light gazing, ışığa bakmak

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Sunday, December 7, 2014

Friday, November 1, 2013

1 de novembro

"1 de Novembro. Dia de todos os santos e de «pão-por-Deus». As crianças espalham-se pelas ruas e batem às portas.
- Pão... por Deus...
Nas arcas há nozes e castanhas e figos secos... A tradição manda que se encham bornais com «tenha paciência». Os pobres tiram o pão da boca para os filhos dos pobres. E os ricos sacodem as migalhas, em nome de Deus.
Dia de todos os santos - Dia de todos os pobres."
o princípio do capítulo iv de Esteiros, Soeiro Pereira Gomes.

que grande livro, Esteiros. o que mudou em tantos anos? ainda precisamos de ler Esteiros? absolutamente...

Friday, May 31, 2013

ir ao cinema

"A aventura deu assunto para risos e chacota, durante muitos dias. Bebeu-se pelo Gineto, que derrubava homens, como o Tom Mix. E no Domingo foram ao cinema rever-se no herói.
Juntaram capitais, em frente ao cartaz enorme colado na parede, no qual um cowboy, de lenço vermelho ao vento e revólver no cinturão, dominava um fogoso cavalo de patas no ar, sobre  desfiladeiro temível. Depois de muito soletrar, Gaitinhas avisou que era o Tim Macacoi em Cavaleiro sem Medo.
Gosto mais do Tom Mix – disse Gineto. Mas Guedelhas afiançou que a fita era genial.
Atrás deles, outros garotos ouviam sôfregamente os comentários.
– Deixa-me intrar contigo, Gineto – pediu um.
– O porteiro nã dá licença...
Pirica reparou-lhe no corpo de criança enfezada e gracejou: – Leva-o ao colo.
A campainha abafou risos de uns e pesares de outros. Vinha chegando gente. Junto do segundo cartaz, rapazes engravatados discutiam a beleza de Greta Garbo. Senhoras passavam, exalando perfumes, que as narinas dos garotos sorviam àvidamente.
– Que cheirinho, pá!
– Dê-me uma entradinha...
– Arreda-te, pequeno!
O guarda chegou-se e mandou abrir alas, para que o Arturinho entrasse, seguido do Sr. Castro e da mamã.
– Uma entradinha... – repetiu o Coca.
– Só me falta cinco tostões...
– Pra trás! – bramou o guarda. – Aqui não é sítio para pedir esmola. Quero a entrada livre.
Os gaiatos, em semicírculo, continuavam a enfadar quem passava. Ousado, um deles tentou esgueirar-se por entre as pernas das pessoas que entravam; mas o guarda trouxe-o para a rua, pelas orelhas.
O grupo do Gineto aproximou-se também, com alarido.
– Pouco barulho! – berrou um dos porteiros. – Inda vai tudo preso, daqui a nada.
– A gente tem bilhete.
– Então, entrem. Eh... Tu, não, que estás sem casaco.
– Prà galeria não faz mal. Deixe-me entrar...
– Já disse que não.
Gineto voltou para trás, furioso. Veio-lhe à ideia o fato azul que o pai lhe prometera no Inverno, e lágrimas de raiva afloraram-lhe aos olhos. Se o guarda não estivesse ali de pistola à cinta, havia de entrar, nem que fosse a golpes de canivete.
A criança raquítica bateu-lhe no ombro.
– Eu empresto-te este casaco, Gineto. Mas óspois contas-me a fita?...
Prometeu que sim. No seu corpo, o casaco parecia jaleca de campino; mas ele apresentou-se à porta do cinema, como se levasse na mão bilhete de camarote. Os porteiros riram-se. E os companheiros, lá dentro, tiveram pretexto para a primeira algazarra, que, apesar das imposições de silêncio, só terminou quando Gaitinhas e outros começaram a ler em voz alta as legendas, para que os analfabetos ouvissem.
Era um sussuro monótono a descer das galerias até à geral, que ficava à frente das cadeiras.
– Mais devagar! – berrou um rapaz, fraco em letras.
Também o Gaitinhas, deslumbrado com imagens e música, ia perdendo a fama de letrado.
– Atã nã lês, Gaitinhas?
– A fita anda muito depressa...
Pouco a pouco, inquietos pela chegada dos cowboys, os rapazes foram-se desinteressando da Greta Garbo. Não entendiam o motivo por que aquela cortesã sem vergonha, que, ali em frente de todos, já beijara dez vezes Armando Duval, recusava agora o amor do moço enamorado. Por isso Gineto cantou de galo na galeria, o que provocou altos protestos das senhoras chorosas, como se fossem elas a Margarida Gautier.
Na rua, a criança enfezada que emprestara o casaco tremia de frio.
O Coca abordava os retardatários e insistia:
– Deixe-me entrar consigo. Deixe.
Quando a fita acabou, os rapazes fizeram comentários soezes e escolheram melhor lugar. Gaitinhas escondeu-se atrás deles, para que o Arturinho, empertigado no camarote, não lhe visse os rasgões do fato. Teve desejos de lhe desmanchar o cabelo nédio com uma das bolas de papel que Gineto atirava da galeria.  Mas as luzes extinguiram-se, e Tim McCoy foi recebido com salvas de palmas.
Voltou o sussurro, como ladainha de fiéis. Todos compreendiam agora por que o cowboy arrebatara aos bandidos a menina da diligência. Gineto lembrou-se de Rosete e os companheiros desejaram a Doida. De vez em quando, estrugiam palmas e berros de entusiasmo, que os garotos da rua ouviam lá fora, atrás da porta fechada.
Aproximava-se o momento culminante em que o herói ia defrontar o chefe dos bandoleiros. Os rapazes mexiam-se nas cadeiras, sustinham a respiração, Gaitinhas roía as unhas e, sem saber porquê, tomava partido pelos bandidos, ao contrário do Sagui, que não desfitava o cowboy. Este descia a rua, em cuja esquina estava o outro, de revólver em punho. Mais um passo, e era a morte certa... Sagui, angustiado, pôs-se de pé na cadeira e soltou um berro, que se ouviu por todo o cinema:
– Cuidado, Macacoi, que o gajo 'tá na esquina!
Logo após, palmas e assobios reboaram na sala, porque o bandido fora dominado. E o miúdo sorriu-se por ter avisado a tempo o Cavaleiro sem medo.

Soeiro Pereira Gomes em Esteiros.
porque era estranho que este episódio não estivesse em qualquer lado, na net. procurando, também estranho que existam mais trabalhos ou artigos sobre Esteiros nas universidades brasileiras ou por pessoas brasileiras do que portuguesas. sempre achei piada ao papel das freiras, as mais fiéis guardiãs de um sistema que as segrega. na literatura assim é também, como na vida. depois da libertação dos anos sessenta, setenta e do império dos modismos na sociedade livre e de consumo, as velhas freiras persistem ainda mas de ideias renovadas: insistem em venerar como cool heróis que as depreciam com sarcasmo. Esteiros deprecia apenas os muito ricos, que hoje seriam chamados 1%, mas sem dúvida é vítima do canon e do modo engajado de fazer história.


para uma comparação de

Esteiros e Capitães da Areia, aqui.

Thursday, May 30, 2013

livros

tirado da Pó dos Livros:

Este é um livro de como os grandes grupos económicos (editoriais) decidem o que lemos. É um livro editado por uma livraria, o que logo à partida nos garante isenção das habituais expectativas de obtenção de lucro imediato.
«O que aconteceu com o trabalho dos editores não é pior do que sucedeu com outras profissões liberais. Mas a mudança que ocorreu no meio editorial é de grande importância. É apenas nos livros que investigações e argumentações podem ser conduzidas de forma prolongada e em profundidade. Os livros têm sido tradicionalmente o único meio no qual duas pessoas, um autor e um editor, concordam em que há algo que precisa de ser dito, e por isso a partilham com o público por um pequeno montante de dinheiro. Os livros distinguem-se nitidamente dos outros meios de comunicação social. Ao contrário das revistas, eles não dependem da publicidade. Ao contrário da televisão e do cinema, eles não precisam de ter uma audiência de massas. Os livros podem permitir-se ir contra a corrente, lançar novas ideias, desafiar o status quo na esperança de que, com o tempo, se atinja um público. A presente ameaça a estes livros e às ideias que contém, a que costuma chamar-se o mercado de ideias, constitui um perigoso desenvolvimento não só para a edição profissional, mas para a sociedade como um todo».

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que ainda hoje pensava da interferência de domínios estranhos na literatura: Esteiros é um livro de programa e nem o merece ser. podia compará-lo aos trabalhadores rurais de Steinbeck ou às cheias de Faulkner mas não creio em comparações desse tipo que soam a humilhação, como Aveiro ser a Veneza de Portugal ou Pamuk o Eco da Turquia, ninguém é outro, nesse sentido de um falso nivelamento em que alguns povos são automaticamente promovidos a melhores do que outros. também pensei que naquela altura, em que Faulkner e Hemingway trocavam piadas, ainda a literatura americana existia e não se tinha tornado um macdonald da escrita, fruto dos milhentos cursinhos de escrita criativa (procedimentos, tudo procedimentos e de procedimentos percebo porque os escrevo). e ainda: Pereira Gomes foi um 'melhor do que os outros' com compaixão numa terra de pobreza extrema, Alhandra. tinha estudado, era doutor e acabou morrendo como a mãe de Gineto, sem tratamento no fundo escuro de uma casa anónima. aqueles miúdos não puderam ser doutores e nenhum deles poderia ter contado a história. a sua história foi possível porque um doutor com compaixão se enamorou deles e lhes deu voz. um pouco mais tarde e um pouco acima no rio, Saramago pode escrever, ele que foi um dos miúdos e já não um estranho. (subindo ainda encontra-se Camões, um rio fértil). quem fez a literatura senão os poucos afortunados (the lucky few). de uma época de extrema felicidade em que tudo era possível, evoluímos para um afunilar de possibilidades mais consentâneo com o passado. mas é pena.


Tuesday, May 28, 2013

esteiros

(na verdade estou-me nas tintas para o neo-realismo).

não estou certa quando mas eu, tal como todos os miúdos da minha geração, tivemos de ler o Esteiros para a disciplina de português. não sei quem gostou na altura nem quem releu mais tarde que não fosse por razões de ideologia política. não me interessa por aí além a ideologia política nem o facto de ser um livro-bandeira do movimento neo-realista e do comunismo português.

a vida de Soeiro Pereira Gomes, como de muitos homens (e mulheres) da oposição ao regime, é admirável e digna de ser lida. não sei se Esteiros ainda faz parte do currículo, talvez não: seria uma boa ocasião para entrar na história de gente cuja realidade está muito longe das estilizações higiénicas dos textos escolares e das histórias da nação.

na altura em que li Esteiros, ainda criança, não me apercebi (só hoje, na verdade) que estava a ler sobre o meu próprio avô paterno, um companheiro, amigo e colega nadador de "Gineto" em Alhandra, o mítico Baptista Pereira, com quem atravessou a nado o Tejo tantas vezes. o meu avô paterno não teve nenhuma glória, nem a de ser mítico, nem, a de ser personagem de um livro-bandeira: nasceu viveu e morreu anónimo e com lugar nenhum em que cair morto, trabalhador braçal desde a infância, trabalhador do campo e mais tarde trabalhador fabril até quase à sua morte. não sei se chegou a ser proprietário de alguma coisa, por ele também eu estou hoje aqui a ler a história dos meninos do rio.

aqui também.

 
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