light gazing, ışığa bakmak

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Thursday, March 16, 2017

sophia

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

- -
verdade que também gosto do Ausência.



Sunday, June 28, 2015

belo livro

que o j. me devolveu depois de sei lá quantos anos extraviado. são as Líricas Portuguesas, uma colecção escolhida por Jorge de Sena e este é o primeiro volume. Sophia e Ruy Cinatti. e muitos outros.

Paisagem

Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exalação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.



Sophia de Mello Breyner Andresen

Saturday, June 20, 2015

coisas que leio e que me deixam totalmente aliviada


porque pelo menos alguém viu isto (!) e não ando a falar sozinha (ou ando, mas não faz mal). há palavras que me deixam doente, entre as quais vivências, e quando são vivências subjectivas então meu deus. outra é a alma mas enfim.

muito a ler, devia ser trabalho de casa.

A música do ser
Povoa este deserto
Com sua guitarra
Ou com harpas de areia

Palavras silabadas
Vêm uma a uma
Na voz da guitarra

A música do ser
Interior ao silêncio
Cria seu próprio tempo
Que me dá morada

Palavras silabadas
Unidas uma a uma
Às paredes da casa

Por companheira tenho
A voz da guitarra

E no silêncio ouvinte
O canto me reúne
De muito longe venho
Pelo canto chamada

E agora de mim
Não me separa nada
Quando oiço cantar
A música do ser
Nostalgia ordenada
Num silêncio de areia
Que não foi pisada

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


para encontrar as paz nas palavras: " ideia de poesia como escuta das coisas essenciais, primordiais. A “música do ser” advém da procura da “ordem intacta do mundo”, da perfeição, da totalidade, da pureza e da harmonia."

Friday, February 20, 2015

a vida dos objectos

também a propósito de um livro que "saíu" há pouco tempo em português: a história do mundo em cem objectos e que me fez por alguma razão pensar que esse livro não estaria completo sem o papelinho que vinha com as pastilhas Gorila. hilariante, a passagem em que o narrador conta como deu os sofás e outros móveis da sua tua-avó Léonie à casa de meninas que frequenta mais tarde e o arrependimento que sente de cada vez que olha para eles e imagina que através dos seus olhos também a sua tia pode fazer ideia do que ele fez com a mobília.

a mobília é parte viva das histórias, no Tempo Perdido, como a banqueta de Swann, testemunha de uma imaginada inimizade e testemunha mais tarde de um apreço. andando para a frente e para trás só podia pensar na Relíquia e em dona Maria do Patrocínio. noutro registo e apenas porque reli a história há pouco tempo, os objectos do homem rico na Fada Oriana.

ainda sobre a vida dos objectos: o absolutamente genial altar portátil em exibição no Museu de Marinha. o armário, um altar em madeira que se abre e fecha com o santo, e que era levado nas naus para que se pudessem celebrar missas por esse mundo fora.


(o gozo que me deu explicar aos miúdos que era uma portable church)


Thursday, October 10, 2013

Petros Koublis (silence) ou outra nota para a Trienal

"The area that surrounds Athens is composed by a certain antithesis, as the vast urban surface meets with the countryside.
Surrounded by the silence of centenarian olive groves, meadows, mountains and seas, the city today struggles to carry the weight of its own existence, facing a rather tough and tense present. This is a prolonged silence that seems to surround the loud and desperate cry that comes out of the capital city.

With more than 4 million people living today in Athens’ metropolitan area, the city itself is a controversial image on its own, sketched by the difficult palpable reality that everyday an increasing number of people have to face. It is a depression that gradually influences every aspect of life, economically and psychologically, in quite a dramatic and absolute way, as the consequences of this crisis are extending and the agony for tomorrow is constantly growing. Around the world, images of graphic violence, extensive riots and distressing poverty have been transmitted by the media, enhancing the depressed portrait of the city. The center of Athens has been the main scenery of the crisis that this country is going through and the drama in the streets of the city provided a visual narrative for the Greek Crisis chronicles.

The images of this project were made around the outskirts of Athens, less than 30 miles away from the heart of the capital. It is the area that surrounds the depressed city and all the millions of its citizens’ individual stories. Outside the invisible borders of the extended metropolitan area, in the land that lies behind the edge of the city, time seems to move parallel but in a different density. There is an inevitable contrast between the two states, a parable manifested by the discreet mystery that trees seem to hide among their branches and seas among their waves. This is an alternate state in parallel time, where silence seems to carry inside it a waiting, patiently whispering a long forgotten language.

There is no beauty that is timeless but the timelessness of nature can reflect a new direction, maybe even a hope.
It’s not a blissful silence but it’s an inspiring one."

texto que acompanha a exposição In Landscape de Petros Koublis e que interessa compara com a de Azade Köker, duas cidades em países contíguos, um dentro e outro fora da 'comunidade europeia', um abismo político entre eles, um abismo de situação. se o que é imposto pelo poder aos cidadãos de um estado fosse facilmente visível, esta seria a janela de observação. apesar das diferenças geográficas que moldaram ambos os países, um que se extende pela longa Anatólia com as suas culturas particulares, outro que se espraia em ilhas ou sobe pelos balcãs (verde escuro): mas ambos comunhando tantos lugares e, no entanto, hoje, poderiam estar em ilhas opostas.

sobre a Grécia gostei de ler a comparação de Tabucchi: a Ítaca de Homero, a Ítaca de Cavafy, a Ítaca de Sophia. com Tabucchi, diria que estes são os únicos lonely planet que interessam.




 em termos sonoros seria o silêncio grego contra o clamor turco. o despojamento vs. exuberância.

 
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