light gazing, ışığa bakmak

Tuesday, January 15, 2008

Self-help e a escrita, o que não se ensina



Sobre a vontade da escrita, gostei de ler Amos Oz, neste pedaço de "Contra o Fanatismo".

"Eu fiz-me escritor por causa da pobreza, da solidão e dos gelados. Era filho único de uma família de classe média muito baixa; na verdade, de uma família muito pobre de Jerusalém. O meu pai era bibliotecário e a minha mãe, de vez em quando, dava aulas particulares de História e de Literatura. Vivíamos num apartamento diminuto que se parecia com o interior de um submarino, cheio de livros em muitas línguas e pouco mais. Os meus pais encontravam-se com os amigos nos cafés. E levavam-me com eles porque eu era filho único e não tinham ninguém com quem me deixar em casa. Diziam-me que tinham de conversar com os amigos e que eu devia portar-me bem e, se o fizesse, no final haveria um gelado para mim. Bem, naquele tempo, o gelado em Jerusalém era mais raro do que a paz no Médio Oriente hoje em dia. Era um boato, uma lenda: só alguns felizardos podiam desfrutar dele.

Eu morria pelo gelado, mas os meus pais costumavam demorar-se a conversar com os amigos durante sete dias e sete noites sem parar, ou pelo menos, era o que me parecia. E tinha de fazer alguma coisa para não gritar nem ficar maluco. Assim, sentava-me ali e observava o movimento do café como um pequeno detective: gente a entrar e gente a sair... Como um pequeno Sherlock Holmes, reparava nas roupas, nas caras, nos gestos, estudava os sapatos, contemplava os bolsos e costumava passar o tempo a inventar pequenas histórias sobre aquela gente. Quem vem e de onde vem, qual a relação exacta entre aquelas duas mulheres e o homem da mesa do canto; as duas mulheres fumam, o homem não; uma parece muito amargurada, o homem quase não fala; uma fala a maior parte do tempo, a outra é bastante silenciosa. Tinha de inventar uma história. Algo assim: um jovem de aspecto temível, alto, estranho, sentado perto da porta, com um jornal em frente sem o ler. Olha em direcção da porta, espera. Uma, duas horas. Bem, não pode estar à espera de um gelado, está à espera de alguém. E eu inventava quem e porquê. E assim aprendi de alguma forma a morigerar a minha solidão, olhando para as pessoas, adivinhando, inventando, às vezes escutando ao acaso fragmentos de conversa e unindo-os, como um homem da Stasi. Pequenos pormenores de informação para criar, por vezes, um historial incriminatório. Devo confessar que ainda hoje faço o mesmo quando tenho de "matar o tempo", por assim dizer, num aeroporto, sentado na sala de espera do dentista ou de pé numa fila. Em vez de ler jornais ou coçar a cabeça, fantasio. É claro que algumas das minhas fantasias actuais não são tão inocentes como as minhas fantasias infantis dos dias do gelado. Mas ainda fantasio. E é um passatempo útil, não só para um romancista como para qualquer um de nós. Acontecem tantas coisas em cada esquina, na fila de cada paragem de autocarro, em cada sala de espera de uma clínicam, em cada café... Na realidade, muitos seres humanos atravessam o nosso campo de visão todos os dias e na maior parte das vezes não suscitam o nosso interesse: nem sequer reparamos neles, vimos silhuetas em vez de gente real. Por isso, se tivermos o costume de observar estranhos, com um pouco de sorte acaba-se por escrever histórias ao fantasiar sobre os que as pessoas fazem entre si ou sobre a relação que existe entre elas. Em todo o caso, sempre se pode passar um bom bocado e conseguir um gelado no fim: não é perda de tempo."

E o que se ensina. A ler.

2 comments:

Anonymous said...

Wow... grande tesouro, mais este. E útil para quem faz profissão do ensinar a gostar de ler e escrever [ou pelo menos a ter respeito por]. Guardado. ;o)

Boa noite, dulcemeia.

Ana V. said...

Tinha uns erros, espero que já não. Profissão ingrata, sempre pensei: aqui, com público limitado, escolho o programa e os horários...
Boa noite para ti, MAD
meia

 
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