embora eu própria tenha estado ligada à realização e produção de eventos, festivais e outros acontecimentos efémeros que são sempre do agrado de artistas e produtores, questiono frequentemente a sua utilidade, os seus motivos, as suas finalidades para além da satisfação própria dos seus intervenientes, quer pela possibilidade de trabalho, quer pelo proveito financeiro. os eventos culturais, particularmente os gratuitos, ou seja, aqueles que são pagos por outrém que não o público, são do imenso agrado desse público (incluindo eu), sempre entalado entre os preços altos do ticketline e das produtoras de espectáculo legítimas e a maior parte das vezes em franchise internacional e os eventos gratuitos pagos pelo estado.
é nesta última parte que me aborreço, particularmente quando o que é pago pelo estado, e ainda mais, em mês eleitoral, não é nada claro. um pé na câmara municipal, uma empresa privada com uma série de nomes conhecidos, um patrocinador grande que também é estado (ou já não é?), a CGD: os meandros da política e dos labirintos culturais em Lisboa. só assim explico o modo superficial que encontrei na Lisbon Week, muito diferente da Lisboa Open House do ano passado: os objectivos deste evento não são nada transparentes e fazem-me lembrar os espectáculos que os reis barrocos ofereciam ao povo em Lisboa ou as embaixadas com elefantes e laranjeiras a Roma. fogo de vista. “explorar uma área da cidade, dando-lhe novas dinâmicas, abrindo espaços normalmente fechados ao público e contando as estórias que o tempo ainda não apagou”, dizem os responsáveis com uma clareza semelhante aos cartazes eleitorais idiotas de Mudar o Futuro ou Confiamos em Si, palavras vazias ou pior ainda, que insultam a inteligência de quem as lê. [confesso que quando leio estórias me aborreço logo um pouco]
os locais têm ligações à câmara de Lisboa, como também a Metropolitana paga sobretudo pela cml, o teatro Thalia, o castelo, o corredor verde, etc. - e um grande trabalho de RP pela XN Brand Dynamics, que nome, pois a Lisbon Week está em toda a imprensa escrita. os sessenta voluntários (os guias) foram imagino gratuitos. os artistas escolhidos por Delfim Sardo são todos consagrados e na verdade devem ter mais do que fazer do que eventos como este, embora assim acrescentem uma linha à biografia, mas este não era um espaço para descoberta., pois não?
se o modo de organizar eventos públicos pode ser diferente, penso que sim mas não estou certa em que moldes. em contraponto a este tipo de actividade, sempre preferi e prefiro o "apoio" legitimo, necessário e do qual sou total defensora, a instituições significativas para que as mesmas possam não só realizar um festival de uma semana mas uma actividade regular, com passado e com futuro, actividade também de formação de participantes e de público. assim vejo o suporte à cultura e o mecenato: na continuidade e na seriedade de trabalho de fundo e não nos projectos relâmpago das empresa de RP e branding. --para onde eu preferia que fosse o "apoio": para a ópera, para o teatro nacional, para as orquestras, para o ensino cultural e artístico de qualidade e com história, para a cinemateca, para os museus, para o bailado, etc. etc., ou seja, para quem continua a fazer o que faz depois da noite gloriosa do fecho do festival.
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nem a propósito, António Pinho Vargas sobre o São Carlos (meus itálicos):
Sobre o Teatro de São Carlos.
Mesmo a olho nu e sem informações detalhadas sobre a situação real, parece claro que o Teatro de São Carlos tem sido, de todas as grandes instituições do Estado, aquela que mais tem sofrido com os cortes nesta área e a paralisia do governo, provocando enormes dificuldade a quem lá trabalha. A solução parcial agora vinda a público com as nomeações (em part-time) dos prestigiados Paolo Pinamonti para consultor e Joana Carneiro para maestrina da orquestra, não deixa de manter o outro lado da parcela sem resposta: quem é o seu director artístico? Para além deste aspecto fundamental, se esta nomeações serão melhor que nada, o facto é que passaram muitos meses só com um membro na administração, sem director artístico, nem maestro titular e com pouquíssimos espectáculos, mesmo assim mais resultantes do esforço dos dedicados funcionários, do que de qualquer acção oficial consistente. A acção do governo neste caso tem sido não apenas a inoperância mas mesmo a inacção: deixar andar uma situação de indefinição para além do admissível.
Quero acrescentar uma razão para não tomar mais vezes posição sobre estas questões. Apesar de tudo, parece-me que das poucas coisas que ocupa ainda um lugar no espaço público, uma delas é certamente a discussão dos cargos e das nomeações para as instituições. Tirando isso muitas vezes nada mais é objecto de discussão em várias instituições mesmo a actividade crítica está muito reduzida a dois ou três jornais. Com estas excepções, dá a sensação que uma vez decidido quem é o director, o conselho de administração, etc., não há mais nada para reflectir. Julgo que este aspecto mostra por si só um erro na visão da questão. O vazio de orientações de base que existe há muito, permite que cada um dos nomeados seja absolutamente autónomo. É isso que permite que seja fácil traçar uma história destas instituições com base na análise da acção dos bons directores e dos maus directores. Certamente que uma zona de autonomia deve ser preservada para cada agente que assuma cargos desta natureza. No entanto que não exista uma articulação entre a autonomia dos nomeados e um conjunto de princípios gerais definidos pelo estado para a função, faz com que cada um seja completamente livre para fazer o que bem entende. Se por vezes acontece uma acção globalmente positiva, muitas vezes os resultados não são bons. Por isso assiste-se à sucessão de construções e destruições. O erro será que o estado vê a sua acção praticamente limitada à nomeação das personalidades. Feito isto a sua acção acabou ou, como se viu no caso em análise, a acção do estado, nem sequer abarca as elementares nomeações requeridas, para não falar dos orçamentos, eternamente dependentes das visões particulares de cada ministro das finanças, ou da cultura, etc. É deixada à capacidade de cada responsável, ao seu grau de força negocial e de combatividade a tarefa de lutar pelo orçamento, até mesmo aquele já consignado na lei, mas retido ou não aplicado pelo próprio governo (que não cumpre a lei que ele próprio decreta) durante longos meses nos piores casos. Tudo isto varia conforme muda o governo, muda o ministro, muda o director. A solução para todas estas disfunções seria considerar o funcionamento destas instituições como integrado na administração pública corrente - um serviço que é necessário continuar a prestar - e não fazer depender de cada governo ou ministério as reconstruções, as mudanças na lei, os organigramas que mudam frequentemente a par com as mudanças dos governos ou dos ministros: o objectivo de garantir sempre e com qualquer governo, a ideia e a prática daquilo que deve ser o funcionamento da instituição cultural. Julgo que uma definição desta natureza seria ainda mais importante do que manter um orçamento decente, coisa que muitas vezes não está longe de se atingir como se sabe.
Um comparação talvez úitil: mesmo com todas as variações de governos ou dos longos períodos sem governo, diz-se que o segredo que permite à Itália não parar, nessa atribulada vida política, reside na qualidade da sua administração pública que, por si só, assegura a não paralisia do país. Sendo essa uma tarefa de longo prazo, que pelo menos se seja capaz de a formular como fim a atingir.
Infelizmente em Portugal assiste-se à demonização da administração pública e o termo requalificação é usado não para o que realmente quer dizer, mas para encobrir despedimentos e privatizações. Ou seja o contrário.
António Pinho Vargas.
light gazing, ışığa bakmak
Monday, September 23, 2013
eventos
Publicado por
Ana V.
às
12:17 PM
TAGS Portugal é um país de, Stuff
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