"Galip pensou uma vez mais nas recordações felizes da sua própria infância.
Nesses tempos longínquos e felizes, o sentido da vida e a maneira de viver eram uma só e a mesma coisa. Nesses tempos paradisíacos, as mobílias com que enchíamos as nossas casas correspondiam aos sonhos que sonhávamos. Nesses anos tão felizes, toda a gente sabia que as ferramentas e os objectos, os punhais e os cálamos em que pegávamos eram o prolongamento não só dos nossos corpos, mas também das nossas almas."
Pamuk em Kara Kitap, O Livro Negro ou Os Jardins da Memória.
esse paraíso harmonioso em que o sonho e a realidade se sobrepunham, em que as palavras correspondiam a algo concreto, esse paraíso está tão longe de nós hoje como a galáxia mais longínqua. descrente, povo desiludido a quem os sonhos foram usurpados à força, assim estamos depois de outra descida do jardim das delícias. em geral, a 'verdade' está associada ao depois da queda, depois de termos tocado a maçã do conhecimento. aqui neste ponto do livro negro, não sei se a visão do narrador, se a visão da cultura a que pertence, a 'verdade' é a da caverna, é a dos tempos longínquos, antes de termos sido tocados pelo conhecimento ou, aqui, pelo cepticismo. sobre este parágrafo escreveria dez livros.
este vislumbre é para mim muito perturbador.
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ainda sobre o cepticismo ou sobre o seu contrário, mas aqui levado ao extremo do optimismo fora de moda, gostei de ler a crónica de António Guerreiro. (gosto sempre, leio sempre, desta vez coincidiu envolvê-la nas recordações do paraíso da infância de Galip.
light gazing, ışığa bakmak
Wednesday, December 12, 2012
infância
Publicado por
Ana V.
às
11:41 PM
TAGS Orhan Pamuk
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