light gazing, ışığa bakmak

Friday, August 10, 2012

mont st. michel



mais uma foto enganadora para contribuir para o enorme espólio de fotos enganadoras sobre este local. finalmente não aconselho um local aos amigos, talvez a um inimigo. esta pequena povoação, que existe em minúsculas ruas aos pés da grande abadia, evoca um sem número de fantasmas humanos. eu tenho histórias melhores em casa. se há sítio que as multidões visitam para tentar ver ao vivo o postal que viram na casa da prima, é este. o resultado é uma multidão que ganha um corpo incontrolável e que enche todo o espaço disponível deste lugarejo, furiosamente. o calor, os milhares de pessoas que se empurram para não ver nada, as filas intermináveis para beber um copo de água e para tudo o resto, tornam o monte st. michel no mais próximo de um inferno terrestre. as grandes máquinas e trabalhos de movimentação de terras em redor do monte contribuem bastante para esta impressão, bem como a panóplia de línguas que se ouvem não nas ruas, mas gritadas bem perto do ouvido de cada um, dada a proximidade dos corpos. o monte todo transformado num enorme restaurante semi-fast food de terceira categoria.

descomprimida a frustração, e a frustração de uma má ligação que não me permite o habitual fluxo de fotos, inicia-se o dia no mar da mancha, com um sol que nasce entre a hora da ilha e a hora do continente. aqui me calo para voltar mais tarde, em imagens.

desisti da subida ao monte talvez a um terço da romaria de lojas e voltei a descer para ir caminhar no pântano que o cerca. é um espaço largo onde se ouvem pássaros e o vento e, hoje, as vozes longínquas da multidão que caminha. o pântano tem areias movediças e suponho que tenha sido esse perigo de vida a ditar a construção da abadia. os incautos devem morrer pelo caminho perante o olhar do arcanjo de ouro. a areia é muito fina e com a água faz uma lama cinzenta clara. a certa altura um grupo de italianos tinha escrito obscenidades na areia plana. escrevi outra coisa, apesar das imensas possibilidades.

havia as viagens literárias e havia a viagem como esta, uma viagem com carta baseada nas memórias, nos sonhos e desejos das pessoas que me foram (ou são ainda) muito próximas. posso dizer assim: um conjunto de desejos, ou, um grupo de pessoas vive na minha viagem. como se pode embarcar numa viagem feita por um desconhecido? porque se viaja? desta vez visito o local dos sonhos alheios, vestir a sua roupa por um instante, recordar episódios que não os meus.

as razões da viagem não são muito diferentes do meu método bibliotecário (i don't see any method at all, sir). no início tentei, talvez despoticamente, agrupar os livros por nacionalidade ou pelo, menos, por continente. ultimamente aquela ideia descambou para outra que me parece muito melhor: arrumo-os por fases da minha própria vida. fase em que li tal; fase em que lia tal e por aí fora. o tempo presente marco-o com uma vertical, por oposição às fileiras horizontais das fases passadas.


(multidão pr'a Marta). perto da entrada.


5 comments:

Pecola said...

Bolas, agora fiquei curiosa para ver o verdadeiro ambiente para lá da imagem.

Ana V. said...

check! :))

Alex said...

ahahah :D a vida para lá das fotografias de enciclopédia, um dos sabores da experiência. [tua] é isto. =o)))))

Ana V. said...

Sim, as enciclopédias já não são o que eram... ;)

Ana V. said...

é óbvio! :))

 
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