tal como diz, aliás, o livreiro anónimo na Pó dos Livros:
"A biblioteca pessoal é uma espécie de espelho do que somos, como uma segunda pele, impressão digital única que nos distingue dos outros. Não há duas bibliotecas iguais. Em geral uma biblioteca pessoal torna-se curta, à medida que o proprietário, curioso, sedento de conhecimento, aumenta a sensação de biblioteca incompleta. A biblioteca pessoal pode ser tão pessoal como a roupa que vestimos, íntima, intransitiva, aparência do que desejamos ser, guardada só para nós como um erário precioso. A biblioteca pessoal não se constrói de um dia para o outro, a não ser que se herde uma, mas aí passa a ser impessoal e é forçoso que a leiamos para fazer dela a nossa biblioteca. Leva anos a construir uma biblioteca, livros e mais livros, sempre poucos, escolhidos a dedo. Uma biblioteca não é uma biblioteca pela quantidade de livros que contém, mas pelo carácter dos livros escritos por quem os outros deixaram o seu nome assinalado e para que, necessariamente, faça jus ao nome de biblioteca. Doutra forma é apenas um amontoado de papel, bibelots coloridos que servem de adorno a uma prateleira qualquer. E quem não entender isto, para quem não tiver sensibilidade nem espírito, basta apenas um mau livro para possuir uma biblioteca folgada."
e dar uma volta ao conceito e fazer a reconstituição da pessoa através dos vestígios que deixa na biblioteca pública? assim, procurando nas folhas de registo coladas nos livros se pode reconstruir um passado desaparecido, a memória, a presença espectral (como a mulher ausente através do lenço vermelho em My Name is Red). nos registos de uma determinada biblioteca poderia o bibliotecário mais intrometido pesquisar a minha história e saberia que depois deste livro veio aquele, por impulso, que aquele me fez ler aqueles outros, que viajei (talvez) com aquele na mala e que fui ao encontro das paisagens encerradas nas suas páginas. de novo o conceito de 'invocar', trazer à existência através de palavras.
"Ka’s final destination, the Frankfurt city library, was a modern, anonymous building. Inside were the types you always find in such libraries: housewives, old people with time to kill, unemployed men, one or two Turks and Arabs, students giggling over their homework assignments, and various stalwarts from the ranks of the obese, the
lame, the insane, and the mentally handicapped. One drooling young man raised his head from his picture book to stick out his tongue at me. My guide was not particularly interested in books so I left him in the coffee-shop downstairs and went to the shelves of English poetry. Here I searched the check-out slips on the inside back covers for my friend’s name;. Whenever I opened a copy of Auden, Browning, or Coleridge to find his signature, I shed tears for him and for the years he’d wasted away
in this library."
Pamuk em Snow.
light gazing, ışığa bakmak
Tuesday, June 18, 2013
biblioteca ("My library is in some sense my autobiography.", A. Manguel)
Publicado por
Ana V.
às
12:54 PM
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