Friday, October 31, 2014

the meaning of life

a água deste duche foi desaparecendo e está finalmente um quase fio. qualquer alma desejando limpeza fica ali a tiritar à espera que a água desça e a tarefa fácil torna-se complicada. desejando chamar alguém que perceba de fios de água mas nem sempre a disponibilidade existe e esta aguarda há meses. mas há outro duche na casa (ocupada) e portanto muda-se de canto no belo cubículo e a vida continua.

um amigo do coração esgotou-se em trabalho e iniciativas (de que serve a vida sem silêncio) e procura agora o sentido da vida em alheias profundezas. para mim seria fácil apontar-lhe uma porta luminosa para chegar ao jardim mais desejado, o do silêncio e do olhar empático. portas há muitas, infinitas, pois a vida é generosa, uma delas encontro-a aqui, neste poema.

tanto floreado para dizer o que está no título, tantas voltas as do meu amigo para se perder e não chegar a esta simples constatação.

não vou aprender árabe, embora gostasse muito, pelo menos nos próximos anos. talvez se chegar a velha o possa fazer nos intervalos do tricot. prefiro aquela caligrafia a qualquer outra desde os tempos da entediante introdução aos estudos linguísticos que seguia, no horário escolar, a aula de árabe. era com desgosto que aula após aula o acto inicial da minha professora de meia idade composta e com mise era apagar do quadro negro o giz da aula anterior. o desejo longínquo que aquele gesto despertava posso contemplá-lo agora, tantos anos depois.

com certeza alguém já fez um estudo sociológico sobre a mise. se não, deveria ser feito. mise e liberdade. mise e violência doméstica. mise e gender gap. etc. ou para uma estética da mise, mas esta já está toda em Martin Parr.

enormidades que me ouço dizer: para justificar a necessidade absoluta de memorizar dístico terceto quadra digo que muita gente sobreviveu à crise graças à língua portuguesa. o que é verdade, enfim. lembro logo a miúdinha de 10 anos, filha do dono da frutaria de rua, uma frutaria para visitantes e turistas em heybeliada, a bela ilha. chega uma família de árabes, um homem de bigode uma série de mulheres encapuzadas e um grande número e crianças e adolescentes (se calhar já contei a história mas não faz mal porque gosto dela). o homem chega-se à frente e com pompa a perguntar o preço desta e daquela fruta, em inglês. o merceeiro vai respondendo com os dedos mas às tantas chama e vem a miúda. diz-lhe, vê lá o que querem, tu falas inglês e eu não percebo nada do que dizem. com o seu inglês de escola a miudita está chateada de ter interrompido a brincadeira com as amigas e de ter de lidar com o estranho e pomposo bigodes. vai respondendo a contragosto mas assim que o homem se vira para as mulheres em conferência exagerada a miúda escapa-se. não sei se o árabe comprou alguma coisa. depois de ter ido embora o merceeiro chama a filha para a arreliar por não ter cumprido a função a cem por cento. ela dá uma desculpa e torna a escapulir-se assim que vê uma aberta nas frases.

o turco tem poucas hipóteses, para além de chamar a filha, pois ninguém fala a sua língua.

em A mind at peace (porque isto sim estará na minha vida por enquanto, tanto para aprender):
o rapaz tenta inúmeras vezes cobrar as rendas em atraso do homem que arrenda a loja da sua avó. os meses sucedem-se sem pagamento. curiosa, para mim neste ponto da situação, a consideração entre mercador e funcionário público:
"As soon as Mümtaz would step into the store, the shopkeeper shaded his eyes with a pair of black glasses as if they were a potent talisman and, for all intents and purposes, would vanish behind a glass shield, from where he'd drone on about the stagnation of the market, the difficulty of eking out a living, and the blithe fortune of men who worked on fixed incomes, such as civil servants, consequently he'd grow livid, berating himself for quiting his job as a state employee and submitting to the El Kasibu Habibullah hadith - Muhammad, beloved "merchant of Allah'.

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Among means of livelihood, trade occupies the most prominent place, the honest merchant being one of the righteous servants of Allāh.

(cada qual o seu sentido)

2 comments:

Tozzola said...

Agradecer é pouco, mas também acho que não és de vénias.
Se a vida tivesse uma mise en place...
Bom fim de semana, domingo vou tentar passar no CCB e ver melhor o rosário :-)

Ana V. said...

Pois não sou... (esqueci-me dessa mise :))
Estou depois das onze, antes disso só a minha parceira.
Boas bruxas e algum doce. inté!

 
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