light gazing, ışığa bakmak

Tuesday, September 24, 2013

realidade em 'carne e osso'

A Cartuxa de Parma tem essa capacidade de fazer repensar vários aspectos, dependendo de quem repensa: a narrativa, o realismo da representação, a representação da história, o que é a história, identidade, sociedade, poder, mulheres, liberdade e poderia continuar.

como vejo a Cartuxa, depois de uma série de leituras de século 20: um herói que julgo absolutamente desprezível, tão realisticamente descrito que o posso encontrar nas ruas a qualquer momento (e encontro) numa sociedade de que eu tentaria escapar a todo o custo, no meio de mulheres de "carne e osso", como disse a Beauvoir, limitadas ao seu espaço interior, presas nas suas casas, casebres, carroças, castelos ou palácios, com nenhuma capacidade de agir no espaço para além das suas paredes a não ser através dos mais baixos e desprezíveis estratagemas, dependentes dos homens que as sustentam, exploram e possuem.

["If I leave the present epoch and go back now to Stendhal, it is because, in emerging from this Carnival atmosphere where Woman is disguised variously as fury, nymph, morning star, siren, I find it a relief to come upon a man who lives among women of flesh and blood.", Beauvoir]

não deixa de ser interessante depois de ler Pamuk, o escritor que mais metodicamente transformou as suas mulheres em fragmentos de objectos. também não deixa de ser interessante que personagens literárias possam ser consideradas de 'carne e osso'.

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gosto de falar com ela, faz-me lembrar alguém que conheço ou conheci. gosto do timbre da voz e da música na língua que fala e que revela, sem sombra de dúvida, a ilha onde nasceu. falámos da grande mudança nas crianças entre o quarto e o quinto ano que passam da representação simbólica para o realismo. no desenho, deixam de representar o que conhecem para tentar mostrar o que vêem. este passo é dado com dificuldade pela grande maioria das crianças, nesta idade, independentemente da sua cultura, desde que tenham tido educação. ponho-me logo a extrapolar ideias para a escrita, do conto moral para o romance, da miniatura para a perspectiva, hipóteses nas quais nem ponho grande fé. nesta altura de formação da identidade única, protegida pelas sociedade ocidentais e contrariada em grande parte por todas as outras (a sobrevivência do conjunto, ainda) o grupo toma, inesperadamente para mim, uma importância vital. deixo de ser uma ideia de mãe para ser a pessoa que se engana.

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é impossível retirar de nós os símbolos, omnipresentes até aos oito anos de idade.

Solomon Joseph Solomon




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