light gazing, ışığa bakmak

Sunday, November 4, 2012

Éboueurs : «Parfois, les gens balancent un papier par terre, et me disent : "Tiens, ramasse"»

título daqui.

"É próprio dos demónios e dos anjos apresentarem-se como estrangeiros, visitantes vindos de outro mundo. Igualmente os éboueurs afloram vindos das brumas da alvorada, de feições que não se destacam do indistinto: caras térreas - os norte.africanos - um bigode pequeno, um barretinho na cabeça; ou - os da África negra - só o globo dos olhos a aclarar o rosto perdido na escuridão: vozes que se sobrepõem ao zumbido abafado do camião sons inarticulados para os nossos ouvidos, sons que trazem alívio quando ressumam no sono da manhã tranquilizando-nos que podemos continuar a dormir ainda mais um pouco porque há outros que estão a trabalhar para nós. A pirâmide social continua a misturar as suas estratificações étnicas: em Paris agora o trabalhador italiano torna-se o pequeno patrão, o espanhol operário qualificado, o jugoslavo pedreiro, a mão de obra mais em bruto é portuguesa, e quando se chega a quem escava pazadas de terra ou varre as ruas é sempre a mal descolonizada África que ergue os seus olhos tristes do calcetado das ruas da metrópole sem os cruzar com os nossos olhares como se ainda nos separasse uma distância insuperável. E nós no sono sentimos que o camião não mói somente o lixo mas também vidas humanas e papéis sociais e privilégios e não pára enquanto não tiver dado a volta toda."

Calvino em La Poubelle Agréé" em O caminho de San Giovanni.

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