Friday, October 31, 2014

a rapariga das laranjas

a rapariga, tão bonita como a do brinco de pérola que ela também usava, cheirava a laranja. o cheiro dançava à sua volta mas subtil. uma colega perguntou se era alfazema e provou o meu ponto. tinha-lhe dito que um cheiro agradável se desprendia dos papéis (ah repartições sem vida). só ela não gostava do cheiro, já tinha lavado as mãos três vezes e o cheiro persistia entre o carimbo branco a impressora e o balcão de atendimento ao utente. quando tivesse um minuto, iria lavar outra vez e esfregar ainda mais.

no subúrbio cheira quase sempre mal - a proximidade de indústrias sujas, a proximidade de tratamentos de lixo - e aquele subúrbio não é diferente, depende dos dias, das nuvens e do vento. mas ali há uma escapatória que é a fábrica da bollycao. quando a produção está em determinado ponto o cheiro do bollycao consegue ofuscar todos os outros, é uma espécie de cheiro de marca do bairro. à noite no regresso a casa, por vezes de manhã, quando se sai, que delicioso cheiro. quem mora no bairro sabe que isto é a mais pura verdade.

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