Saturday, October 4, 2014

2014, Orhan Pamuk em Lisboa


Pareceu claro que era um recado para a Europa – não por acaso, o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, estava presente na primeira fila – embora Pamuk não tenha especificado o que queria dizer com isso, talvez para não correr o risco de soar pouco diplomático. Mas o que Pamuk quis dizer terá talvez a ver com o que respondeu numa entrevista em Dezembro do ano passado, quando um jornalista colombiano lhe perguntou se se sentia europeu. “Não sei. Não penso nesses termos. Em primeiro lugar, sinto-me turco. E um turco tanto se sente europeu como não europeu. Acredito numa Europa que não se baseia no cristianismo, mas no Renascimento, na modernidade, na ‘liberdade, igualdade, fraternidade’. Essa é a minha Europa. Acredito nessas coisas e quero fazer parte delas. Mas se a Europa é a civilização cristã, lamento: nós, turcos, não queremos entrar.”

no Público.





com tantos presidentes na sala, como dizia o nobel, estas sessões de celebração europeias mais parecem sessões de auto-masturbação simultânea. em geral, tenho total desconfiança destes grupos que nos decidem a vida. as primeiras cinco filas estavam reservadas às entidades oficiais, personalidades, homenageados e presidentes de qualquer coisa, gulbenkian, cnc, europa, e etc. e os acólitos do costume, como o secretário de estado da cultura e a senhora Cavaco, ambos não sei porque razão. o pres. da gulbenkian e o muito, aliás total, queirosiano presidente do centro nacional de cultura que, por raros segundos de uma sessão extremamente enfadonha, arrancou alguns risos genuínos ao nobel.

e a ironia de falar de museus das pessoas normais e não de reis e presidentes ou instituições numa sala cheia precisamente destas entidades. tirando a senhora europeia, impecável aliás e da filha de um dos homenageados da holanda que escreveu um livro que quer condensar o património cultural da europa em cento e tal páginas (seria triste, até), os homens velhos de fato invadem a sessão. na quinta fila, onde estou, já há mulheres, as leitoras e várias pessoas normais. foi possível entrar livremente, gratuitamente, e sem qualquer controlo de segurança: isto sim, é Portugal.

gostei, com supresa minha, do discurso de Durão Barroso. estava preparada para uma estopada monumental, mas gostei. o discurso dele, em particular, um homem muito diferente do que saiu do país há dez anos. sobre o  discurso europeu... tão feito de irrealidades e quimeras, como -ironia- dizer que Pamuk é um dos grandes europeus (seria redutor, para ele, que precisamente é muito mais do que isso). uma propaganda tão forte como aquela que encontro nas tvs, um propaganda do medo e incentivadora da ansiedade. afinal, piada, todo o discurso europeu blabla somos todos europeus, derrubado por uma tão singela observação do pres. da comissão: no livro holandês do património cultural da europa aparece Portugal, claro, cujo património arquitectónico apontado é... a Casa da Música no Porto, o projecto de um holandês. ah europa...

o escritor é quem eu conheço, diz o que eu sei que vai dizer, pensa o que eu penso que pensa. o que encontrei e que não teria sido possível de outro modo: um extremo cansaço do papel desempenhado, um sentido de humor subterrâneo que conheço de outra pessoa, alguém que me mudou também a vida.






a sala estava abafada e pesada, cheia de individualidades e protocolos que me parecem cenários, a coisa teatral, um mundo paralelo em que vivem com a cumplicidade e apoio dos meios de comunicação que se alimentam disto como sanguessugas. quando saí para a noite de lisboa, morna e limpa, as pessoínhas quotidianas nos passeios, as esplanadas cheias na valmor, o cheiro dos kebabs a certa altura, as salas de luzes acesas nos segundos e terceiros andares, as varandas adaptadas, chegar a casa, sacos de compras, a cidade a cair na calma depois dos negócios todos fecharem e os empregados terem saído para os subúrbios. que alívio.


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daqui.

(where is mommy kindofthing)

(o fotógrafo da presidência, bem bom)

an my humble ones.






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