Thursday, January 22, 2015

dias mais emocionais do que o normal dos dias. Swann que começa a existir, as escadas e as velas, a mãe e as tias velhas que não sabem agradecer uma caixa de vinho; olhar para alguém é como está escrito, não se vê o que está ali mas o que se quer ou julga ver. tomar decisões agora que se sobrevive só e mais nada é tão pesado como empurrar uma casa, nem que seja por uma garrafa ou um banco ou uma gaveta de papéis. tapo a boca e espero que se resolva assim. a vida dos móveis no escuro do quarto de Combray.


vimos também com emoção o Jogo da Imitação, uma tardia homenagem ao matemático e descodificador Alan Turing, vivamente aconselhado. poucos anos que ajudam a perspectivar o presente e a clarificar o porque gostamos de ter bandeiras "charlie".  recuperámos amigos, recuperámos (mesmo que temporariamente).

mais bonita do que esta mesa de cozinha, com tampo em pedra e acompanhada de um banco, não há. mas lembro a cozinha antiga de um palacete lisboeta. o miúdo tinha tudo o que queria. tinha um tapete de pele verdadeira que me queria dar, não quis claro, nem gostava da pele nem do desprezo com que tratava tudo o que tinha, e que era muito. os pais eram personalidades, saiam muitas vezes à noite. o miúdo diabético e com outros problemas de saúde drogava-se como raramente vi alguém e metia em casa toda a espécie de vadiagem que encontrava na rua. as criadas - que viviam nos seus quartos de criadas - fingiam não ver nem ouvir, talvez alguma gostasse dele, era a esperança que me restava. os gatos mais rafeiros e desgraçados não compreendiam como podia viver daquela maneira, em total desprezo de tudo e da própria vida, tantas vezes tinha ficado inanimado na rua. os colegas da noite tinham medo de o acompanhar, tinham medo que morresse.


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