light gazing, ışığa bakmak

Thursday, April 11, 2013

classes

o meu café divide-se pelas classes sociais à medida que o tempo passa: às sete da manhã são as raparigas que se instalam e falam entre si da vida doméstica e dos transportes, às oito são os trabalhadores de obras, jardins, electricistas, canalizadores de passagem, às nove é quando avança a maior parte das pessoas, o horário de maior promiscuidade, às dez são os trabalhadores mais tardios e as primeiras pessoas desocupadas, às onze claramente os ricos e os primeiros reformados, ao meio-dia chegam os funcionários de escritório para o almoço de quiche e sopa. este café não é típico de lisboa nem dos bairros mais antigos, mas é um exemplar perfeito de café de subúrbio calmo e que já foi mais próspero. por ser em local de passagem, as mais criativas misturas de classes cascaelenses são possíveis. o que não é de todo: rural ou do interior, aqui é tudo urbano. [e, portanto, na opinião de alguns, menos autêntico, opinião que não levo em grande conta].

recentemente juntou-se à clientela um grupo característico, o dos funcionários públicos, que foram deslocados do centro da vila para um novo edifício na fronteira da freguesia. os encontros tornaram-se mais hilariantes. os funcionários públicos saem às nove e meia em ponto em grupos de três ou quatro e vão a pé ao café. aí ficam uma meia hora a conversar sobre o 'serviço' e sobre as vidas de cada um. esta é a base da nação, a linha mediana, o senso comum, aquilo que é próprio, nacional, a garantia de que é aqui que  pertencemos. um destes dias um grupo de funcionários bebia o seu café quando um casal se levantou e saiu. ele com uma espécie de fato de treino, ela magríssima. ela para o seu Porsche Cayenne, ele para um Porche Cayman brilhante. os quatro, dentro do café, gracejaram eu ficava com ela, eu ficava era com o carro, num fosso maior do que aquele que nos separa da argélia ou de outro país ainda mais longínquo.

alguns dias depois vejo o mesmo casal, desta vez sem funcionários, ela ainda magríssima, ele sem destaque e anónimo. no final da bica, entraram ambos para um fiat seat que não era novo. e para mais: tomei consciência de que sou bem capaz de os conhecer.

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11/04/1994
Llegaron los primeros ejemplares de los Cuadernos. Tomo uno, lo hojeo, voy de página en página, de día en día y buscando los defectos que Clara Ferreira Alves le apunta (autocomplacencia, sequedad, falta de frescura, aún algunos más, no tan fácilmente condensables en la brevedad de fórmulas como éstas), y lo que encuentro es alguien (yo mismo) que habiendo vivido toda su vida con las puertas cerradas y atrancadas, las abre ahora, impelido, sobre todo, por la fuerza de un descubierto amor de los otros, con la súbita ansiedad de quien sabe que ya no tendrá mucho tiempo para decier quién es. ¿Será esto tan difícil de entender?
Cuadernos de Lanzarote I - pág.301)
José Saramago


em espanhol porque assim li, esta manhã.

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