light gazing, ışığa bakmak

Thursday, July 5, 2012

as palavras do músico

"Durante bastantes anos na disciplina de História da Música do Séc. XX (agora XX-XXI) face aos alunos atingidos pelo vírus apolítico que, por vezes, está associado à ideologia da "música ela-própria" - sendo um desses aspectos a teoria formalista que privilegia a análise interna das obras, sem dúvida importante, mas não suficiente, mesmo do próprio ponto de vista musical, sublinhe-se - na tentativa, muitas vezes vã, de despertar um outro tipo de consciência mais ampla, tanto do mundo, como da própria música, enquanto "coisa do mundo" - usava o seguinte argumento: "Vocês podem não se interessar pela política, mas a política interessa-se por vocês. Não esperem que vos entre um avião pela janela dentro para tomarem consciência disso." O argumento parecia ser bom mas, a "política" no sentido restrito está desacreditada, a própria "democracia" vive uma crise indisfarçável e estes aspectos talvez ajudem a explicar a estranheza de se continuar a encontrar, ano após ano, a primazia de uma espécie de autismo artístico, a persistente ilusão da arte-pela arte, que acaba por ter algumas consequências negativas, na minha opinião, na própria possibilidade de se fazer a arte e a música de forma relevante. Não se trata, de modo nenhum, de fazer "arte militante" no sentido de Brecht - um grande artista - ou arte "engajada" como se dizia em francês, no sentido que a expressão tinha durante uma boa parte do século XX, muito marcado desde os anos 1910 pela ilusão "mudar a arte, mudar a vida" e em certos casos, mesmo "mudar o homem". O livro notável de Alain Badiou "Le siècle" (2005) analisa todo o século XX centrado nesta questão. A minha geração foi muito marcada por isso. Queríamos mudar o mundo. Não conseguimos mudar quase nada. No extremo oposto está o artista "fechado ao mundo". Quando os encontro, ou os conheço, tenho de os respeitar, embora pense simplesmente que cometem um erro. Não tenho, no entanto, nem meios, nem sequer nenhuma autoridade, para alterar essa sua posição. É legítima. Não é a minha, mas que é que isso interessa para o caso? Cada um, no fim de contas, tem ao seu alcance a possibilidade de "desenhar o seu destino", de se "auto-criar" - a criação de si - e, cada um de nós, carrega com todos os erros que cometeu e os que irá ainda cometer, sem apelo. O problema, apesar das anteriores ilusões de teorias já desvanecidas para sempre, é que nem o destino individual nem o futuro colectivo estão escritos em lado nenhum. Dependem da acção humana em ambos os planos. Sempre. Por isso temos de agir, quer queiramos quer não. Viver é agir. Tomar posições. Desencadear eventos. Criar coisas. Não há maneira de fugir a isso. Mesmo as avestruzes agem, quando metem a cabeça na areia."
António Pinho Vargas no fb: já pensei isto, depois pensei aquilo, cheguei aquela outra conclusão, sem ter expressado nenhuma delas como Pinho Vargas o faz aqui em poucas palavras. e faltava-me ainda este finale magnífico. há autores que nos expressam.

(quem dia após dia após dia podia fazer quase tudo e escolhia sempre não fazer nada)

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