light gazing, ışığa bakmak

Monday, October 15, 2012

'Que assunto era o dele, o do escritor?'


"Que assunto era o dele, o do escritor? Teria cabimento no seu século, um tal assunto? Existiria um homem capaz de ser apontado como exemplo, um homem cujas acções e sofrimentos exigissem não só serem relatados, arquivados ou transformados em temas de livros de história, mas também transmitidos sob a forma de epopeia ou simplesmente de uma canção? E a quem Deus destinasse um canto de louvor? (E que tivesse ainda a força de elevar a sua queixa a um deus ausente?) Haveria algum soberano que, tendo reinado longos anos, devesse ser aclamado com qualquer coisa mais que tiros de canhão? E onde estaria um sucessor que ao subir ao poder fosse acompanhado com qualquer coisa mais que as luzes dos flashes? E onde os vencedores olímpicos, cujo regresso merecesse mais do que gritos de "bravo!", acenos de bandeirolas e uma fanfarra? E que assassino de povos deste século poderia ser para sempre enviado para os infernos com um simples terceto, em vez de, a cada pretexto, sair do covil? E como é que era possível, perante o fim do mundo, já não apenas imaginado mas tornado possível de um dia para o outro, dar espaço às coisas boas do planeta - sob a forma de uma estrofe ou de um parágrafo sobre uma árvore, um país, uma estação do ano? Onde é que ainda existia esse vislumbre da eternidade? "

Handke em A Tarde de um Escritor.
embora visceralmente recuse Handke enquanto o leio, esta página poderia ser uma tese, uma bíblia ou a voz monocórdica de uma locutora a ler o texto de um documentário sobre o século xx. também poderia ser um dos textos fundamentais para o ensino da literatura nas escolas. e contrariá-lo: um trabalho para casa.

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