light gazing, ışığa bakmak
Wednesday, December 26, 2012
prefácio a The White Castle, Pamuk
um prefácio revelador e sobre o qual podem ser ditas inúmeras coisas ou apontadas inúmeras linhas de obsessão: o jogo de espelhos, um quase síndrome sherezade, as várias teias de histórias, o autor do autor do autor, aparências e ilusões, a citação ou por vezes quase-cópias de obras inteiras para as tornar ficção enquanto a ficção se apresenta como história, personagens que surgem como pessoas e o inverso. se houvesse uma imagem para este autor, seria a de caleidoscópio. divirto-me a pensar que Vila-Matas (quando crescer) gostaria de ser Pamuk.
uma frase marcante no final do penúltimo parágrafo e que me deixa o desejo de a ler no original. a tradução acima, a partir do turco original, é de Victoria Holbrook (near fluent in Turkish, etcetc).
a tradução portuguesa desta frase foi: "Ao que parecia, as pessoas simples que viviam nesses bairros, se não imaginavam que aquilo eram Alcorões e não os colocavam num lugar de honra no cimo do armário, arrancavam-lhes as folhas para acender os fogões."
claro que se perdeu aqui a caligrafia otomana, um assunto que só por si evoca muita coisa ainda hoje, quanto mais do passado [este país alterou a sua caligrafia a certa altura para o alfabeto latino, um corte cultural fortíssimo], a referência ao Alcorão árabe como aquilo, e passar-se ao lado de -para mim ainda chocante- o facto de este ser um país sem ficção durante toda a sua história até há relativamente pouco tempo, ao século 19, com a influência francesa. a literatura era até então ou otomana e ligada ao poder secular mas acima de tudo religioso, com a sua filigrana poética e estilizada, ou era popular, oral e storytelling, tal como imagino que tenha sido a Odisseia (mas aqui imagino eu e mais nada). a imagem desta frase no final do parágrafo reflecte aquela dualidade: o poder espiritual do livro sagrado no local alto da prateleira; o aspecto quotidiano e prático e a ausência de livros nesse quotidiano pois as histórias são contadas e não escritas.
o autor assume-se como sendo Faruk (o outro), existe uma dedicatória falsa a uma irmã morta, irmã do autor ficcional e, ironia com humor literário, a epígrafe é uma citação de Proust (Marcel Proust, from the mistranslation of Y. K. Karaosmanoglu), ou seja, uma citação fictícia de um tradutor fictício. a edição portuguesa tem a epígrafe de Proust mas não diz ser "from the mistranslation", que é afinal o que interessa nesta epígrafe. [pois não é todo o Pamuk, ou até toda a literatura, uma mistranslation de todas as obras anteriores, uma biblioteca de babel?]
suponho que este 'trabalho' editorial seja chapa-sete para todos os livros traduzidos do género entertainment, ou bestseller. não compreendo que se dê o mesmo tratamento a este Nobel.
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por outro lado, como em outras críticas que vejo do outro lado, há uma divertida dificuldade em ler Pamuk sem o colocar no lado do inimigo, ou seja, sem o desvalorizar.
Publicado por
Ana V.
às
1:02 AM
TAGS Orhan Pamuk
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