light gazing, ışığa bakmak

Thursday, July 25, 2013

raul brandão

não é um imenso escritor: apega-se demasiado a certas palavras (faço o mesmo), vê as mesmas coisas repetidamente, olha para tudo com o espanto do parvo ou da criança (também eu), é simples quase sempre, as frases podiam ser piores como melhores, expressa ideias feitas e tendenciosas, enfim, um comum mortal e não um génio literário. mas é excelentíssimo a contar um Portugal que não existe mais, as vidas daqueles sem os quais não éramos quem somos e por quem tenho um imenso respeito, o tal povo que lava no rio, a voz do fado, o país de marinheiros, o jardim à beira mar e etc etc. --um grande livro não pela astúcia das palavras ou das ideias, mas pelo retrato que se consegue vislumbrar para além dos sonhos coloridos do autor e da sua visão do pitoresco.

por exemplo, sobre os poveiros:
"Como vivem estes homens? Agrupam-se no extremo sul da povoação. Roupas a secar, interiores que são pocilgas, casebres com uma porta e uma janela, e alguns só com uma porta e um postigo aberto na porta. Trapos, velhas redes, raias escaladas ao sol enfiadas num pau. Ao lado apodrecem barcos e estende-se o sargaço. As mulheres escorrem salmoura e por toda a parte há restos de sardinha e filharada. A vida pulula, a vida pródiga e incessante. Dentro dos casebres uma salinha com uma dependência, a camarata, onde dorme o casal, e o falso, para guardar o que ele tem de mais precioso, as redes. A caixa, alguns bancos. Debaixo da cama o berço dos filhos e panais velhos. A cozinha mete medo com caldeira de cozer a casca, o forno e os potes de ferro. De noite tudo isto é alumiado pela luz da graxa de peixe, que enfuma as paredes e cheira que tresanda.

Eis como vivem estes homens. Como morrem dizia-o, muito melhor do que eu, o velho cemitério da Póvoa, que já não existe. Ia-se passando de túmulo em túmulo e liase sempre: – António Libó, morto no mar; Francisco Perneta, morto no mar; José Mouco, morto no mar... De onde a onde havia uma redoma de vidro com alguns ossos brancos e mirrados que tinham dado à costa. E depois, seguiam-se os letreiros – sempre! sempre! – Domingos Reigoiça, morto no mar; Joaquim Monco, morto no mar... Todos eles vivem no mar – e morrem no mar."
Raul Brandão em Pescadores, que pode ser todo lido aqui.


aqui, sobre os poveiros e os seus barcos.
também inteiro, Ala-Arriba.





antes de Brandão, tinha Ramalho Ortigão escrito As Praias de Portugal, livro que hei-de ler.

vale a pena ver estas imagens.


As Praias de Portugal, Ramalho Ortigão em .pdf pago pela univ. de Toronto. talvez devessemos ter um pouco de vergonha, mas enfim.

e... podia lá falar da Póvoa sem falar das andanças da Rosa Pomar e das suas caneleiras poveiras...

obrigatório ver aqui, na admirável base de dados do instituto dos museus. (já que o museu de arte popular está para as moscas)


mais sobre camisolas poveiras.

do fim do mundo: as siglas poveiras.

No comments:

 
Share