o momento depois de ter sido infringida a sua auto-determinação, outra materialização da clementina, e provavelmente um dos momentos memoráveis da história da literatura.
"Kazu ficou tão irritada que se fechou no quarto por alguns instantes. Depois ocorreu-lhe que era a primeira vez que Noguchi infringia a convenção segundo a qual ela só ia para casa dele ao fim-de-semana. Esta transgressão devia-se certamente à importância daqueles hóspedes.
Kazu esticou o braço até à janela onde, na noite anterior, a Polícia tinha procurado impressões digitais, e abriu-a alguns centímetros. Os pequenos crisântemos que estavam lá fora, debaixo da janela, tinham sido espezinhados. Pelo ladrão? Pela Polícia? Não se podia saber. Algumas daquelas flores, imaculadas, tinham imprimido a sua forma no terreno macio, desenhando-se aí como brasões. Aqui e ali, sobressaía do solo o amarelo de uma pétala.
Tomada por uma invencível sonolência, Kazu estendeu-se sobre as esteiras por baixo da janela. Voltou os olhos, onde a irritação e o sono se misturavam, em direcção ao céu que entrevia pela fresta da janela. O céu matinal brilhava ao longe, claro e puro. Aparecia, perante os seus olhos enevoados, como um tecido ondulado e contilante. «Não preciso de mais nenhum quimono; o que desejo agora é bem diferente.» Pensou ela. E adormeceu com estes pensamentos.
Mishima em Depois do Banquete.
light gazing, ışığa bakmak
Monday, September 16, 2013
crisântemos
Publicado por
Ana V.
às
9:52 AM
TAGS Mulheres, Yukio Mishima
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