"Desde os meus 18 anos - idade com que comecei a trabalhar - que ando nos transportes públicos. Já fui espezinhado, apertado, atrasado, ofendido e comprimido. Já desesperei, me irritei ,reclamei, desisti, caí, enjoei e sei lá mais o quê. Vivo em média 4 horas por dia dentro dos transportes públicos, e dentro das limitações, considero que fiz um verdadeiro milagre ao transformar esse tempo em tempo útil. Para quem não sabe, 90% das minhas ilustrações foram pensadas e criadas a atravessar o Tejo ou ao longo dele (no comboio da linha de Cascais). Quem comigo viajou já pôde ver logo pela manhã um careca a sujar as mãos com carvão, tinta-da-china, aguarelas e lápis de cor num Moleskine. Por vezes há uma criança mais curiosa e afoita que se mete comigo, e faz perguntas sobre o que estou a fazer, e se me importava de fazer um tractor ou um coelho. Mas tudo isso acabou. Os transportes andam cada vez mais cheios, menos frequentes, com menos carruagens, e mais quentes porque o ar condiciionado gasta energia. A maior parte das vezes mal tenho espaço para ler um livro ou até mesmo respirar, quanto mais desenhar. E acima de tudo, a energia que se sente nestas caixas cheia de gente triste, magoada, roubada e desiludida é extremamente negativa, imprópria para criar. Há pouco quebrou-se-me o coração ao olhar para o lado e ver uma criança com 5/6 anos de mão dada com a mãe, apagada, neutralizada, baça, cujo alcance dos seus enormes olhos se limita a uma massa amorfa de pernas e rabos em esforço de equilíbrio, algures dentro de uma lata de sardinhas a que alguém chama metafóricamente de comboio. Mesmo que alguém lhe desse lugar - pouco improvável diga-se de passagem - seria literalmente impossível deslocar-se até lá.
Deveria sair um Decreto-Lei que obrigasse todos os políticos a andar um mês em tranportes públicos. E já agora, porque não usufruir, eles e as suas famílias, dos maravilhosos cuidados de saúde proporcionados pelo estado? Talvez se tornassem políticos mais... Humanos. Políticos mais humanos?... ah... isso sim seria pura magia."
2 comments:
Um país impróprio para criar... mesmo.
Há pior!
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