quando éramos pequenas fazíamos chá de folhas e terra da mata com os fios de água que sempre correm da serra. as nossas porcelanas e os nossos serviços tinham servido as mesas de musgo das nossas mães, de tias e primas. no fim, todos os pequenos objectos voltavam para dentro de caixas escondidas no sótão na companhia de pilhas de revistas velhas e arcas cheias de coisas desconhecidas. os extremos do sótão eram escuros, sem janelas nem luz, e metiam medo; só lá se podia chegar de gatas. não sei o que fez a minha avó quando largou a casa, como foi largando todas as coisas na sua vida. não se apegava muito a objectos, acho até que lhes tinha rancor e que, logo que podia, se livrava deles como se livrasse de grilhetas. em certos dias, faço como ela e limpo as divisões até quase estarem vazias. noutros dias, instala-se em mim a minha mãe com os seus cuidadosos inventários e colecções. mas a minha casa não tem sótão.
no outro dia perguntou-me o que era o paraíso e disse-lhe. agora, olhando para trás, reparo que nem me lembrei da história bíblica. mas aquele sótão disfarçou-se em qualquer frase.
a voz da b. é igual à voz da sua mãe. quando a vejo aqui, mesmo de costas, ouço o riso das duas.

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