Tuesday, October 21, 2014

temporárias

quando faltam três dias para que possa voltar a ler, estou quase a contar as horas. em tempos apanhávamos as três o comboio da linha de sintra para sairmos em campolide. eu era a primeira, depois era a das mercês e finamente a de rio de mouro. em campolide saíamos para o comboio de alcântara e daí seguíamos a pé. quando a porta se abria já tínhamos o cigarro na mão, sapatinhos e casaco, as bolsas com o passe e as carteiras. se nos atrasávamos todas em simultâneo, o que por estranho que pareça acontecia frequentemente, dividíamos o táxi para poder estar às nove em ponto. ou se chovia muito e se estava no princípio do mês. o que nos passou entretanto... não há meio de adivinhar o futuro, nunca, nunca. quando andei na católica, entrava às oito da manhã para ter lógica com uma turma de seminaristas. para além de mim talvez houvesse outra rapariga, mas não sei se durou. treinei-me a dormir em pé no comboio, encostada em local estratégico, a mala dos livros entre mim e os outros, dentro das possibilidades daquela linha de comboio às sete da manhã. no café da estação, ainda mal aberto, ainda noite, bebia a bica que não evitava que adormecesse em pé algures por altura do cacém. a sensação de sentir os joelhos falhar (a cabeça a tombar para o lado) é inesquecível. à noite, no regresso, não dormia. sublinhava com bic azul as fotocópias de literatura. aldrabei algumas vezes em entrevistas: sabe isto ou aquilo, quarkxpress? sim claro, escreve francês? sim claro, access? photoshop? contabilidade? tudinho. fosse o que fosse seriam aulas de total imersão autodidacta nos próximos dois ou três dias. fax? telex? encomendas? inventário? tudo tudo, claro. já fiz tudo. quando fiz parte das temporárias saía do rossio e apanhava o elevador do lavra para o campo mártires da pátria (todas aquelas flores na estátua), bebíamos o café na pastelaria da esquina e era necessário entrar exactamente cinco minutos antes das nove, para ligar a fotocopiadora e as máquinas de escrever eléctricas. a secretária da direcção, que não era temporária, tinha todos os cabelos no sítio durante todo o dia, e entrava antes de toda a gente. no final do dia fechava a porta. era católica e usava meias de vidro brancas e sapatos com um pequeno salto, casaco azul escuro e camisas compostas. o meu lugar era ao seu lado de modo que ela pudesse seguir e ouvir todas as minhas palavras e gestos. vinte e muito poucos, eu era a menina do telefone. sabe processador de texto? sei sei, claro. e seguiu aprendizagem repentina no novíssimo word, um mundo de maravilha, pronto a destronar as então máquinas de escrever eléctricas. a temporária mais velha era a carlota, sabia word e dominava o word perfect, um modelo para mim. tinha vindo algures do norte com a filha sob a ameaça de um companheiro violento, andava fugida. não tinha telefone, não dizia a morada a ninguém e nem sei se o seu nome era mesmo carlota. já tinha mudado de cidade umas quantas vezes. tinha cerca de trinta anos e protegia-nos a todas, mais novas, generosamente. à hora de almoço rodeávamos o pc da carlota e ela ensinava-nos os truques do programa. ela, sim, tinha feito tudo e trabalhado em todos os departamentos de várias empresas. era uma exilada.
sempre, até hoje, morro de admiração pela carlota.

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