light gazing, ışığa bakmak
Wednesday, October 17, 2012
seemingly incompatible.
em Italo Calvino: A Journey toward Postmodernism, de Constance Markey.
(parte do trabalho de casa)
certo que este livro póstumo [O Caminho de San Giovanni] se faz de contos rescritos ao longo do tempo e que não são ficção mas um registo da memória, as palavras com que tenta fazer perdurar edifícios e ruas que já não existem. Calvino quer lembrar, Handke quer esquecer.
o primeiro parágrafo refere-se ao abandono do neo-realismo.
e, um pouco mais à frente, sobre o Castelo e as Cidades Invisíveis:
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Ana V.
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Monday, October 15, 2012
'Que assunto era o dele, o do escritor?'
"Que assunto era o dele, o do escritor? Teria cabimento no seu século, um tal assunto? Existiria um homem capaz de ser apontado como exemplo, um homem cujas acções e sofrimentos exigissem não só serem relatados, arquivados ou transformados em temas de livros de história, mas também transmitidos sob a forma de epopeia ou simplesmente de uma canção? E a quem Deus destinasse um canto de louvor? (E que tivesse ainda a força de elevar a sua queixa a um deus ausente?) Haveria algum soberano que, tendo reinado longos anos, devesse ser aclamado com qualquer coisa mais que tiros de canhão? E onde estaria um sucessor que ao subir ao poder fosse acompanhado com qualquer coisa mais que as luzes dos flashes? E onde os vencedores olímpicos, cujo regresso merecesse mais do que gritos de "bravo!", acenos de bandeirolas e uma fanfarra? E que assassino de povos deste século poderia ser para sempre enviado para os infernos com um simples terceto, em vez de, a cada pretexto, sair do covil? E como é que era possível, perante o fim do mundo, já não apenas imaginado mas tornado possível de um dia para o outro, dar espaço às coisas boas do planeta - sob a forma de uma estrofe ou de um parágrafo sobre uma árvore, um país, uma estação do ano? Onde é que ainda existia esse vislumbre da eternidade? "
Handke em A Tarde de um Escritor.
embora visceralmente recuse Handke enquanto o leio, esta página poderia ser uma tese, uma bíblia ou a voz monocórdica de uma locutora a ler o texto de um documentário sobre o século xx. também poderia ser um dos textos fundamentais para o ensino da literatura nas escolas. e contrariá-lo: um trabalho para casa.
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Ana V.
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Thursday, October 11, 2012
o escritor e os seus leitores
"Logo entre as primeiras casas, pouco antes do sítio onde a rua estreitava, passou por ele um bando de jovens que lhe dirigiu um olhar colectivo, não propriamente de reconhecimento, mas de incompreensão ou até de hostilidade. Imaginou que vinham da escola, onde deviam ter tido de designar o sentido ou a intenção ou a razão de um texto literário e, de novo em liberdade, concordavam unanimemente em não voltar a abrir um livro e em desprezar os responsáveis por uma tal obrigatoriedade."
Handke em A Tarde de um Escritor, na p. 43. um pouco mais à frente, na p. 45:
"Mas a sua má vontade não seria apenas delírio? Não, já tinha sentido muitas vezes que eles estavam realmente prontos a saltar, ávidos, sobre ele que era a materialização daquilo que odiavam, dos sonhos diurnos, da escrita, da contra-voz, sim, da arte. Espera até te apanhar em frente do meu guarda-lamas em campo livre; até te ter em frente do meu guiché; até tu te ergueres a meu mando do banco dos réus; até te prenderem a uma cama de ferro e até ser eu a dar-te finalmente as tuas injecções diárias."
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Ana V.
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Wednesday, October 10, 2012
gran finale
souvent, para falar de Peter Handke rebusca-se Derrida e Blanchot. depois das horas passadas com Pynchon (passadas por mim), não há desejos de revisitar Blanchot. para silêncios, prefiros os mais sintéticos de Cage.
ou olhar para trás. Ford e Handke têm afinidades que vejo apenas porque li um depois do outro. não fosse isso e não tinha visto: a mesma existência de subúrbio, sendo que os subúrbios da América e os subúrbios europeus são muito diferentes; a mesma obsessão por detalhes do quotidiano, por vezes prosaicos, e que vejo em muita fotografia; o mesmo modo de negar ao leitor os prazeres do enredo e de um resolução, o obrigatório final de filmes e livros comerciais, séries televisivas, até concursos acéfalos com os seus gran finales.
A Tarde de um Escritor tem tudo a ver com a caminhada de Walser. talvez Handke tenha tudo a ver com Walser, mas isso não posso assegurar por palavras, neste momento. Walser sorria ao descer a rua e a expressão de Handke é branca. ambos saíam de si para se verem melhor, a imagem aproveitada por alguns filmes de quinta categoria, americanos pois, a out-of-body-experience (believe it or not).
ver, por exemplo, isto:
"A central paradox in The Rings of Saturn therefore is the discrepancy between the seemingly innocuous and restorative rural landscape dotted with country homes and stirring ruins, and the memories of violence which once supported British, and more broadly, European imperialism. Sebald himself admits that he had "seldom felt so carefree as [he] did then, walking for hours in the day through the thinly populated countryside, which stretches inland from the coast". And yet only several sentences following this admission, the image of a rejuvenated spirit is abruptly crushed when he admits that exactly a year after he begins his walking tour, he is left inextricably stricken. In the Norwich hospital, he speculates that perhaps it was "the traces of destruction", he uncovered a year earlier during his walks through rural Suffolk that initiated his crippling illness. This tension however is inherent in the tradition of the walking tour as both a personal and a political act, a gesture epitomized by Wordsworth own recourse to nature as means of rejecting socialization. Similar sensibilities are reflected by German writers such as Robert Walser and Peter Handke, both of whom Sebald read and admired. [See for example Robert Walser, short story "The Walk" trans. Christopher Middleton, Selected Stories or Peter Handke's novel, Slow Homecoming (...)] In Robert Walser's short story "The Walk", the landscape becomes a site for meditation and chance encounters that inspire philosophical meanderings. Similarly, as we trace Sebald's walk, we also realize the paradox between the halcyon image of "deep England" -- seemingly detached from the circuits of imperial commerce, capital and consumption - and the violence that has historically supported this image."
Lucienne Loh em Beyond English Fields: Refiguring Colonial Nostalgia in a Cosmopolitan World.
(well...)
- -
o chamado Plano Nacional de Leitura, do qual sempre desconfiei mas que, em geral, penso ser uma iniciativa positiva que, em última análise significa que alguém pelo menos dá um pensamento àquilo, sendo aquilo a literatura para crianças - parece ter embatido num iceberg e agora há que fazer um pouco, ou muito, de controlo de catástrofe já que, julgo, o trabalho de anos foi subitamente pelo cano. não creio que alguém vá fazer qualquer controlo de coisa nenhuma, mas isso é outra coisa e é pena. (também há a questão do julgar um livro pela capa, mas nem vou por aí).
a escolha de livros é uma coisa muito particular, pessoal e transmissível só de vez em quando. um pouco como a comida que se põe no prato ou o comprimido que se toma para a dor de cabeça. o que funciona para mim não funciona para o colega do lado, isso parece-me evidente. incluir Shakespeare na lista dos tops de qualquer coisa, não é má ideia. há mil e um canons e não deve existir um sem este autor. já incluir Augusto Abelaira no cânone português, mas que lista? (não tenho nada contra Abelaira, muito pelo contrário, o seu cachimbo e uma fragilidade que eu lhe via. li a Enseada Amena sobretudo pelo título que sempre julguei ser tão luminoso). incluir quem, deixar quem de fora, por que critérios. o que sinto é mágoa pelos miúdos que não têm quem lhes escolha livros. (para castigar a nota de português, faziam-no copiar artigos da revista super interessante)
inscrevi-me num clube de leituras e já me arrependi, essa é que é a verdade.
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Ana V.
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TAGS Biblioteca de Babel, kiddos, O meu cinema é o meu cinema, Peter Handke, Richard Ford, Robert Walser, W. G. Sebald
Tuesday, October 9, 2012
correspondência unilateral
durante anos um homem envia cartas diárias a um desconhecido que vive do outro lado do mundo, assim é parte desta história. nas cartas, uma ou umas poucas linhas sobre a sua vida quotidiana: "Pode testemunhar que ontem mondei as ervas daninhas". e outras semelhantes, algumas de verdadeira súplica como o mundo começa amanhã, para mim. nem quero pensar em paralelismos ou coincidências. o mais que posso dizer é que vejo este universo fantástico (ai, o real) com as cores do genial Mattias Adolfsson.
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Ana V.
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Monday, October 8, 2012
que me vendeu o R.
"Desde que, durante um ano, o escritor viveu com a ideia de ter perdido a língua, cada frase que escrevia, sentindo ainda por cima o ímpeto da possível continuação, era para ele um acontecimento. Cada palavra que, não dita, mas escrita, dava origem à outra palavra, fazia-o respirar fundo e ligava-o de novo ao mundo; só com esse apontamento feliz começava para ele o dia, e então também bem podia ser que nada mais acontecesse até à manhã seguinte.", Peter Handke em A Tarde de um Escritor, que me remeteu logo para O Mal de Montano mas verdade que este é de 87 e Montano já deste milénio.
seja como for: a seguir, tudo se complica.
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Ana V.
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TAGS Peter Handke, Vila-Matas



