light gazing, ışığa bakmak

Monday, December 17, 2007

O Eclipse

Em noite gélida de quase Natal, diria que a escolha entre três paraísos perfeitos seria fácil: debaixo das cobertas com o "Eclipse", a expressão muda de Monica Vitti e as palavras vazias de Alain Delon, Piero, personagem oco na cidade deserta de Antonioni.



"The films of Michelangelo Antonioni are aesthetically complex - critically stimulating though elusive in meaning. They are ambiguous works that pose difficult questions and resist simple conclusions. Classical narrative causalities are dissolved in favour of expressive abstraction. Displaced dramatic action leads to the creation of a stasis occupied by vague feelings, moods and ideas. Confronted with hesitancy, the spectator is compelled to respond imaginatively and independent of the film. The frustration of this experience reflects that felt in the lives of Antonioni's characters: unable to solve their own personal mysteries they often disappear, leave, submit or die. The idea of abandonment is central to Antonioni's formal structuring of people, objects, and ideas. He evades presences and emphasises related absences. His films are as enigmatic as life: they show that the systematic organisation of reality is a process of individual mediation disturbed by a profound inability to act with certainty.", de um artigo sobre Antonioni no site por excelência do cinema, Senses of Cinema, escrito por James Brown.






Os filmes de Antonioni escapam os críticos e esgotam as críticas. "O Eclipse" agride com os seus contrastes e com a câmara presa ao rosto de Vittoria (Monica Vitti). O muito ou o nada que a impelem e que é impossível traduzir, simplesmente porque cada um de nós está encerrado dentro do seu próprio invólucro. A multidão da Bolsa e as ruas desertificadas. A mãe de Vittoria, contexto quase paisagístico de uma história que não serve qualquer propósito, e Piero, momento alto de um caracter sem história, sem densidade, sem fundo e sem consequência: as minhas impressões à superfície.

Antonioni fez alguns dos melhores filmes que já foram feitos na história do cinema, um pouco esquecido pelo que hoje se chama "cinema" mas que se limita a distribuir chupa-chupas e laranjada, o "Eclipse" é aquilo que o cinema poderia ter sido e não foi. Talvez daqui a um século se apague a chama do consumo, talvez volte a revolução, depois de todos nos termos gasto em sessenta por cento do tempo útil de vida em espaços acondicionados em centro comerciais. Talvez seja possível um novo Antonioni.

Para contar a história e dar os créditos, para contextualizar e um ensaio muito bem escrito sobre este filme, sugiro o site da Criterion, aqui. Fico-me sem mais para dizer, tão silenciosa quanto os sete minutos finais do filme, a rua deserta, o contorno exacto dos objectos à luz. Um final provocatório e genial, que foi cortado por vezes nos Estados Unidos, por - para eles - não fazer sentido, para mim das imagens mais fortes que já vi no cinema.

"Antonioni seemed to open up new possibilities with every movie. The last seven minutes of “L’Eclisse,” the third film in a loose trilogy he began with “L’Avventura” (the middle film was “La Notte”), were even more terrifying and eloquent than the final moments of the earlier picture. Alain Delon and Ms. Vitti make a date to meet, and neither of them show up. We start to see things — the lines of a crosswalk, a piece of wood floating in a barrel — and we begin to realize that we’re seeing the places they’ve been, empty of their presence. Gradually Antonioni brings us face to face with time and space, nothing more, nothing less. And they stare right back at us. It was frightening, and it was freeing. The possibilities of cinema were suddenly limitless." (Scorcese no artigo que indico em baixo)

"(...) a multiplication of perspectives that suggests a narrative equivalent to Cubism" (daqui); como Godard, o fio da narrativa não será o mesmo. A narrativa intromete-se na vida e questiona-a, o tempo é de dentro para fora e o espaço inóspito, um palco para o homem só que fala consigo próprio. O diálogo desejado que legitimaria, mais uma vez, a breve existência. Depois de Nietsche, os anos sessenta, e depois disso estamos nós, esquecidos e entretidos com os nossos gadgets.

O cinema como arte: "There will always be those who scoff at the idea of cinema as a form of art." (no NY Times), "In the cinema, as in the other arts, this is the most delicate moment - the moment when the poet or writer makes his first mark on the page" (o próprio Antonioni).

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Antonioni no "They Shoot Pictures, Don't They?"
"The Man Who Set Film Free", um artigo de Martin Scorcese sobre Antonioni no NY Times

1 comment:

FCC said...

Boas festas para si. Sobre Antonioni e Fellini concordo consigo - é arte do melhor que se fez e tem nada a ver com 99,9% do que, agora, se faz em cinema. E parabéns pois está numa região lindissima ( presumo eu...) - Góis;longos passeios nos pinheirais ( pinheirais??) seguidos de uma boa lareira e uma boa companhia é do melhor que há...
Boas festas e bons passeios
FCC

 
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