de Snow, de Pamuk.
He pressed a raki glass into Ka’s hand and began to fill it. “What’s it about?”
“Everyone I’ve interviewed since coming here, everyone I’ve talked to. I agree with them all. The fear I used to feel in Frankfurt when I was walking in the street, that fear is now inside me.”
“I understand you perfectly,” said Hande, with a very knowing air.
Ka smiled gratefully. Don’t bare your head, my little beauty, he wanted to say.
“If, when you say you believe everyone you’ve heard here,” said Turgut Bey, “you mean to tell me that you believed in God while you were in the company of Sheikh Efendi, then let me make one thing clear.
Sheikh Efendi does not speak for the God we worship in Kars!”
“So who does speak for God here?” Hande asked.
Turgut Bey didn’t get angry at her. Stubborn and quarrelsome though he was, he was too softhearted to be an implacable atheist. Ka also sensed that much as Turget Bey worried about his daughters’ unhappiness, he
worried even more that his habits and his world might disintegrate. This wasn’t a political anxiety but the anxiety of a man who more than anything feared losing his place at the table, whose only pleasure was spending his evenings with his daughters and his guests, arguing for hours about politics and the existence or nonexistence of God.
The electricity came back on, and suddenly the room was bright. They were so accustomed by now to the random coming and going of the lights that no one bothered anymore with the rituals of power outage Ka remembered from his Istanbul childhood—no one cheered when the lights returned or asked whether the washing machine might be stuck in the middle of a cycle; there was none of the joy he had once felt in saying, “Let me be the one to blow out the candles”—instead, everyone simply acted as though nothing had happened. Turgut Bey turned the television back on and, having taken possession of the remote control, began to surf the channels. Ka whispered to the girls that Kars was an extraordinarily quiet city.
“That’s because we’re afraid of our own voices,” said Hande.
“That,” said I˙pek, “is the silence of snow.”
Feeling defeated, they stared grimly at the ever-changing television screen. As he held hands with I˙pek under the table, it occurred to Ka that if he spent his days doing nothing much at all, and his evenings holding hands with I˙pek and watching satellite television, he would live in bliss until the end of his life.
(de novo, todo o livro em .pdf, mas numa tradução diferente - e pior)
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tão longe vão apenas uns parágrafos.
1. num momento em família em que se discutem os hábitos do islão ou seculares, o pai de família oferece raki ao seu visitante (ka, um jornalista poeta imigrado na alemanha e recentemente regressado à turquia). basta considerar os últimos acontecimentos na Turquia para ver que este é um acto de alguém turco/otomano e da sua cultura contra a imposição religiosa mais fundamentalista do islão. o raki é, claro, a bebida alcoólica por excelência, equivalente em valor cultural talvez ao nosso vinho mas de significado muito mais alargado pois sempre que se instaurou um regime mais ligado ao poder religioso, na Turquia actual como no império otomano no passado, os bebedores de álcool são sempre vítimas de alguma perseguição e aquele hábito é visto como nefasto ou proibido.
2. fear. um tema neste livro, um tema na história recente da Turquia, um tema na história da humanidade: a história da dominação e, neste caso, no efeito dessa dominação e de que modo um regime autoritário influencia a vida particular de cada indivíduo. por outro lado, o 'medo' é aqui ligado ao ser emigrante num país estrangeiro mais poderoso, no caso a Alemanha. o medo de um emigrante num país que o não deseja comparado ao medo de um regime totalitário.
3. quem fala é Hande, a rapariga que quer usar o véu islâmico por convicção religiosa mas que é pressionada pela escola e pela própria família a tirar o lenço. a pressão é real: a escola (liceu) proibe-a de a frequentar e a família ameaça casá-la com um homem que ela não escolheu. podemos pensar que isto é Kars, nos confins da Turquia de há alguns anos, mas não é: em França é proibido (por Sarkozi) usar o véu islâmico na escola. neste aspecto (e em muitos outros, apesar de tantos e milhentos pesados pesares, os estados unidos são ainda um exemplo de liberdade religiosa). porque é que a proibição de usar o véu é aceitável e a proibição de usar mini-saia não é? a liberdade é apenas para alguns?
4. Ka, tal como o autor, está numa posição de não ser religioso, não saber se é ateu ou não, a posição de uma grande maioria de pessoas tanto nos países ocidentais como islâmicos. mas a privação da liberdade repugna-o, como também a nós, o leitor. assim, consegue Pamuk o diálogo islão-ocidente que na verdade não há: o leitor ocidental, que normalmente é contra a exibição de sinais ostensivos do islão encontra-se aqui, extraordinariamente, a seu favor.
5. fala de novo o homem que não é seguidor do Islão mais tradicional, colocando a tão antiga questão: quem pode falar por Deus, quem tem a legitimidade. esta questão tem sido causa de discussão também na igreja católica ao longo dos dois milénios da sua existência, causa de inúmeros cismas e separações.
6. Hande perdendo a 'upper hand' pela sua juventude: ela não questiona a autoridade do sheikh.
7. precisamente sobre o que eu escrevi há dias. o que é uma revolução, quando acontece, o que a torna possível, o que desejam todos os homens?
8. a electricidade a trazer de regresso o leitor à vida quotidiana, com os seus pequenos gestos e a sua realidade, fora das grandes questões filosóficas ou religiosas, um fantástico salto de contexto. por outro lado, pode-se falar em ter ou não ter, o que faz falta ou não, ricos e pobres, tão fácil que é habituarmo-nos a não ter. e a ter.
9. identidade, personalidade: sempre este tema em Pamuk. e ainda o medo tão profundo que se tem medo dos próprios pensamentos, dito pela personagem de quem mais se esperaria este pensamento pois a sua personalidade está em formação. a fragilidade poderia também estar associada ao facto de ser mulher, mas não vou fazer isso.
10. outro grande salto de significado. snow, no contexto anterior da história, significou deus: deus está em todo o lado. deus é aqui comparado ao poder autoritário, que está em todo o lado também, e ao medo. assim sinuosamente escreve quem não pode escrever - e não quer - directamente. nesta frase se justifica toda a literatura.
11. novo salto de contexto significativo: Ka não quer nada disto, nada disto lhe interessa realmente. o que Ka quer é dar as mãos à sua idealizada amada e ver televisão, todos os serões da sua vida. este pequeno parágrafo final foi mais tarde explodido pelo autor que dele fez O Museu da Inocência, de parágrafo a romance de 700 páginas.
uma amostra da escrita de Pamuk.
light gazing, ışığa bakmak
Wednesday, June 12, 2013
alguns parágrafos
Publicado por
Ana V.
às
11:24 AM
TAGS is13, Orhan Pamuk
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