em pausa dos maneirismos do inútil e encostado Fabrizio del Dongo que já não suportava.
"Até então não me tinha apercebido de que era um homem na verdadeira acepção da palavra. Recordo os rostos exaustos, as figuras abatidas dos meus dois homens, e recordo a minha juventude e uma sensação que nunca mais tive - a sensação de que viveria para sempre, que sobreviveria ao mar, à terra e a todos os homens, a sensação enganosa que nos conduz a alegrias, a perigos, ao amor, ao esforço inútil - à morte; a triunfante convicção de pujança, o calor da vida numa mão cheia de pó, a chama do coração que ano após ano se esvai, esfria, encolhe e se extingue - e extingue-se demasiado cedo, tão cedo - antes da própria vida.
E é assim que vejo o Oriente."
[acreditar em qualquer coisa, como eu dizia antes. e esta visão do Oriente (orientalismo) que contraponho à do novo mundo tão visível nos capas de Lucky Luke a caminhar em direcção ao sol que se põe, um caminho oposto e que vi abrir-se depois de Black Book]
retomando:
"E é assim que vejo o Oriente. Pude observar os seus lugares secretos e contemplar-lhe a alma; agora vejo-o sempre a partir de um pequeno bote, um imenso contorno de montanhas, de manhã, azul e longínquo; ao meio-dia, névoa ténue; parede púrpura recortada ao pôr-do-sol. Tenho a sensação de ter na mão um remo e nos olhos o vislumbre de um mar abrasadoramente azul. E vejo uma baía, uma baía ampla, lisa como vidro e polida como gelo, brilhando na escuridão. Afogueia-se ao longe uma luz vermelha por entre a escuridão da terra, e a noite está quente e suave. Estiramos os remos com braços doridos, e, subitamente, solta-se da noite tranquila uma lufada de vento, uma ténue e tépida lufada carregada de estranhos aromas a flores, a madeira perfumada - o primeiro suspiro do Oriente contra o meu rosto. Jamais o esquecerei. Foi impalpável e dominador como um sortilégio, como o segredar de uma promessa de prazer envolta em mistério."
Conrad em Juventude.
novamente a promessa. várias vezes são referidos os navegadores antigos que rumaram ao Oriente, com eles se identifica este narrador que conta a sua juventude. assim posso repetir: "porque penso que lá teria felicidade: por existir espaço de esperança."
a cena matinal, os nativos a olharem os náufragos que dormem nos botes é uma autêntica e enorme pintura, pelas cores e pela imobilidade, pelo silêncio. ("E depois vi os homens do Oriente... a olharem para mim.")
há uma senhora em Cascais que me vem à cabeça neste conto: chama-se Margarida Alberty.
light gazing, ışığa bakmak
Thursday, September 26, 2013
'a chama do coração'
Publicado por
Ana V.
às
9:37 AM
TAGS Conrad, Orhan Pamuk, Stendhal
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