light gazing, ışığa bakmak

Monday, April 1, 2013

skin (2)


um dia o a. disse-me que me tinha visto na estrada. eu ia à sua frente e ele tinha-me ultrapassado. conheceu-me pela mão que eu tinha fora da janela. este reconhecimento ficou-me na memória. Pamuk convoca a certa altura a memória fechando os olhos para recordar todos os cães que lá se encontravam. posso fazer o mesmo e fechar os olhos para convocar todas as mãos que estão na memória da minha vida. algumas recordo em segundos, outras saem da escuridão, outras estão perdidas para sempre. talvez esta seja uma boa maneira de distinguir as pessoas a quem estaremos para sempre ligadas, a memória claras das suas mãos. as mais feias, as mais inquietas, as mãos de onde as minhas tiraram o molde, as mãos mais bonitas. é possível seguir a cadeia de mãos no tempo pelas semelhanças na forma. é possível soprar alguma vida em mãos que não sentimos há muito tempo. vejo com nitidez as mãos da minha avó apesar de ela estar morta há já cerca de quinze anos.

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