Sunday, November 20, 2016

O Terrorista Elegante

Depois de muitos anos voltei à Comuna para ver o Terrorista Elegante. Fui sobretudo pelo texto conjunto de Mia Couto / Agualusa e talvez um pouco pelo Virgílio Castelo.

A Comuna é uma instituição e foi bom voltar, mas foi também mau pois senti ali o peso do tempo, como se as coisas não fossem alteradas à muito tempo, suspensas no passado. Tenho muita pena que isto aconteça e que as novas ideias não encontrem ali uma casa, como era. A tabuleta 'sala nova' ou 'nova sala', não me recordo, é bem prova disso: uma nova sala que deve ter 30 anos e que já mostra as rugas e marcas da idade. o ambiente de 'user-friendly' não tem nada. não há placas para nada (bilheteira(?), entrada, saída, etc. etc.), como se tudo estivesse feito para quem já conhece e já esteve.

dito isto, sou fã da Comuna, do Carlos Paulo e tenho admirado o João Mota.

O Terrorista Elegante é um texto em que vejo o Mia Couto, menos o Agualusa por não o conhecer tão bem. vejo a sua África e a nossa mundivisão, aquela que temos em conjunto, que partilhamos. ali está reflectido o nosso modo de viver e de ver o mundo, com as nossas diferenças e preconceitos, mas ainda assim a história e as lembranças comuns. todo o texto é um enorme símbolo da situação política mundial desde esse fatídico Onze de Setembro que forçou no mundo um discurso e uma narrativa do medo e da guerra, uma alucinação colectiva forçada por aqueles que semeiam a guerra nos quatro cantos do mundo. nós tivemos a nossa dose e por culpa deles também. não fomos capazes de fugir à influência da polarização comunismo-resto do mundo e ficamos reféns dela, os africanos não só reféns mas as vítimas trágicas de guerras civis de muitos anos. hoje é a "guerra ao terror", essa ideia fabricada que serve de desculpa para os crimes mais atrozes.

o personagem poeta e domador de dragões é absolutamente encantador e ganha vida através de Miguel Sermão. fantástico, adorei conhecê-lo, excelente no humor, na capacidade de fazer sonhar. tudo, uma nova estrela no meu céu. o resto do elenco: excelente, claro. a Comuna pode não estar modernizada mas nunca deixou de ser uma catedral dessa arte maior: o teatro.






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