light gazing, ışığa bakmak

Monday, July 29, 2013

existe cidade mais bela do que eu?

engraçado que a rua das portas de santo antão continue a ser aquela amálgama de turistas, empregados de restaurantes ensebados e fuinhas, vadiagem e imigrantes de sítios impossíveis, estrangeiros louros a comer marisco discutível. o largo de são domingos rodeado de ginginhas por todos os lados é uma praça negra, a sala de visitas de negros altos e muito escuros, ponto de reunião, debate e troca de ideias. --cheguei uma vez do estrangeiro, de um qualquer país da europa branca, e desci ao rossio. chegar a casa é também chegar a áfrica, reconhecer o quente dos têxteis, o gingar do andar, o clique claque das chinelas, o riso branco das mulheres africanas. nessa tarde fiquei feliz, por alguma razão, gostei de reconhecer no meu país a mestiçagem cultural e a alegria da viagem, de nós sermos também outros.

e porém:

"Uma pequena volta pelas agências e pontos de informação turística na baixa lisboeta, ou uma visita às secções dedicadas ao turismo, nas livrarias que registam maior afluência, permite-nos perceber que os negros não são incluídos na imagem dominante de Lisboa veiculada pelos guias turísticos da cidade.Uma análise mais aprofundada confirma-nos exactamente isso, mas revela-nos também que, embora extremamente raros, existem guias que apresentam, precisamente, uma Lisboa negra, africana." (daqui, interessante trabalho)

[e também: O Rossio é referido como “um dos principais lugares públicos de encontro dos africanos emLisboa” (Agualusa, 1999: 19), tido como um“escritório a céu aberto”, e o Largo de São Domingos, onde grupos de negros se juntam em conversa, é comparado a “um espaço de debate saheliano, o terreiro de um chefe de aldeia” (Loude, 2005: 46)]

no outro dia descia a rua junto ao miradouro de santa luzia e à minha frente caminhava um casal jovem americano negro com um guia português. no miradouro olharam para um grupo de negros sentados em amena conversa, apanhando sol. os turistas perguntaram ao guia se aqueles negros eram portugueses ao que ele respondeu com um gesto ah!! não, são africanos! há muitos em lisboa... o assunto ficou por ali e eu arrependi-me durante uma semana inteira de não ter dito nada, de não me ter metido na conversa para dizer com orgulho sim, são portugueses.

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