"Muitas coisas deveria ainda acrescentar para explicar como era esta guerra naquele lugar e naqueles meses, mas em vez de despertar as recordações voltaria a cobri-las com a crosta sedimentar dos discursos de depois, que põem em ordem [como Freud na reorganização dos sonhos, noto eu] e explicam tudo de acordo com a lógica da história passada, enquanto agora o que desejo trazer de novo à luz é o momento em que cortámos por um carreiro que lá em baixo vai contornar a terra, em fila indiana por um bosque algo descoberto e avermelhado, e veio a ordem: «Tirem as botas dos pés e atem-nas ao pescoço, ai de nós se eles ouvem o ruído dos passos, ai de nós se na terra começam os cães a ladrar: passem palavra e vão avançando em silêncio.»
Pronto, era exactamente a partir deste momento que eu queria começar o conto. Durante anos fui dizendo para comigo: agora não, mais tarde, quando quiser lembrar-me, bastar-me-á chamar de novo à mente o alívio de desapertar as botifarras endurecidas, a sensação do terreno debaixo das plantas dos pés, os bicos dos ouriços das castanhas e dos cardos bravios, o modo cauteloso que têm os pés de pousarem quando a cada passo os espinhos se enterram através da lã dentro da pele, o rever-me quando me detenho para arrancar os espinhos da sola rija como feltro das peúgas que logo a seguir apanha outros, pensava que bastaria recordar-me deste momento e tudo o resto viria atrás como o desenrolar do fio de um novelo, como o desfazer daquelas peúgas rotas nos dedos e nos calcanhares, por cima de outras camadas de peúgas também rotas e contendo lá dentro todos os espinhos espigas pauzinhos, a poeira geral do mato emaranhado na lã.
Se me concentro neste pormenor ampliado é para não me aperceber de quantos espinhos arrancados há na minha memória."
Calvino em "Lembrança de uma batalha" em O Caminho de San Giovanni.
light gazing, ışığa bakmak
Thursday, November 1, 2012
memória, de novo
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