light gazing, ışığa bakmak

Saturday, July 27, 2013

ana

"A ti Ana Arneira, com cuja amizade me honro, é um dos meus melhores conhecimentos da Gafanha. Mulher capazona, como por lá se diz. Acompanha-me pelo areal, e conta-me logo à primeira a sua vida. Tipo atarracado e forte, de grossos quadris, vestida de escuro, chapéu na cabeça e aguilhada em punho. O homem foi para o Brasil há muitos anos (− É o rei dos homes!... –), ficou ela e os filhos por criar. Criou-os todos. Netos, doenças, lutos. Nunca desanimou. A força que a sustenta é admirável, profunda e radicada, como a de quase todas as mulheres do povo que conheço. Deitou- se à vida – lavrou os campos. Vieram mais aflições e outras mortes.
– Então de que lhe morreram os filhos?
– Sei lá, a morte não se quer culpada. Era preciso sustentar a família. Pegou nos bois e no carrinho e começou a transportar sal da Gafanha para Mira. Fez mais: antigamente no Anão também havia companhas, e quando faltava um pescador a ti Ana agarrava-se ao remo como um homem e ia ao mar no barco. – Nem do diabo tenho medo. Só tenho medo aos cães loucos. – A extensa planície que atravessa, duas, três vezes por dia, é um deserto. A ti Ana vai e vem de noite, sozinha, com os bois que lhe fazem companhia. Agora tem um campo, barcos para o moliço, novos netos para criar – e olha cara a cara o destino sem esmorecer. A sua vida é uma grande lição de energia."
Raul Brandão nOs Pescadores.

nem era nela que eu pensei, mas posso garantir que ainda há Anas na Gafanha.

mais sobre as mulheres da Gafanha daqui, num excelente blogue de um gafanhão, tal como este (a quem espero que a vida retorne à maré alta):

"As mulheres da Gafanha merecem um estudo profundo sobre o seu papel na construção das povoações e das comunidades desta região banhada pela Ria de Aveiro. É certo que alguns estudiosos e escritores de renome já se debruçaram sobre elas, cantando loas à sua coragem, mas também ao seu esforço, desde sempre indispensáveis na luta de transformação de areias improdutivas em solo ubérrimo. Há décadas, e é sobre essas mulheres que nos debruçamos, elas eram as mães solícitas e amorosas dos filhos, mas também os “pais” que garantiam o sustento da casa, enquanto os maridos se aventuravam nas ondas do mar ou tentavam a emigração, na busca de mais algum dinheiro que escasseava em terra."


para visitar com calma, o Maritimidades.

(é verdade que o sal para o aquário de bacalhaus do museu onde estive há tão pouco tempo importa sal da Alemanha numa ria que tem os pés enfiados nas salinas e navega em barcos de sal? mas toda a malta acha isto natural?)




“Nas Gafanhas da Nazaré, da Encarnação, na d'Aquém, na do Carmo, na Vagueira,... em todas as Gafanhas de Ílhavo, as mulheres amanham a terra, durante o tempo (às vezes, dez meses por ano!) em que os homens pescam o bacalhau nos mares distantes da Terra Nova, da Gronelândia, da Costa do Labrador. Elas cavam, semeiam, ceifam e colhem: duramente, com sanha viril. E assim se bastam e aos filhos. Quando o marido vier da campanha, encontrará a casa cheia como um ovo; e branquinha, sem sombra de dívida: Então com a ajuda de Deus, ele poderá comprar mais um pedaço de terra. É assim com o Ribau, com o Chibante... com muitos outros. Com o Sarabando, também gafanhão e dos sete costados, não será bem assim: muitos filhos e todos pequenos ainda. Mas já alguém o viu triste, ao nosso Sarabando? Eu cá, nunca. Pobrete, mas alegrete.”
In "Nos mares do fim do mundo", de Bernardo Santareno (daqui)
ou: outro livro a ler. esgotado nas livrarias (que admiração!! livros de m** é que não faltam nas livrarias, este não deve estar à altura) mas na net em .pdf na biblioteca digital camões.


impressionantes imagens no blogue maritimidades sobre as mulheres das secas do bacalhau.


as terras de areia da Gafanha, ganhas ao mar eram adubadas com o moliço rapado da ria.
talvez nem seja tão descabido juntar mar e agricultura no mesmo ministério até porque foram as duas actividades que foram abandonadas depois da revolução.  --a liberdade e depois a entrada na europa significaram, nestas duas áreas, o abandono do próprio país.


No comments:

 
Share