light gazing, ışığa bakmak

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Wednesday, October 10, 2012

gran finale

souvent, para falar de Peter Handke rebusca-se Derrida e Blanchot. depois das horas passadas com Pynchon (passadas por mim), não há desejos de revisitar Blanchot. para silêncios, prefiros os mais sintéticos de Cage.

ou olhar para trás. Ford e Handke têm afinidades que vejo apenas porque li um depois do outro. não fosse isso e não tinha visto: a mesma existência de subúrbio, sendo que os subúrbios da América e os subúrbios europeus são muito diferentes; a mesma obsessão por detalhes do quotidiano, por vezes prosaicos, e que vejo em muita fotografia; o mesmo modo de negar ao leitor os prazeres do enredo e de  um resolução, o obrigatório final de filmes e livros comerciais, séries televisivas, até concursos acéfalos com os seus gran finales.

A Tarde de um Escritor tem tudo a ver com a caminhada de Walser.  talvez Handke tenha tudo a ver com Walser, mas isso não posso assegurar por palavras, neste momento. Walser sorria ao descer a rua e a expressão de Handke é branca. ambos saíam de si para se verem melhor, a imagem aproveitada por alguns filmes de quinta categoria, americanos pois, a out-of-body-experience (believe it or not).

ver, por exemplo, isto:

"A central paradox in The Rings of Saturn therefore is the discrepancy between the seemingly innocuous and restorative rural landscape dotted with country homes and stirring ruins, and the memories of violence which once supported British, and more broadly, European imperialism. Sebald himself admits that he had "seldom felt so carefree as [he] did then, walking for hours in the day through the thinly populated countryside, which stretches inland from the coast". And yet only several sentences following this admission, the image of a rejuvenated spirit is abruptly crushed when he admits that exactly a year after he begins his walking tour, he is left inextricably stricken. In the Norwich hospital, he speculates that perhaps it was "the traces of destruction", he uncovered a year earlier during his walks through rural Suffolk that initiated his crippling illness. This tension however is inherent in the tradition of the walking tour as both a personal and a political act, a gesture epitomized by Wordsworth own recourse to nature as means of rejecting socialization. Similar sensibilities are reflected by German writers such as Robert Walser and Peter Handke, both of whom Sebald read and admired. [See for example Robert Walser, short story "The Walk" trans. Christopher Middleton, Selected Stories or Peter Handke's novel, Slow Homecoming (...)] In Robert Walser's short story "The Walk", the landscape becomes a site for meditation and chance encounters that inspire philosophical meanderings. Similarly, as we trace Sebald's walk, we also realize the paradox between the halcyon image of "deep England" -- seemingly detached from the circuits of imperial commerce, capital and consumption - and the violence that has historically supported this image."

Lucienne Loh em Beyond English Fields: Refiguring Colonial Nostalgia in a Cosmopolitan World.

(well...)
- -


o chamado Plano Nacional de Leitura, do qual sempre desconfiei mas que, em geral, penso ser uma iniciativa positiva que, em última análise significa que alguém pelo menos dá um pensamento àquilo, sendo aquilo a literatura para crianças - parece ter embatido num iceberg e agora há que fazer um pouco, ou muito, de controlo de catástrofe já que, julgo, o trabalho de anos foi subitamente pelo cano. não creio que alguém vá fazer qualquer controlo de coisa nenhuma, mas isso é outra coisa e é pena. (também há a questão do julgar um livro pela capa, mas nem vou por aí).

a escolha de livros é uma coisa muito particular, pessoal e transmissível só de vez em quando. um pouco como a comida que se põe no prato ou o comprimido que se toma para a dor de cabeça. o que funciona para mim não funciona para o colega do lado, isso parece-me evidente. incluir Shakespeare na lista dos tops de qualquer coisa, não é má ideia. há mil e um canons e não deve existir um sem este autor. já incluir Augusto Abelaira no cânone português, mas que lista? (não tenho nada contra Abelaira, muito pelo contrário, o seu cachimbo e uma fragilidade que eu lhe via. li a Enseada Amena sobretudo pelo título que sempre julguei ser tão luminoso). incluir quem, deixar quem de fora, por que critérios. o que sinto é mágoa pelos miúdos que não têm quem lhes escolha livros. (para castigar a nota de português, faziam-no copiar artigos da revista super interessante)

inscrevi-me num clube de leituras e já me arrependi, essa é que é a verdade.

Monday, October 8, 2012

e agora,

o que lerei a seguir. a conclusão difícil de uma obra longa por alguns motivos contraditórios: querer permanecer em muitos dos textos, querer ultrapassar algumas considerações por se repetirem ou por não terem grande relevância. a terceira e última parte falha por se alongar, apesar de ser a mais breve, mas não falha ao não apresentar saídas. os romances suburbanos, como são estes ou os da série Rabbit, são suburbanos por isso, por não existir uma saída, nem o final feliz, nem a conclusão ou desfecho tradicional de um problema já que não há problema mas um contínuo difuso e descolorido. também não há um final infeliz. aqui soubémos demais sobre Berner e o seu companheiro. o regresso ao campo do crime poderia ter sido todo o final sobre o qual se colava o frágil diário.

enfim, queixumes intimistas de leitura contemporânea em que quem lê se enche de direitos sobre o plot e sobre a marcha dos acontecimentos a tal conduzido pela longa permanência do contacto. o último livro que li com esta densidade de páginas foi a Montanha Mágica, cujo final (perfeito) queremos evitar, sirva para isso a memória.

no entanto, algo para recordar.

"I had believed for a while that he possessed significance, a rich subtext that was more than merely factual. But he did not (...) He wanted significance, there's no doubt (...) But he couldn't overcome the absence that was his companion in life and that led him everywhere. Reverse-thinking, the habit that had me believing there was significance when there was only absence, may be a good trait in the abstract. (It made me seem more interesting to my mother than I was.) But reverse-thinking can be a matter of ignoring the obvious - a grave error - which can lead to all manner of treacherousness and more errors" (...), na página 386.

essencial: the habit that had me believing there was significance when there was only absence. essencial para mim, para mais ninguém, para o meu fio condutor, para que os factos que eu ligo sejam possíveis de ligar. mas fora dessa necessidade minha, encontro esta wanted significance na quase totalidade da vida pública, da sociedade que se constrói a partir de fábulas vistas ao contrário, que necessita de evocar fábulas para existir, para lhe dar o significado que de outro modo não passaria de ausência.

... "to where I am today - it is all of a piece, like a musical score with movements, or a puzzle, wherein I am seeking to restore and maintain life in a whole and acceptable state, regardless of the frontiers I've crossed. I know it's only me who makes these connections. But not to try to make them is to commit yourself to the waves that toss you and dash you against the rocks of despair. There is much to learn here from the game of chess, whose individual engagements are all part of one long engagement seeking a condition not of adversity or conflict or defeat or even victory, but of the harmony underlying it all."

Ford em Canada.






Thursday, October 4, 2012

frosting

para experimentar: vanilla cream cheese frostingpão para seguir. e mais hummus para fazer-

em non-stop desde as 6 e cinquenta até às quase nove, apesar de ter estado à beira de comprar Benjamim, de Chico Buarque. mas há uma fila aguardando que eu abandone Canada, o que será difícil. está na hora de -

Wednesday, October 3, 2012

pretty


"Night + brilliant interior of cheap restaurant. Bright items: cherry wood counter + tops of surrounding stools; light on metal tanks at rear right; brilliant streak of jade green tiles ¾ across canvas—at base of glass of window curving at corner. Light walls, dull yellow ocre [sic] door into kitchen right. 
Very good looking blond boy in white (coat, cap) inside counter. Girl in red blouse, brown hair eating sandwich. Man night hawk (beak) in dark suit, steel grey hat, black band, blue shirt (clean) holding cigarette. Other figure dark sinister back—at left. Light side walk outside pale greenish. Darkish red brick houses opposite. Sign across top of restaurant, dark—Phillies 5c cigar. Picture of cigar. Outside of shop dark, green. Note: bit of bright ceiling inside shop against dark of outside street—at edge of stretch of top of window."

assim descrevia Josephine o que o seu marido Edward tinha criado durante mês e meio.

"I stood to the side and behind Florence, so I could see straight on to what she was doing. I'd only seen the painting of the grain elevator in Arthur Remlinger's rooms, and hadn't known what "the Nighthawk school" was, or as yet anything about Edward Hopper or how a person could make a design that would be recognizable out of just tubes of paint. I believed you probably had to perform eye exercises like my father did so you could see things very accurately.

Florence was painting in the middle of Manitoba Street. Her picture was nothing more than the view straight past the vacant post office and a pair of broken-in houses to the banks of the commercial row where I walked and that had been alive when Partreau was a whole town. The sky above the buildings had not been painted in yet and was only empty canvas. The elevator and the wheat fields that rose and widened beyond the train tracks toward the horizon were also still to come. I couldn't see why this would be a subject for a painting, since it was right there for anybody to see any time, and wasn't beautiful - nothing like Niagara Falls in the Frederic Church picture, or the flower arrangements my father painted with his numbers kit. But I liked it, which I should've said to be courteous. What I did say - and wished I'd chosen something better - was, "Why are you painting that?"

Wind pushed the dry weeds back and forth. The day was growing gray as the line of a front was closing out the blue sky to the east. Charley's whirly devices were spinning wildly. Swaying ribbons of geese were hurrying in from the north, catching the last of the sun. It didn't seem to be a good day for painting.

"Oh," Florence said, "I just paint things I like, you know? Things that wouldn't get to be pretty otherwise." She was holding her wooden palette with her left thumb struck through. Knots of different colored paint had been squeezed onto it. She'd mix two or three with her brush tip, and put paint right onto the canvas. What she was painting was exactly what I saw - which I guessed was the American Nighthawk style and seemed a miracle but peculiar. I also didn't understand what she meant by the post office being pretty in her painting. Since it looked like the post office I could see, it wasn't pretty at all."
Ford na p. 291 de Canada.

um primeiro parágrafo um pouco exagerado como é toda a comparação entre Florence e as flores do painting by numbers do pai, um potencial que não foi totalmente realizado. mas mesmo assim. havendo sempre a possibilidade de fazer o paralelo (esse interessante) entre Ford ele próprio e o que seria, na literatura, o painting by numbers ou o estilo arrevezado de Church.

é possível perguntar 'porque estás a escrever isso, não é bonito e pode ser visto todos os dias em qualquer lado'.

o exagero resulta da fina fronteira entre o velho professor que escreve uma memória como se esta fosse presente.

ironia subtil, essa sim, no terceiro parágrafo. depois de ter feito exactamente isso: pintado o dia com palavras (e não tubes of paint), termina dizendo que não parecia um bom dia para pintar. nesta sequência, o jogo -ficção vs. -"exactly what I saw".

pretty (ou esteticamente belo), como Friederike Brandenburg, por exemplo.

notei que dos candidatos ao Turner, nenhum é pintor. nenhum, igualmente, tem nada que seja pretty nesse sentido. quase posso dizer o mesmo do conteúdo da Magazine du Palais.

a exposição do Moderna Museet estava em cima do acontecimento. essas duas linhas coexistem, se bem que a idealista seja agora dominante e, penso, esteja em fase de declínio (ou seja, observação cruel, em fase de museu). ou ambas em fase de explosão.

ilustração de palavras? seguem-se:




(mais desta última, aqui)

Monday, October 1, 2012

ghost town

o capítulo 45 de Canada é admiravelmente visual e tenho vontade de o ler várias vezes, como penso que o farei, talvez com atenções diferentes a cada detalhe, como se de cada vez escolhesse um lado diferente da rua.  antes mesmo de o ler já o tinha visto inúmeras vezes no cinema e nos momentos de alguns fotógrafos.  como o personagem tivesse sido colado sobre aquelas imagens  -que percorre as ruas desertas tentando encontrar a sua própria identidade. é no vazio que a oportunidade de ser alguma coisa se apresenta, uma ideia tão americana. o métis, meio índio, meio trapper, é um facilitador.

interessante que no final deste capítulo tão descritivo o museu seja o lugar da imobilidade no espaço (a mãe era um museu, então). a vida é o fluxo.

"If my walks in Fort Royal were in pursuit of that town's difference from life I'd known, and to render myself reconciled to the new, then my inspections around Partreau, ony four miles distant, were of a museum dedicated to the defeat of civilization - one that had been swept away to flourish elsewhere, or possibly never.", na p. 250

"But when I inspected the little commercial frontages - an empty, pocket-size bank, a Masons' building of quarried stone from 1909, the Atlas shoe store with shoes scattered inside, a shadowy pool hall, a gas station with rusted, glass-top pumps, an insurance office, a beauty parlor with two silver hair dryers pushed over and broken apart, the floors littered with bricks and broken furnishings and merchandise racks, the light dead and cold, the busted back doors letting the damaging elements in, all establishments emptied of human uses - I found I always thought of the life that had gone on there, not of life cast aside. And not, as opposed to what I'd first thought, like a museum at all. I had more positive views. Which made me feel that although I hadn't been taught to assimilate, a person perhaps assimilated without knowing it. I was doing it now. You did it alone, and not with others or for them. And assimilating possibly wasn't so hard and risky and didn't need to be permanent. This state of mind conferred another freedom on me and was like starting life over, or as I've already said, becoming someone else - but someone who was not stalled but moving, which was the nature of things in the world. I could like it or hate it, but the world would change around me no matter how I felt."
na p. 253 (com uma pergunta que não é importante, uma hipótese: o que sucede primeiro, essa mudança subtil no decurso de Dell ou a criação de Partreau, o espaço vazio.) a favor da segunda hipótese, fala o próprio: “The first time and every time since then, it was sort of like being hit by lightning,” said Ford. “It just was a place that cried out to be put into language.”  desse momento até à entrada de Dell decorrem uns vinte anos, possivelmente as duas décadas que estão entre uma página e a outra.




Stephen Shore.

do you think that novels have pivotal lines?




Métis culture.

sobre as fronteiras, um dos grandes temas deste século, relembro Muntadas. ou a exposição temporária no Towner, em Eastborne (The Edge in Landscape), sobre boundaries and borders, onde gostei tanto de ver João Penalva, The Roar of Lions (aqui também). quando se passa uma fronteira, não se consegue regressar ao local de partida, diz Ford na entrevista.

Saturday, September 29, 2012

composto de mudança


“It’s been my habit of mind, over these years, to understand that every situation in which human beings are involved can be turned on its head. Everything someone assures me to be true might not be. Every pillar of belief the world rests on may or may not be about to explode, Most things don’t stay the way they are very long. Knowing this, however, has not made me cynical. Cynical means believing that good isn’t possible; and I know for a fact that good is. I simply take nothing for granted and try to be ready for the change that’s soon to come.”
Ford em Canada.

o final radioso da primeira parte, a que geograficamente decorre em Great Falls. pode ser este o  'coração do romance', o princípio abstracto que é demonstrado pela história de Dell. também se desconfia que aqui fale o autor. a mim, relembra-me porque gosto tanto de Richard Ford.


Wednesday, September 26, 2012

fall

na página 109
"Under the wind-whipped trees, my mother looked up through the arch of moving limbs and observed that the air had a seam of cold in it now (which I couldn't feel). She was sorry about it. We'd see some snow on the western peaks soon. Fall would be on us before we knew it."

e na pág. 125
"The sky had come unsettled again and windy, moving smells around. Flat, purple-bottomed clouds slid up out of the south. Whitecaps danced on the river surface and gulls soared in the damp breeze. There'd be a thunderstorm. It had been trying to all day. Fall was starting - our mother had been right."
Ford em Canada.

no outro dia disse-lhe que o ia ensinar a ler. olhou para mim como se fosse doida (eu já sei ler!). tive de especificar: vou-te ensinar a ler o que não está escrito.

nas aulas de literatura era possível ensinar várias coisas: como se descreve aquilo a que convencionamos chamar 'natureza' com personificações abertas ou disfarçadas, como as nuvens que se aproximam funcionam como um sinal de catástrofe ou como se pode transmitir um estado de espírito através dos objectos ou das nuvens. aqui dá-me gosto ver a queda de um anjo, a queda anunciada da mãe e as finas complicações que essa queda produz na integridade e na identidade do homem que escreve. no verão, eu dizia ao J. que tudo está contido na na literatura, melhor do que nos manuais. tudo menos aquilo que pertence aos sentidos e alguns vôos da matemática, mas esta teoria (errada à partida por ser uma teoria, um rearranjo tendencioso de elementos reais ou não numa ordem arbitrária) está em evolução.



Tuesday, September 25, 2012

lago

algumas coisas não podem ser feitas, algumas coisas não podem ser ditas, algumas coisas não podem ser pensadas sequer. a vida privada, a minha, encontra-se no meio de algumas personagens (sou um contorno nessa multidão) de Ford. Ford porque calha que o leio agora e porque, não em Canada, mas em histórias anteriores, se faz acompanhar de gente normal. contudo as personagens permanecem, mais longas do que as habitações ou do que as árvores mais antigas. e mesmo assim são um sopro de tempo, o que não serei eu. apesar disso sei bem que algumas coisas não podem ser feitas nem ditas nem pensadas. gosto de pessoas generosas, nem precisa que o sejam muito. já me derreto com só um bocado. gosto de quem não precisa de fingir nada, talvez ainda aquela coisa da lua a brilhar no lago.

Monday, September 24, 2012

planos (enquanto tudo se desmorona)

spiced apple coffee cake; apple crumble; carrot apple nut muffins; baked stuffed apple with nuts; apple galette; old fashioned apple pie; beautiful apple pie; pork loin with apples and sage; butternut squash and apple soup with chestnuts; tarte tatin; autumn fruit strudel;  slow cooked pork with spiced apple sauce; jamie's apple pie; apple sauce, apple phyllo turnovers; apple oatmeal cinnamon cookiesdoce de maçã, canela e amêndoa. French apple tart e a torta di Sant'Antonio!

é muito interessante que, antecipando o final da vida normal e a sua prisão anunciada, a mãe do protagonista de Canada tenha decidido passar três dias a limpar a casa de alto a baixo. parece-me uma atitude absolutamente razoável quando não se vê uma saída para o desastre iminente.


Saturday, September 22, 2012

montana


filho

de revisita ao Fogo do Céu, por via do goodreads onde continuo a depositar memórias antigas, momentos que estavam guardados em algum lugar, caras desaparecidas, casas que já não são, todo um passado fantasmagórico que é, -soma -soma, a identidade, revejo o estranho sentimento que me provocou aquela, como paradigma das outras, relação entre mãe e filho. para além da relação institucional, a corte da mãe sempre perto dos aposentos do filho, espacialmente na parte mais importante do palácio, aquela que era intocável, aquela que se opunha e decidia sobre outras mulheres, para além do sexo. o momento em que uma mãe envia o seu filho para a guerra e lhe diz ganha, esse o momento da relação que me enche de perplexidade, esse é o momento que define aquela relação ambígua, absorvente e, talvez, uma das mais significativas. não é por nada que a presença continuada da mãe na vida do filho tem sido contrariada em várias culturas, considerada perniciosa e incapacitante. em várias sociedades que privilegiam o todo comunal, os filhos são retirados para serem educados por tutores.

rica é a história desta relação e os desvios que possibilitou, o maior na psicanálise que a culpou a ela de quase tudo. para mim, o momento que não compreendo, o pico daquela montanha, é esse momento em que ela diz vai e ganha.

- -

a mesma relação cortada à força em Canada, vista de modo inverso: o filho que olha para a mãe e a tenta decifrar. decifrá-la é o ponto que precipita o romance. curioso que (não sei se dito se intuído) o deslindar das motivações e das fraquezas da mãe sejam maior motivação da escrita do que o contar da própria história. mas isto é apenas uma suspeita. desconfio que o ponto mais crítico do olhar para trás seja aquele em que o filho vê que a mãe independente, opiniosa e rebelde tenha sido afinal uma mulher fraca. também desconfio que seja este preciso momento que me afecta a mim, pessoalmente.

Ford um mestre do mergulho em profundidade nas várias relações que unem as suas personagens.

Friday, September 14, 2012

'all boats are looking for a place to sink'

RICHARD FORD: ... don't stop reading now, keep on reading.

 It's kind of like the old notion of all boats are looking for a place to sink. I think readers are looking for a place to get out of the book. And so it's my job to get them to the end. Somebody wrote me a letter not long ago and said that she didn't like my book at all. She thought it was bad, it was terrible.

JEFFREY BROWN: She thought she'd tell you about it.

 RICHARD FORD: Yes. She thought she would bring that piece of news to me. And I said, lady, I said, that's fine, I said, but you seem to have read it all, so for me it's win-win.

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Richard Ford em entrevista.
está tudo estranho. o calor excessivo quando queria já estar no inverno, o assentar difícil no novo ano, as rotinas on the verge of collapse, a tortura televisiva e a guerra de palavras, o incerto, a velhice e a doença. o medo, talvez. amanhã. The Lay of the Land foi para mim há cinco anos, para o escritor imagino que tenham sido seis anos de permeio entre um livro e o outro. refiro-me ao enorme Canada, que vi [quero!] na Shakespeare & Co., um pouco antes de comer aquela baklava. não sei se todas as células do meu corpo se renovaram entre aquele momento e este, não sei o que resta de mim,  na verdade, sou a mesma e sou outra. voltar à América de Ford é como um retorno nostálgico à infância em que os objectos e as casas nos parecem de repente tão pequenos. como se o retorno fosse possível.

(Montana gothic)

Canada (no Montana) parece ser, para o seu autor, uma obra de consagração.

 
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