que fica melhor em português.
"O que eu queria saber é por que motivo a rede furada da memória retém certas coisas e não outras: estas ordens que nunca foram cumpridas, lembro-me delas ponto por ponto, mas agora gostaria de me lembrar das caras e dos nomes dos meus camaradas de patrulha, das vozes, das frases em dialecto, e como nos arranjámos com os fios, a cortá-los sem tesouras. Até do plano da batalha me lembro, como devia ser, nas suas várias fases, e como não foi. Mas para poder acompanhar o meu fio teria de voltar a percorrer tudo através do ouvido: o silêncio especial de uma manhã em campanha cheia de homens que estão em silêncio, estrondos, tiros que preenchem o céu. Um silêncio que estava previsto mas que durou para além do previsto. Depois mais tiros, todos os tipos de explosões e de rajadas, uma confusão sonora impossível de decifrar porque não ganha forma no espaço mas apenas no tempo, num tempo de espera para nós posicionados no fundo daquele vale de que não se vê absolutamente nada.
Continuo a perscrutar no fundo do vale da memória. E o meu receio de agora é o de que mal se perfilar uma recordação, ela ganhe logo uma luz errada, maneirista, sentimental como é sempre a guerra e a juventude, e se torne um trecho de narrativa com o estilo de então, que não pode dizer-nos como eram realmente as coisas mas só como nós julgávamos vê-las e dizê-las. Não sei se estou a destruir o passado ou a salvá-lo, o passado escondido naquela povoação assediada."
Calvino em "Lembrança de uma batalha" em O Caminho de San Giovanni, p. 97
light gazing, ışığa bakmak
Thursday, November 1, 2012
memória, de novo (2)
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