram estar), os programas televisivos de decoração, ou bem - todas as coisas decorativas, se encarregam desse trabalho de retirar a memória e os mortos. como em Casa Ocupada, um dos meus contos favoritos de sempre, o que significa ocupar a casa? quem a ocupa? como somos expulsos de nós mesmos?

violento, este Kül.



Sunday, February 16, 2014

austerlitz

na primeira parte do livro um, dois aspectos (um pouco às cegas): uma espécie de escavação de motivos, o que leva um homem, um grupo, um país a ir para a guerra; e um espalhar de pontas soltas, tal como hansel e gretel espalhavam migalhas para encontrar o caminho de volta. inocentemente (até como o p. que acredita que fugir para outro lado ou assassinar os cabecilhas, não sei se ambos em simultâneo ou por que ordem, mudaria o rumo das coisas), eu e os planos limpos - devia ter pensado melhor e durante mais tempo na espuma e nas bolhas de ar em movimento líquido do verão passado. nunca são limpos, nunca é uma linha, não é euclides, não são duas cores e tudo nos escapa aos olhos, aos sentidos. a despedida de Andrei do seu pai: uma imagem primordial. Tolstoi não quer menos do que isto: a verdade.

(a biblioteca como túmulo de memórias)

entre Austerlitz, a derrota de Tolstoi, e a derrota de Austerlitz de Sebald. a memória envolta em matéria líquida, mais do que melancolia, mas também tristeza. ser espectador de um mundo perdido. perder precisa de razões, muito mais do que ganhar.

mais aqui.

'And with the unfailing memory for official matters that was peculiar to him, he repeated the introductory words of the proclamation … “and the desire, which constitutes the Sovereign's sole and immutable aim, to establish peace on a secure foundation, have determined him to despatch now a part of the troops abroad, and to make dispositions for carrying out this new project."'

Friday, October 11, 2013

Boltanski (o 'infraordinario')


aqui, no ccb, os mortos suíços.

voltava um pouco atrás: objecto = sensação = momento no tempo.
(interessante artigo: na Reserva, várias fotos são usadas várias vezes em vários contextos. será que estas fotos também foram reutizadas? a noção foto-verdade ou evidência.)

[onde consigo juntar dois autores, Sebald, Pamuk]

aqui, Inventaire des objects ayant appartenu à une vieille dame de Baden-Baden, um outro museu da inocência.

e aqui, inventarios de lo infraordinario.

[ou, na verdade, três autores: Sebald, Pamuk, Perec. afinal há coerência em mim]

"Es seguramente lo que más me fascina de otro francés, el escritor Georges Perec, un fanático del inventario. Perec a través de la escritura anota los sueños que ha tenido, los objetos que pueblan su mesilla de noche, aquello que encuentra a distintas horas y a lo largo de los días en la Rue Villin, y está esa tentativa de inventario de los alimentos líquidos y sólidos que engulló en el transcurso del año mil novecientos setenta y cuatro." (daqui)

Friday, July 19, 2013

o mundo, a vida e as estrelas

já em pensamentos alucinados, que devem fazer parte do verão. fui afastada da matemática depois do 9º ano, devia ter uns 13 anos, por imposição do sistema educativo da altura que me obrigava a "escolher" e que me permitia opções como religião e moral, antropologia ou sociologia e me obrigava a jornalismo mas que me impedia de ter matemática ou qualquer outra disciplina de uma área não humanista. penso que as qualidades desse sistema estão à vista, finalmente, nos dias de hoje (e a carrada de advogados em posições financeiras?).

qualquer disciplina que obrigue ao pensamento abstracto, como a matemática não aplicada ou a filosofia ou ainda a música ensinam a pensar, a elaborar sistemas mais ou menos complexos, conforme a capacidade de quem pensa, de reconhecer elementos, combinações, evoluções, perspectivas no tempo como no espaço e no intervalo que abrange os dois e ainda outros como a memória, a sensação, a percepção. a evolução e os sistemas (se nascesse de novo gostaria de acrescentar engenharia de sistemas ao que sei) vieram, pasmando, da formação seguradora; riscos, cadeias causais, investigação de ocorrências 'aleatórias' e etc. e assim encho-me de felicidade encontrando a matemática em autores-mestres da combinação (e este?) e da manipulação de cadeias de significado ou de acontecimentos, consequências, linhas lógicas, paralelismos, choques e desvios de rumo, influências e modos de interactividade entre pessoas, objectos, grupos de pessoas, cidades ou geografia, crenças e fábulas; a história enfim.

o que entendemos por conhecimento nasce dessa semente de desassossego que é a curiosidade e a vontade de saber como funciona isto, porquê, que os profetas bíblicos colocaram para sempre na mão de uma mulher. um orgulho.

(e obrigada ao Armando pela inspiração)

Saturday, July 6, 2013

'shadows and ghosts'

no blogue 91 dias em Istanbul. a imagem é, o mapa de uma ausência, o mapa de um delírio e que, pensando bem, podia ser feito com Sebald, especialmente Austerlitz, mas qualquer outro. em vez da mulher-sonho teríamos escritores, -Kafka- crianças e muitos mortos. este mapa condensa a mulher na obra de Pamuk.

"Intending to use them in my novel, I was imagining situations, moments, and scenes suited to these objects, many of which (such as a quince grater) I had bought on impulse. Once, when browsing in a secondhand shop, I found a dress in a bright fabric with orange roses and green leaves on it, and I decided it was just right for Füsun, the heroine of my novel. With the dress laid out before me, I proceeded to write the details of a scene in which Füsun is learning to drive while wearing this very dress."
Pamuk na quinta lecture em The Naïve and Sentimental Novelist.


imagem também de 91 days in Istanbul.
se este museu não fosse já tão sui generis, há a acrescentar os objectos que foram encomendados para parecerem transmitirem determinada impressão.

(e fazer alguma coisa sem ser assim, obsessivamente, será possível)

se a história se desenrola entre 1975 e hoje, não deveria existir já uma ponte sobre o Bósforo?

um site que eu não tinha visto. e uma review idem.

Thursday, July 4, 2013

'Words, Pictures, Objects'

I can't event start to express the pleasure I got out of reading the chapter 'Words, Pictures, Objects'. e não sei se o podia ter lido em qualquer outro ponto da vida, o que torna a leitura um pouco incómoda: quem sou eu, aqui, (ou, quem somos nós, aqui, pois eu é sempre nós, um eu sem significado) neste momento, depois de ver e ouvir e saber tudo isto, depois de Morsi ter caído com novo golpe de estado, depois de um arrufo de quatro milhões, depois de ter vivido sob t.s. eliot muito tempo, depois de sebald, depois da obra quase completa deste autor, depois de muitas outras conclusões que não são para aqui chamadas, depois de ashbery e do escudo de aquiles, depois do incrivelmente poético black elk speaks, depois da p.i. ter ido embora, depois de brit bass, depois do prado, depois dos sons da praia de eastbourne, depois de morrer saramago, depois de alexandra, depois de afonso cruz, etc.

para o mal dos direitos da cópia, terei de o trazer para aqui. este final que sei que não o é, mas o iniciar de outra coisa, ou um desvio grande.

esta é a cara de Anna Karenina que foi pintada dez anos depois da publicação do livro.


Friday, June 28, 2013

uma boa imagem

para acompanhar um livro de Sebald que neste momento não recordo qual é: a descrição de Hamburgo depois dos bombardeamentos ingleses, embora esta cidade seja Berlim em 'A Woman Reading', de Gerd Baatz. uma série tremenda de imagens semelhantes nesta galeria: Berlim, 1945.


(as construções, e não o jornal, são parecidas com os castelos que carrego dentro da cabeça)

Friday, April 26, 2013

Blaufuks and Sebald

artigo a ler, história de uma imagem. (casafeita, a seguir, landscapes)

Wednesday, April 17, 2013

bónus


Blaufuks é o fotógrafo português de quem mais gosto. talvez o prefira por fotografar espectros e presenças pouco nítidas, que é o que vemos na nossa realidade. ou porque tomei por referência os seus objectos solitários atravessados por luz oblíqua e que retratam mais do que os seus retratos: caras antigas e de olhar fixo para a fotografia oficial. os seus fragmentos de documentos, cópias de notícias, documentos históricos são a película superior do real.

as cores e a luz, melancolia e memória. acima de tudo gosto das janelas de quartos descoloridos que deixam entrar a luz difusa, e tantas vezes há cortinas.

Sob Céus Estranhos é uma imagem espelhada de Sebald. aqui os textos são as imagens do escritor, as imagens as suas palavras.

se acrescentei ideias, possibilidades, viagens, com a Unless You Will e com as imagens de urbanautica, Blaufuks foi sempre a minha base, mesmo que só me tenha apercebido disso hoje, ao folhear este livro.

à espera de ver Fábrica. para ler.

no fundo do fb, uma maquete do grand canyon com um sinal de localização, you are here, à beira do abismo. à beira do abismo numa maquete. foi com as imagens americanas que, ainda na faculdade, o comecei a seguir.

este livro foi agora um bónus oferecido aos assinantes da novíssima granta portugal. (uma revista em processo de ikeaização). para já, os bónus ultrapassam a própria.

(para ver)

Motel foi um marco na minha vida.

Friday, February 1, 2013

melancolia, ruínas e o fim do império



um livro para opôr a Sebald: uma obra sobre a memória, auto-reflexivo, com a interferência de imagens. se em Sebald estas contribuem para o enigmático clima, as de Pamuk são documentais, mas não só - bastando ler o decifrador de caras em Jardins da Memória para o saber. onde cabe aqui a ficção, um ponto a descobrir ao longo desta obra. em Sebald vê-se bem o labirinto: personalidade, realidade, história colectiva, discurso oficial e mentira. em ambos, a melancolia da derrota.

[estes são autores derradeiros de uma já bygone era: o pós-modernismo. hoje temos massificação, globalização, revolução tecnológica. o mundo mudou.]

- -

"Sebald treats the relationship of text and image with far greater wariness. He demonstrates their allure, their tensions and their treachery indirectly, unobtrusively, and non-directively. While Sebald’s Austerlitz, like Orhan Pamuk’s Istanbul, deploys photographic images, apparently in the manner of more or less conventional illustrations, the volumes always resist, in a range of ways, demeaning the photograph into mere illustration of the text, or vice versa. In this way Sebald’s novel disrupts historicist narrative devices in a Benjaminian mode."  (daqui)

em Pamuk, tanto as imagens como os objectos iniciam e provocam as histórias. não as ilustram. (aliás, a relação texto - ilustração é interessante também em outro contexto, por exemplo Gaiman - McKean, e várias outras duplas colaborativas )


Thursday, November 8, 2012

desejo:

Searching for Sebald.

de um dos comentários: "This is a large, handsome book that focuses on W.G. Sebald's use of images, principally photographs, in his literature. The premise of the book is that Sebald's use of photographs was (almost) as ground-breaking in the field of the visual arts as his prose narratives (enhanced of course by his photographs) were in the field of literature. The book contains about forty articles or pieces dealing with, or illustrating, Sebald's use of images or how it has influenced others."

e

"Searching for Sebald suggests a model for new investigations in the burgeoning field of visual studies."

problema: a versão em novo são $400, em usado $130.

a propósito de "But the written word is not a true document.", embora... não sei, só vendo.






Wednesday, October 10, 2012

gran finale

souvent, para falar de Peter Handke rebusca-se Derrida e Blanchot. depois das horas passadas com Pynchon (passadas por mim), não há desejos de revisitar Blanchot. para silêncios, prefiros os mais sintéticos de Cage.

ou olhar para trás. Ford e Handke têm afinidades que vejo apenas porque li um depois do outro. não fosse isso e não tinha visto: a mesma existência de subúrbio, sendo que os subúrbios da América e os subúrbios europeus são muito diferentes; a mesma obsessão por detalhes do quotidiano, por vezes prosaicos, e que vejo em muita fotografia; o mesmo modo de negar ao leitor os prazeres do enredo e de  um resolução, o obrigatório final de filmes e livros comerciais, séries televisivas, até concursos acéfalos com os seus gran finales.

A Tarde de um Escritor tem tudo a ver com a caminhada de Walser.  talvez Handke tenha tudo a ver com Walser, mas isso não posso assegurar por palavras, neste momento. Walser sorria ao descer a rua e a expressão de Handke é branca. ambos saíam de si para se verem melhor, a imagem aproveitada por alguns filmes de quinta categoria, americanos pois, a out-of-body-experience (believe it or not).

ver, por exemplo, isto:

"A central paradox in The Rings of Saturn therefore is the discrepancy between the seemingly innocuous and restorative rural landscape dotted with country homes and stirring ruins, and the memories of violence which once supported British, and more broadly, European imperialism. Sebald himself admits that he had "seldom felt so carefree as [he] did then, walking for hours in the day through the thinly populated countryside, which stretches inland from the coast". And yet only several sentences following this admission, the image of a rejuvenated spirit is abruptly crushed when he admits that exactly a year after he begins his walking tour, he is left inextricably stricken. In the Norwich hospital, he speculates that perhaps it was "the traces of destruction", he uncovered a year earlier during his walks through rural Suffolk that initiated his crippling illness. This tension however is inherent in the tradition of the walking tour as both a personal and a political act, a gesture epitomized by Wordsworth own recourse to nature as means of rejecting socialization. Similar sensibilities are reflected by German writers such as Robert Walser and Peter Handke, both of whom Sebald read and admired. [See for example Robert Walser, short story "The Walk" trans. Christopher Middleton, Selected Stories or Peter Handke's novel, Slow Homecoming (...)] In Robert Walser's short story "The Walk", the landscape becomes a site for meditation and chance encounters that inspire philosophical meanderings. Similarly, as we trace Sebald's walk, we also realize the paradox between the halcyon image of "deep England" -- seemingly detached from the circuits of imperial commerce, capital and consumption - and the violence that has historically supported this image."

Lucienne Loh em Beyond English Fields: Refiguring Colonial Nostalgia in a Cosmopolitan World.

(well...)
- -


o chamado Plano Nacional de Leitura, do qual sempre desconfiei mas que, em geral, penso ser uma iniciativa positiva que, em última análise significa que alguém pelo menos dá um pensamento àquilo, sendo aquilo a literatura para crianças - parece ter embatido num iceberg e agora há que fazer um pouco, ou muito, de controlo de catástrofe já que, julgo, o trabalho de anos foi subitamente pelo cano. não creio que alguém vá fazer qualquer controlo de coisa nenhuma, mas isso é outra coisa e é pena. (também há a questão do julgar um livro pela capa, mas nem vou por aí).

a escolha de livros é uma coisa muito particular, pessoal e transmissível só de vez em quando. um pouco como a comida que se põe no prato ou o comprimido que se toma para a dor de cabeça. o que funciona para mim não funciona para o colega do lado, isso parece-me evidente. incluir Shakespeare na lista dos tops de qualquer coisa, não é má ideia. há mil e um canons e não deve existir um sem este autor. já incluir Augusto Abelaira no cânone português, mas que lista? (não tenho nada contra Abelaira, muito pelo contrário, o seu cachimbo e uma fragilidade que eu lhe via. li a Enseada Amena sobretudo pelo título que sempre julguei ser tão luminoso). incluir quem, deixar quem de fora, por que critérios. o que sinto é mágoa pelos miúdos que não têm quem lhes escolha livros. (para castigar a nota de português, faziam-no copiar artigos da revista super interessante)

inscrevi-me num clube de leituras e já me arrependi, essa é que é a verdade.

Sunday, September 9, 2012

'curiosa variação'


"Em 1517, o padre Bartolomé de las Casas sentiu muita pena dos índios que se extenuavam nos laboriosos infernos das minas de ouro antilhanas, e propôs ao imperador Carlos V a importação de negros que se extenuassem nos laboriosos infernos das minas de ouro antilhanas. A essa curiosa variação de um filantropo devemos infinitos factos: os blues de Handy, o êxito alcançado em Paris pelo pintor e doutor uruguaio dom Pedro Figari, a boa prosa rústica do também uruguaio dom Vicente Rossi, a dimensão mitológica de Abraham Lincoln, os quinhentos mil mortos da Guerra de Secessão, os três bilhões e trezentos milhões gastos em pensões militares, a estátua do imaginário Falucho, a admissão do verbo linchar na décima terceira edição do Dicionário da Academia Espanhola, o impetuoso filme Aleluia, a fornida carga de baioneta comandada por Soler à frente de seus Pardos y Morenos no Cerrito, a graça da senhorita de Tal, o negro que assassinou Martín Fierro, a deplorável rumba “El manisero”, o napoleonismo preso e encarcerado de Toussaint Louverture, a cruz e a serpente no Haiti, o sangue das cabras degoladas pelo facão do papaloi, a habanera mãe do tango, o candombe."

Jorge Luis Borges na História Universal da Infâmia.

o que a ciência acaba por provar recorrendo a inúmeras observações e à análise de vasta informação, já a literatura o disse várias vezes e de várias maneiras.

em qualquer parágrafo reconhece-se a dimensão de Borges que teimo em ver como um velho cego a quem várias pessoas lêem livros, incluindo a quase criança Alberto Manguel. aqui põe-se o pé nas primeiras palavras da frase, com a confiança de uma nova página, um novo conto, e imediatamente se cai em desamparo total através dos séculos. uma flutuação de pena ou uma espiral, não sei.

 
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