light gazing, ışığa bakmak

Monday, August 5, 2013

e em Taksim, esta manhã

tínhamos que ver como era. segunda-feira de manhã era pouco provável que houvesse batalha campal. mas não estava preparada para ver o aparato policial que está estacionado na praça. cerca de 30 autocarros estacionados deste lado da rua Istiklal, 2 'toma' também parados. centenas de polícias junto aos autocarros preparavam-se, ou rendiam-se, não sei bem, eram onze da manhã. fomos até junto da estátua, havia mais pessoas a atravessar a praça, turistas muito poucos, os vendedores do costume, taxistas, famílias. podia até parecer normal. pensei subir as escadas para o parque Gezi mas um batalhão de polícias aproximavam-se do jardim vindos do outro lado da praça, com os seus escudos transparentes. tomavam posição e pusémo-nos rapidamente fora dali seguindo pela rua Istiklal. aqui os transeuntes do costume, lojas abertas, zaras e mangos e a mesma doença de todas as ruas e cidades, as mesmas lojas com a mesma coisa. um banco com uns quatro multibancos totalmente vandalizados, vidros partidos, como os vidros do que foi a Benetton. não consegui ver onde era a inci pastanesi.

perdemos a liberdade pela barriga, em Portugal, estamos reféns do sistema económico com que andámos a sonhar, sonhos de ser ricos e agora temos a conta para pagar, empenhados até às orelhas. mas isto aqui é a falta de liberdade verdadeira, não poder ir para a rua dizer as idiotices que me apetecer dizer, ser impedida de ir para um sítio. não estou nem estamos habituados a isto, o direito de ser livres está dentro de nós muito forte. a liberdade é fundamental, é um bem precioso. é muito estranha a sensação de não a ter, de se poder ser atacado a qualquer momento por razão nenhuma. o passado foi quase todo assim, a liberdade é uma conquista demasiado recente.

olhando para a força policial descomunal que está plantada naquela praça, tenho o maior respeito e admiração por aqueles que vão para ali pedir democracia, pacificamente. é preciso coragem.




 na bela livraria Insan Kitap.
 uma igreja católica a meio da Istiklal, admiro-me de ver o santo antónio e a sacaninha da igreja, bonita, a chamar-se santo antónio de pádua.






a descer de novo para Çukurcuma, onde o museu da memória estava fechado. no sábado tentámos lá ir mas a polícia tinha bloqueado a rua (tinha bloqueado todos os acessos a Taksim, e mesmo assim houve confrontos mais tarde e madrugada dentro, com perseguições que não ouvimos apesar de estar muito perto e 40 presos). tentámos de novo, rodeámos a polícia e tentámos chegar ao museu por baixo. estava fechado e os empregados esperavam à porta. pediram desculpa mas tinham de fechar por causa 'daquilo', apontando para a barreira de polícias um pouco acima na rua, e disseram 'é a turquia...' fez-me confusão o desgosto na voz a dizerem aquilo, um misto de somos menos do que vocês e de nós não merecemos isto. disse-lhe que aquilo não era a turquia, aquilo era a polícia (quis dizer o regime), que a turquia é um país lindo com gente extraordinária. posso não ter dito bem assim mas fiz-me entender. e foi o que quis dizer.

Istambul tem 14 milhões de pessoas, é uma cidade enorme, há sempre muita gente por todo o lado. quando se sobe a um ponto alto, não há fim visível. Sariyer, no limite do Bósforo, é o distrito onde termina a cidade, uma aldeia de pescadores, ruas pequenas, casas a subir as colinas a partir do rio. podemos ir para quase todo o lado em transportes públicos, ninguém nos aborda, não sinto violência em ninguém, não me sinto ameaçada (diferente seria se fosse uma mulher só). mas esta cidade é tudo o que parece e o que não se vê, pode ser uma cidade-iceberg, vários icebergs, várias cidades. por vezes de uma rua para a outra tem-se a sensação de ter recuado séculos. no seu próprio século vivem os roma, descalços e andrajosos. a eles está entregue a tarefa de mendigar.


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