Tuesday, October 23, 2012

de que cor é a cor

(mas o que eu detesto gente idiota)

este ponto de partida para olhar para mais coisas. fazia as contas por alto: das decisões que tomei, em poucas posso dizer que tenha errado estrondosamente, apenas uma e por contas antigas com o sentimento de culpa que persegue qualquer cristão, cultural ou de outra natureza. piores foram as que não tomei, daí vieram cataclismos e abruptas mudanças naturais que, espera-se, não cheguem em futuro próximo. uma das decisões que tomei e que permanece uma das melhores decisões do meio século (quase) foi ir para letras. dizia-se ir para letras com uma carga significativa: não gostar muito de trabalhar, ser sonhador e pouco ligado à realidade, ligar pouco aos aspectos mais económicos da vida, ser professor para sempre, não gostar de matemáticas, ser de esquerda (pelo menos em Lisboa), ser subjectivo, ter poucas capacidades noutras áreas. talvez se assumisse isso. hoje, essa decisão tem ainda outro julgamento associado: a de se querer viver à conta do orçamento e a de ir para uma profissão pouco "empregável" (do modo que estamos e visto que 99% das profissões são pouco empregáveis em Portugal, seia preciso encerrar 99% do ensino superior por uma questão de consistência). claro que todas aquelas assunções não me diziam respeito então, como não dizem respeito agora. mantenho apenas: faz-se o que se faz porque é necessário, porque há necessidade interior, porque se é quem é e se deseja, acima de tudo. ou faz-se porque é necessário de fora, porque para atingir qualquer objectivo é preciso seguir um certo caminho, ultrapassar alguns obstáculos. quando era bem miúda, e depois da catequese, ia para casa e pegava-me na enciclopédia a ler sobre o budismo, magicava sobre as vidas seguintes que me pareciam todas tão nebulosas e incertas, longe da minha sala física e do sofá castanho com os livros em frente. o desejo.

pode-se ler como se deseja, a ver esta parte ou aquela. na escola, os miúdos pequenos são obrigados a ler contando sílabas e conjugando verbos. mas tarde espancarão poemas para lhes espremer significado, como diz o próprio poema. na universidade, o seu destino depende da bondade intrínseca do professor de literatura, que lhes dará, aos poucos que lá estão depois das filtragens das ideias assumidas, das castas económicas, das imposições de vontades, enfim, -que lhes dará o amor às tais letras ou que acabará com o resto dele e o transformará numa profissão ou numa carreira. uma das maneiras de ler é olhar para as cores.

acordar-comprar-café e tv de serão não me parece modo de existência, mas eu certamente não quereria deixar ir nada, pelo contrário. não se critica, não se gosta. respeito a convicção: eu estou cheia delas e todas  erradas, todas erradas em todos os momentos da vida que vivo, eis uma ideia que me fascina tanto e que gostaria de tornar o meu modo de ver toda a humanidade desde o início do tempo. é no tentar que se vive.

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Calvino morreu pouco depois de San Giovanni, mas não estou totalmente certa disto. não há tempo para transcrever eu própria aquelas palavras, mas gostei do campo antigo e dos cravos de San Remo que não vi quando lá estive, que não sei se continuam lá  ou se foram descontinuados por alguma quinta sustentável, ou seja, o campo antigo sustentado pela tecnologia mais elegante e sofisticada, e que me agrada. as caixas de joaninhas que seguem de avião, fantasio, ou de abelhas. e as chamadas de atenção para o desaparecimento das abelhas que pode pôr em causa o meu modo de vida, o modo consumista e fazedor de lixo. todas as ideias (erradas) de campo antigo são recriações mais ou menos patéticas do jardim do éden, o jardim inicial e neste labor surdo se continua, hoje com violações gritantes daquele espaço, violações imorais (que trarão um dia, quem sabe, a morte de todos os primogénitos). vive-se à sombra de árvores que foram os antepassados, vive-se simulando gestos mas não chega isso ou acabam as gerações. a meio da vida começam os não estou para issos, cada vez mais pesados e gordos década após década até ao final em que  não se está para isso e o isso é a vida. e talvez seja isso o budismo que eu lia no sofá, depois da catequese.


9 comments:

Tozzola said...

Revejo-me nalgumas dessas 'catalogações' mas no Alentejo a opção era apenas essa, de letras , apesar de ter alguma tendência para números e desmontar e voltar a montar brinquedos, legos along the way. Depois fui adaptando as oportunidades com decisões rápidas, daí até chegar às peças auto foram 5 anos, lentos e com algumas fossas fétidas :)).
Quantas vezes mandar tudo às urtigas e seguir levemente sem rotinas foi uma vontade quase certa, hoje vou experimentando isso, para sair de uma outra rotina mais confrangedora. E vai-se tentando, mesmo que o erro seja letra morta

Ana Vicente said...

Sim, é preciso pirarmo-nos de uma maneira ou de outra da situação em que escolher deixa de estar na ementa. (não sabia que a opção afinal não era opção para os alentejanos!)

Tozzola said...

no colégio onde estudava é que havia apenas essa hipótese, pois o quadro de professores era pequeno, numa altura de transição do secundário do 9º para o 10º, ou então só indo para a capital de distrito e as facilidad€s não eram muitas. Por isso, Humanísticas, com RP, Direito e Técnicas de Tradução de Francês

Ana Vicente said...

Técnicas de Tradução de Francês! as coisas malucas que nos fizeram na escola eheh, já me tinha esquecido de técnicas de tradução- Essa escolha foi restringida pela "castas económicas" onde o somos todos iguais não funcionava nem vai funcionar. quando me referia ao ir para letras era depois para a faculdade, mas é verdade que logo no 10º tive de decidir a minha vida, o que eu acho profundamente errado: com 14 anos eu tinha de decidir o resto da vida. vá lá, não escolhi mal...

Tozzola said...

eu decidi ir numa outra direcção, aos 18: voluntário para a tropa, Açores. uma mudança de estratégia pois ainda assim essa via universitária quase nada me dizia, queria acção e independência... e aqui cheguei, um auto-didacta em tudo o que foi profissional e pessoal

Ana Vicente said...

:) essa opção não era para mim! eheh

Ana Vicente said...

tozz, lembrei-me: fazendo as contas (catalogação), acaba por ser difuso aquilo que se escolheu mesmo daquilo por onde se foi levado a seguir. (acção e independência) a minha independência (sair da asa protectora, mas não da geografia) foi ir trabalhar aos 19 e estudar de noite em vez da vida doce de estudante.

Tozzola said...

mas sabes que eu fui para os Açores porque o meu pai tinha lá estado 40 anos antes, também na tropa; naquela altura não havia motivação nem outras perspectivas no Alentejo como vai havendo hoje, era tudo muito 'subsistência' e pouca inovação.
Fui para lá com ideia de lá ficar, mas um processo disciplinar trouxe-me de volta ao continente, no caso Sintra e por aqui fiquei

Ana Vicente said...

... até agora...

 
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