não é propriamente glamorosa a entrada em Bruxelas pelo sul em direcção à gare du midi, o nosso terminus. esta manhã chove em Eastbourne tal como na maior parte desta europa um pouco mais a norte. salta-se daqui para ali e as diferenças são algumas mas no essencial somos as mesmas pessoas. nós, apenas agora, aterrorizados com a campanha de terror que se desenrola em Portugal, uma campanha de expulsão e de desânimo, de humilhação. sempre tivemos maus líderes, é capaz de ser uma fatalidade. como sermos pobres, talvez. (e como saltei de um nós europeus, para um nós portugueses)
a Grand Place estava, como habitual, cheia de gente, excursões e outras, milhões de câmaras com fome de registar um dos mais belos salões da europa. quando entrávamos, um rapaz ajoelhava-se perante a amada. era um pedido de casamento e a esperança contida neste gesto é bem capaz de me lançar para um mar de lágrimas. ela aceitou e ficaram depois abraçados durante muito tempo, no meio da praça. a seguir falaram ainda por muito tempo, virados um para o outro. estão algures nas fotos, um vulto de rapariga, de costas, com uma mala amarela.
na gare du midi, em Bruxelas, entra-se para o cais do eurostar e é como se fosse logo Inglaterra. a máquina debita libras e lá estão todos os sinais da ilha. este ano a ilha é olímpica, o país inteiro se deu a este esforço massivo, a nação lançou um imenso plano de segurança que inclui os pormenores mais remotos: as linhas nas gares a sul que servem os jogos estão pintadas de outra cor e há guardas. o túnel que fura a água do canal pouco mais é que o do Rossio, uns minutos mais e é tudo. os comboios subaquáticos são velhos e os bancos estão rotos. glamour ferroviário apenas um alguns tgv franceses, não todos, e na Áustria. de resto, toda a europa que conheço anda em caranguejolas mais ou menos velhas, apesar de algumas o fazerem a alta velocidade. não sei porque não temos alta velocidade para sair do nosso canto e sobrevoar a Espanha. era necessário. e de mercadorias nem falo, parece-me mais do que evidente. falhámos a revolução industrial duas vezes e não 'ferroviámos' o país como os outros. agora, em vez de corrigir a pobreza antiga, fechamos estações, como fechamos escolas, maternidades, hospitais, centros de saúde, farmácias. o país está a fechar e apenas não fechamos o que devia ser encerrado, o governo. aguardamos outro sebastião, aquele que nos virá resgatar.
eastbourne deve ser um centro de férias dos idosos de Inglaterra, pelo que vejo. andando pela avenida à noite, podemos olhar para o interior dos hotéis que se alinham frente ao mar do canal. os interiores são postais de uma era gloriosa do passado, à semelhança das nossas termas, mas em menor escala. pelas grandes vidraças vemos os grupos de amigos, os casais. cabelos brancos, os tectos enfeitados de estuques intrincados, os lustres e o mobiliário dourado. os hotéis promovem o entretenimento dos seus hóspedes com bailes e música ao vivo. andamos pela rua e o som escapa pelas janelas: o cantor de Sinatra a tocar um órgão de concerto portátil, melodias de Elvis noutro. naquele em que os hóspedes nos pareceram mais idosos, anunciava-se salsa night.
um pouco mais à frente, no pier, um clube com festa da espuma onde uma excursão de centenas de adolescentes alemães se instalou. vimos sair um grupo deles cobertos de espuma (fantasmas) que correram pela construção de madeira e lá em baixo, na praia, mergulharam na água fria do crepúsculo. quase ao lado da discoteca juvenil, outra casa de prazer estava encerrada para a noite, o victorian tea house.
muitas vezes se passeia dentro de livros, ontem calcorreámos páginas de Martin Parr. é preciso evitar essa ilusão, é preciso ver um pouco mais.
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